ELEIÇÕES-NAMÍBIA: Filhos da independência votam pela primeira vez

Windhoek, 17/11/2009 – Não se impressionam com as credenciais de combate e questionam seriamente os políticos.

Venesa Karises - Servaas van den Bosch/IPS

Venesa Karises - Servaas van den Bosch/IPS

São os jovens “nascidos livres” e que eram crianças em 1990, quando a Namíbia proclamou sua independência da África do Sul, que estão convocados para irem às urnas pela primeira vez nos dias 27 e 28 deste mês. “O apartheid (regime de segregação em detrimento da maioria negra) terminou. Podemos, por favor, passar aos temas atuais?”, diz Jaimee-Lee Diergaardt, que tem pouca paciência com os idosos que sorriem nos outdoors espalhados pela cidade.

“Os candidatos não fizeram nenhum esforço para falar com a gente. Claramente nao somos seu objetivo”, suspira Diergaardt. “Mas, só porque as pessoas da minha idade não assistem ao programa de televisão Talk of the Nation não significa que não tenhamos problemas. Olhem este bairro, é como se todos fossem viciados em drogas”, acrescenta. Em um país com população jovem, como a Namíbia, o voto dos “nascidos livres” será crucial nos próximos 10 anos, embora esta geração se sinta desligada de seus líderes. “Os mais velhos sempre armam escândalo em relação à luta. Quando minha avó me conta sobre tiroteios, entendo que deve ter sentido medo. Mas, também já é hora de se tratar de outra coisa”, diz Diergaardt.

Ela se registrou há pouco tempo para votar nas eleições. “Minha família me convenceu. Minha avó diz que quem não vota não tem direito de se queixar. E eu me queixo muito”, acrescenta a jovem, que não vê a política com apatia. “Tenho opiniões. Por exemplo, sobre as horas de trabalho. Comecei a trabalhar há apenas três semanas, mas tenho algo para dizer sobre isso”, afirma. Ou sobre os direitos femininos: “Se o aborto fosse legal, haveria menos pressão sobre as mulheres”. Ela considera que as mulheres fariam melhor na condução do país. “Somos mais inteligentes”, assegura.

Esta morena de 18 anos procedente da área de Khomasdal, em Windhoek, sonha com uma carreira de designer de moda, enquanto ganha a vida como promotora de uma firma de telefonia celular. No ano passado terminou a série 12 e logo se matriculará no Departamento de Arte da Universidade da Namíbia. Sua posição relativamente privilegiada em uma sociedade desigual não a deixa cega às injustiças. “Meu futuro parece brilhante. Mas, com nossa nova liberdade também damos as coisas como assentadas. Quando estive na Austrália para um intercâmbio notei que os estudantes trabalham muito mais duro ali. Aqui, algumas pessoas nem mesmo tentam, enquanto outras não podem pagar os estudos”, afirma.

Terminar a escola é algo que Horstancia Namises, de 19 anos, sonha todos os dias, enquanto estuda à luz de vela na choça de sua mãe. “Estou tão feliz de ter voltado à escola” conta à IPS esta estudante da série 11 em um estacionamento abandonado, escuro com a boca de lobo em Otjimuise, município pobre e assolado pelo crime, que também carece de eletricidade. É época dos exames. No dia seguinte terá provas sobre afrikáans, o idioma nacional, e física. Ela disse estar preparada.

“Em 2006, minha vida desmoronou. Minha mãe perdeu o emprego e tive de cuidar de minhas quatro irmãs enquanto vivíamos no quintal de alguém. Nesse ano quase fui violentada e perdi toda confiança”, recorda. Os sonhos de um diploma em psicologia ou engenharia agrícola se evaporaram. Cerca de 52% dos estudantes do décimo grau fracassa. Ela teve de abandonar a escola para adaptar-se à controversa política da época na Namíbia. Uma mudança de regime e um patrocinador do Canadá lhe permitiram voltar às aulas no ano passado, e agora obtém as maiores notas. Horstancia está determinada a não engravidar, como muitas outras moças de sua escola. “Quando completar minha educação ainda terei de cuidar dos meus irmãos e irmãs”, explica.

Para ao grupo demográfico de Horstancia, a independência significou uma queda do sistema educacional, um impacto na área da saúde, aumento da pobreza, violência indiscriminada contra as mulheres e expectativa de vida muito mais baixa. Quando perguntada sobre seu país, suspira enquanto olha a escuridão e afirma que, “de todo modo, é maravilhoso nascer livre. Motiva. Se minha avó tivesse sido livre para ir à escola, talvez minha mãe não fosse uma doméstica e nós não teríamos de sofrer”, resume. Também a inspira o fato de ter uma tia parlamentar.

Morachia Job, de 17 anos, tampouco quer ter filhos. Com completará 18 apenas em fevereiro, não poderá votar nestas eleições. “Mas, terei oportunidade no próximo ano, nas eleições locais”, diz. Isso não a impede de entrar no cenário político com todo o entusiasmo que sua juventude permite. “Agora faço campanha pelo Congresso de Democratas. Digo às pessoas que é o único partido com representação igualitária para as mulheres, e perguntam: “Verdade?”. É genial, e acredito na política”, afirma.

“Nascer livre quer dizer que tudo é livre, embora se tenha de pagar por isso. Sob o apartheid, um homem negro simplesmente não podia comprar um carro, mesmo tendo dinheiro”, conta. Também existe a liberdade da mente, pensa. “Toda minha vida estudei em escolas particulares. Não tenho problema em dormir na mesma casa com pessoas brancas. Para os mais velhos isso ainda não é normal”, acrescenta.

Venesa Karises, de 18 anos, se registrou para votar porque deseja mudança na política. “Desde a independência tudo se referiu à luta. Agora que os nascidos livres estão votando isso já não importa. Não estivemos lá. Um manifesto político baseado na guerra da libertação não tem importância para nossa situação atual”, diz esta estudante do primeiro ano de psicologia.

“Dezenove anos depois da independência, 400 mil pessoas ainda vivem em profunda pobreza. Grandes áreas carecem de acesso à água potável e a violência de gênero continua”, resume. Como as demais, Venesa repudia a grande violência contra as mulheres. “Ontem, outra moça foi morta a facadas por seu noivo. Quem fará algo a respeito?”, pergunta. “Não vejo muitas melhoras depois da independência. Ainda há uma minoria que vive à custa da maioria. E nossa geração não está representada. Ser um nascido livre é ser um dom ninguém”, conclui Venesa. (IPS/Envolverde)

Servaas van den Bosch

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