Rio de Janeiro, 03/11/2009 – São chamados de mergulhadores, catadores, fuçadores e tantas outras maneiras segundo o país latino-americano onde atuam. Mas, todos esses nomes refletem uma mesma discriminação social. Mais de 1.500 representantes destes trabalhadores procedentes de 12 países e outros milhares de visitantes, incluindo o Presidente do País anfitrião, Luiz Inácio Lula da Silva, reuniram-se entre quarta-feira e sexta-feira da semana passada, demonstrando com isso que já deixaram de ser párias em nossa sociedade do desperdício.
“hoje sinto orgulho de ser catadora”, embora persistam preconceitos contra esse trabalho, disse à IPS Lílian Nascimento, membro do brasileiro Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis e da equipe que organizou “Reviravolta Expocatadores 2009”. O encontro de articulação da Rede Latino-americana de Recicladores serviu para o diálogo com governos, empresários e organizações sociais e, ainda, para a exposição de projetos, tecnologias e iniciativas empresariais destinadas a melhorar a atividade dos catadores de desperdícios aproveitáveis.
Reviravolta significa uma mudança rápida, e catadores é como são conhecidos no Brasil os “pirujas”, escavadores ou “cutreros”, respectivamente Argentina, Venezuela e Peru. Catar é recolher, mas, em geral, indicando que se faz seletivamente, um a um, e no chão. “Catador é bonito e deve ficar como nome geral, latino-americano”, mas reciclador aparece como a identidade comum, mais formal, “sintonizada com a atualidade das questões ambientais e a crise climática”, afirmou Marisol Alvarez, da delegação chilena, que estava acompanhada de dois colegas e dois técnicos de organizações não-governamentais. Expocatadores 209 foi a primeira reunião desse tipo, promovida pelo movimento brasileiro e pela Rede Latino-americana.
O Presidente Lula anunciou uma linha de credito para que as cooperativas de catadores adquiram para sua atividade veículos elétricos criados por Itaipu, empresa que controla a hidrelétrica compartilhada por Brasil e Paraguai. Os direitos de patente do veiculo não serão cobrados dos catadores, assegurou. O ministro das Cidades, Márcio Fortes, acompanhado de Lula, destacou os recursos que sua pasta destina à infraestrutura das cooperativas de catadores, especialmente galpões para a separação do material reciclável.
“O orgulho dos recicladores”, ao organizar um evento tão grande, com “capacidade para a interlocução com o governo federal, ministros, bancos de desenvolvimento, empresas estatais e privadas e fundações, de forma autônoma”, é “o ponto mais forte e importante deste encontro”, disse Valdemar de Oliveira, diretor de Relações Institucionais da Fundação Avina, que apoiou a Expocatadores. A Fundação Avina e o Movimento Brasileiro de Catadores, junto com o Ministério de Desenvolvimento Social e instituições internacionais, lançou durante o encontro o programa “Cata-Ação”, para capacitação e inserção dos recicladores na cadeia produtiva em cinco cidades brasileiras, incluindo Brasília.
No Brasil, estima-se que trabalhem na coleta de lixo para reciclagem cerca de 800 mil pessoas. Perto de 600 mil participam do Movimento, organizados em cooperativas e associações, disse Nascimento, de 29 anos, oito deles como catadora. “Comecei por necessidade”, depois de ter trabalhado em bares e como faxineira em casas de família, recordou. “Ganho um pouco menos, mas trabalho para mim mesma”, com o orgulho adquirido ao conhecer “a importância do trabalho”, como sócia na Cooperativa de Reciclagem Unidos pelo Meio Ambiente (Cruma), de São Paulo. Mas, ainda sente preconceito, especialmente em trâmites em que precisa declarar sua profissão e os funcionários rejeitam sua identificação como catadora.
Encontros de recicladores são importantes para discutir e aprender sobre políticas públicas relacionadas com o lixo urbano, à luta por direitos, segundo a jovem recicladora. A Expocatadores fortaleceu a articulação entre as organizações de catadores em 23 dos 27 Estados do País, acrescentou. Algumas prefeituras reconhecem o serviço público que prestam, reduzindo a contaminação de ruas e rios, retardando o esgotamento dos lixões sanitários e a céu aberto que atormentam a gestão urbana. A mudança climática tende a valorizar ainda mais a atividade e os recicladores pensam em se beneficiar de créditos de carbono.
A Fundação Avina, que apoia o desenvolvimento sustentável na América Latina, promove uma “reciclagem inclusiva e solidária”, favorecendo a organização, capacitação e investimentos, como uma solução diante do problema ambiental do lixo, do crescente custo das matérias-primas e dos milhões de empregos gerados pela atividade. A Fundação estima que existam cerca de dois milhões de recicladores na América Latina, contando com movimentos nacionais organizados em seis países. Na Expocatadores, além dos brasileiros, participaram mais de 30 representantes dos outros 11 países integrantes da Rede Latino-americana de Recicladores e também uma delegação da Índia.
Líder na organização da Expocatadores 2009, Roberto Laureano da Rocha, nasceu em um bairro pobre da região metropolitana de São Paulo. Catador desde a adolescência, Rocha contou em sua história, colhida pela Avina, as humilhações que sofreu no começo, quando “pensávamos que catar lixo era a última opção de trabalho” para quem “não é suficientemente bom para nenhuma outra atividade. Às vezes, as pessoas jogavam água na gente quando sentávamos na calçada, diziam às crianças que os catadores eram monstros que os atacariam”, recordou. A tendência do grupo era considerar-se “como parte do lixo”, disse.
A criação da cooperativa Cruma mudou a vida, a autoestima e a compreensão dos recicladores e também a relação com as autoridades e a sociedade. Assim, Rocha voltou a estudar, concluiu o curso secundário, dá palestras sobre reciclagem e agora se mostra orgulhoso de ganhar o suficiente para manter os dois filhos e a mulher, grávida novamente, com uma casa ainda em construção. A chilena Marisol Alvarez, de 39 anos, também começou a catar lixo na rua “por necessidade”, quando ficou difícil conseguir emprego como operária em indústrias, como a de calçados, em Santiago. Agora, além de ganhar mais, “sou minha própria chefe” e dona do tempo, trabalhando segundo suas necessidades, “de manhã à noite, se for preciso”, ou apenas um período se não está necessitando de dinheiro.
A situação dos recicladores melhorou muito, com a atuação do Movimento Nacional apoiando as organizações pequenas, fomentando projetos, afirmou Marisol. Sua função ali é trabalhar junto às municipalidades para a organização da atividade, cadastros e apoios. “A população, mais consciente hoje, separa o lixo em sacos e nos entrega”, também conversa com os moradores. Tudo isso torna mais produtiva a coleta e melhora as condições de trabalho, explicou à IPS. Do encontro em São Paulo leva como incentivo o reconhecimento e o apoio do Presidente Lula ao trabalho dos recicladores, o melhor reconhecimento da Rede Latino-americana e da “qualidade das pessoas” que conheceu, apesar da dificuldade com a língua portuguesa, acrescentou. (IPS/Envolverde)

