Peshawar, Paquistão, 30/10/2009 – Estudantes do Paquistão querem ir às aulas a todo custo, apesar dos ataques terroristas a instituições educacionais que causaram várias mortes em todo o país.
Tiny Spogmay, de 7 anos, está chateada porque não pode ir à Escola Modelo da Universidade de Peshawar. Ela diz que quer assistir as aulas porque se aborrece fechada em casa, na capital da Província da Fronteira Noroeste, afundada na violência. Milhões de crianças e jovens são obrigados a permanecer em suas pelo mesmo motivo. A Província da Fronteira Noroeste é vizinha do Waziristão do Sul, nas Áreas Tribais Federalmente Administradas (FATA), onde o exército paquistanês realiza operações diretas contra a insurgência, em especial contra o movimento islâmico afegão Talibã. O governo desta província fechou cerca de 25 mil centros de ensino devido ao ressurgimento de atentados em todo o país.
Em 2001, combatentes do Talibã foram expulsos de Cabul por forças ocidentais lideradas pelos Estados Unidos, e buscaram refúgio nas FATA, de onde passaram para esta província e desde então semeiam o terror. Gul Ghutai, aluno da quarta série da UMS, está triste porque o fechamento de sua escola, que a afasta de seu sonho de ser médica. “quero cuidar das mulheres’, contou com orgulho, e criticou o “costume de fechar as escolas diante da menor ameaça”. O mesmo ocorre com Bilal Ahmed, estudante do primeiro ano da Faculdade de Medicina de Khyber, em Peshawar.
A decisão do governo obrigou as autoridades educacionais a cancelar os exames de avaliação. “Há dois meses que estudamos para essas provas”, protestou o jovem Ahmed. “A suspensão das aulas só serve para destruir nosso futuro”, acrescentou. A interrupção das aulas que afeta mais de 50 milhões de estudantes no país preocupa Arbab Jan Afridi, presidente da Associação de Funcionários Docentes de todas as Universidades do Paquistão. “O governo deve dar proteção às instituições de ensino, em lugar de fechá-las”, disse Jan à IPS por telefone desde Islamabad, acrescentando que essa decisão atrasa muito os estudantes e também tem um impacto psicológico e os aterroriza.
Mas o ministro do Interior, Rehman Malik, defendeu a suspensão das aulas porque os centros de ensino podem ser alvo de ataques da insurgência dentro da atual onda de atentados, o que já ocorreu com o ataque contra a Universidade Islâmica Internacional na semana passada. “Os insurgentes estão fugindo. Os derrotamos no vale de Swat e o mesmo vai acontecer no Waziristão do Sul”, disse Malik por telefone à IPS. Os talibãs estão desesperados para atacar em qualquer lugar e criar um clima de pânico, acrescentou.
Especialistas em explosivos do exercito desativaram duas bombas próximo de uma escola secundária estatal feminina na aldeia d eArbab Landi, em Peshawar, na terça-feira da semana passada. “Recebemos cartas com ameaças de que iriam bombardear a universidade se não fechássemos imediatamente as instituições mistas”, contou um funcionário que pediu para não ser identificado. Além de Swat, supostos insurgentes destruíram 377 escolas, a maioria para meninas, em outras localidades desta Provença e de FATA, com Darra Adamjel, Kohat, Peshawar, Charsadda e a Agência Orakzai desde princípios de 2007.
Entre 2007 e 2009, os talibãs destruíram 188 escolas de meninas e 98 para meninos em Swat e 500 mil alunos tiveram de abandonar suas casas, disse Kameen Jan, funcionário da educação desse distrito. As rígidas restrições que o Talibã pretende impor à população feminina explicam, em parte, o motivo de haver mais ataques contra escolas para meninas. Antes da suspensão das aulas, na escola pública de ensino médio para mulheres de Mardan, nesta província, as adolescentes eram obrigadas a usar burcas – roupa que cobre o corpo da mulher da cabeça aos pés – porque os talibãs as ameaçaram com severos castigos, explicou a diretora do colégio, Gul Jehan.
“no último dia 1º, uma estudante encontrou uma sacola de compras cheia de explosivos perto da escola e uma carta ameaçando castigar as alunas que não usavam burcas”, contou Jehan à IPS. Desde então, cerca de 800 adolescentes vão à escola usando essa roupa tradicional, acrescentou. O porta-voz do movimento islâmico, Muslim Jan, disse à IPS em março deste ano que o Talibã visava as escolas femininas porque “a educação das mulheres contrária o Islã. Elas devem ficar em casa e não se aventurar fora do lar”, afirmou. Cinco meses depois foi detido pelas autoridades.
O ministro da Educação da Província da Fronteira Noroeste, Sardar Hussain, Babak, estimou em US$ 200 milhões o custo de reconstruir as instituições educacionais atacadas. O governo necessitará da ajuda da comunidade internacional para cobrir essa elevada soma, acrescentou. Muitos estudantes querem que as escolas continuem funcionando apesar das constantes ameaças, mas alguns país não sabem qual a melhor decisão nas atuais circunstancias. “Não me agrada a idéia de suspenderem as aulas porque prejudica seriamente os alunos, mas também não permitir que meus três filhos vão à escola nesta situação”, disse Aziz-ur-Rehman.
O analfabetismo atingi 52,79% dos 160 milhões de habitantes do Paquistão, disse o educador Ishaq Ali. Se continuar neste ritmo, será extremamente difícil este país aproximar-se do nível educacional do Norte industrializado. “Gosto de estudar e quero que haja aula a todo custo”, disse Omar Hussain, estudante do Islamia College, de Peshawar, com seis mil alunos. IPS/Envolverde

