Buenos Aires, 23/11/2009 – Promovidas como “florestas cultivadas”, as plantações de monoculturas florestais avançam sobre a floresta nativa e a pradaria de Brasil, Argentina e Uruguai, afetando o meio ambiente e a vida das comunidades, afirmam mulheres camponesas.
Entretanto, diante da próxima Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP 15), que acontecerá em dezembro em Copenhague, as companhias florestais, com apoio de governos e organizações internacionais, pretendem que as plantações sejam consideradas sorvedouros de carbono que podem mitigar o aquecimento global. Nas últimas semanas, organizações de mulheres rurais e ambientalistas da região tentaram, sem êxito, que sua voz fosse mais forte do que a das empresas florestais. Para isso, divulgaram uma declaração conjunta por ocasião do último Congresso Florestal Mundial, que aconteceu em outubro em Buenos Aires.
O congresso, patrocinado pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) e que teve participações de empresários, funcionários governamentais, especialistas e estudantes, insistiu que as florestas – incluídas as plantações – podem contribuir para reduzir as emissões de gases que provocam o efeito estufa. Em conversa com a IPS, Claudia Peirano, da Associação Florestal Argentina (AFOA), que reúne produtores do setor, argumentou que para atender a demanda pro madeira de uma população em crescimento já não se pode apelar para florestas nativas, sendo necessário expandir a superfície cultivada.
“A perda de florestas nativas não é responsabilidade dos cultivos florestais, mas da expansão agrícola”, disse Peirano, ressaltando que apenas 3% das florestas no mundo são cultivadas. Essa área, segundo as empresas, deveria aumentar para atender a demanda sem ocasionar desmatamento. “O consenso do Congresso foi claro: zero de desmatamento até 2020 e alternativas de maior produtividade para produzir madeira”, concluiu. Mas elas não coincidem. “Nós, mulheres do campo e da cidade, rechaçamos a expansão de projetos de monoculturas de árvores, celulose e papel nos quais sofre especialmente o ecossistema de pradaria de Brasil, Argentina e Uruguai”, disseram na declaração.
As mulheres consideram “enganosa” a promoção de plantações como sendo florestas e apontam os “inumeráveis impactos negativos” destes projetos na vida das famílias rurais e particularmente nas mulheres, que sofrem a “perda de poder” na média em que avançam os cultivos homogêneos. Denunciaram, por exemplo, a pressão das empresas para que as famílias vendam a terra, os poucos postos de trabalho que são criados para as mulheres, a escassez de água, e múltiplas situações de medo, violência, assedio sexual devido ao modelo de desenvolvimento “insustentável” promovido pelas plantações.
O documento, ignorado pelos presentes ao Congresso, leva a assinatura da Marcha Mundial das Mulheres (MMM), do Movimento de Mulheres Camponesas, do Núcleo de Amigos da Terra e do Centro de Estudos Ambientais, todos do Brasil. Pela Argentina, a declaração recebeu apoio da organização Grain, que centra sua luta contra a expansão da monocultura da soja, e, pelo Uruguai, da Rede Amigos da Terra, Mulheres Rurais e Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais, cujo secretariado internacional tem sede em Montevidéu e é conhecido pela sigla em inglês WRM.
Em conversa com a IPS, Cíntia Barenho, bióloga, ambientalista e membro do MMM, disse que no Brasil os Estados mais afetados pelas monoculturas de eucalipto, pinho e acácia negra são Bahia, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraná e São Paulo. Embora não haja dados certos sobre sua expansão, estima-se que no Brasil são mais de cinco milhões de hectares dominados por estas plantações que cresceram à custa de florestas, pradarias e também de famílias rurais, povos originários e quilombolas. Por exemplo, no Espírito Santo, a Aracruz Celulose tem 128 mil hectares de eucalipto e todos em território indígena e quilombola. De 40 aldeias que havia nessa região, hoje restam sete, diz o livro “Impacto da Monocultura do Eucalipto sobre as Mulheres Indígenas e Quilombolas no Estado do Espírito Santo”.
Nessa investigação as mulheres afirmam que as plantações provocam uma forte seca, alterações bruscas da temperatura, perda de uma extraordinária biodiversidade, redução da produção de alimentos, ressecamento de fontes hídricas e perda de fertilidade do solo. Neste aspecto, Peirano, representante da indústria florestal, afirmou que “qualquer intervenção implica um impacto”, mas disse que “há muito mito” sobre o excessivo consumo de água pelas espécies cultivadas. “O eucalipto, se plantado onde a chuva chega a 800 milímetros por ano, não precisa recorrer à água subterrânea”, afirmou.
Cíntia Barenho ressalto que na zona rural desses Estados “há uma forte pressão para as famílias venderem suas terras para companhias de papel e celulose”, o que implica um “aumento do êxodo rural” para as cidades, aumento do desemprego, da pobreza e da violência. Disse, ainda, que esta situação representa um retrocesso nos processos de reforma agrária e falta de incentivo ao desenvolvimento da agricultura familiar. Em contrapartida, as monoculturas “geram poucos empregos para as comunidades locais, e, para as mulheres, os números são ínfimos”.
As condições de trabalho são precárias, os contratos temporários. As mulheres são exploradas nos viveiros e os homens se integram a grupos que são enviados para diferentes pontos das plantações, promovendo a desintegração familiar, a proliferação do assedio sexual e da prostituição, explicou Cíntia. A bióloga coordena um estudo cujo título é eloquente: “A função da União Europeia na perda de poder das mulheres do sul através da conversão de ecossistemas locais em plantações de árvores”.
Raquel Gilmet, da organização Mulheres Rurais do Uruguai, falou à IPS do impacto das culturas homogêneas em seu país. “As famílias de pequenos produtores se veem cercadas e sem ter para onde ir. As árvores vão cercando as pessoas”, disse, referindo-se às plantações. No Uruguai estima-se que haja mais de um milhão de hectares de plantações, extensão que pode parecer escassa em relação à superfície do país, mas que tem impacto quando se concentra em zonas com outros ecossistemas naturais, segundo os denunciantes.
Gilmet tinha uma horta orgânica no departamento de Soriano, sudoeste uruguaio, mas agora “é impossível trabalhar limpo”, porque, neste caso em particular, devido à expansão da monocultura de soja à custa da pradaria. A leguminosa exige grandes aplicações de agroquímicos contaminantes para seu desenvolvimento. Nos arredores de Mercedes, capital do departamento, as plantações florestais deixam os povoados com escassa água e solo degradado. “É tremendo como avançaram ali as plantações. As fazendas vão ficando abandonadas, desabando. O governo diz que o produtor optou, mas nada faz pelas consequências que isto tem para a água e o solo no longo prazo”, denunciou.
Segundo Gilmet, o reflorestamento surge como “uma alternativa de trabalho” e no começo “as pessoas se deslumbram”, mas, depois se vê que uns poucos homens conseguem emprego. “A mulher fica sozinha com os filhos, pouco dinheiro, e muitas acabam pobres tendo de migrar para as cidades”, acrescentou.
Também no Uruguai, Elizabeth Díaz, da WRM, considerou “um disparate” as empresas florestais presentes ao Congresso de Buenos Aires pretenderem apresentar as plantações como sorvedouros de carbono. Para combater a mudança climática “deve-se reduzir drasticamente as emissões em todos os países, buscar energias alternativas e conservar as florestas, e não pensar em como compensar o que se continua emitindo”, disse à IPS.
Na Argentina, as monoculturas de árvores se expandiram em mais de um milhão de hectares e se projeta um grande aumento para os próximos anos, incentivado pelas autoridades que aceitam a ideia de que as plantações também contribuem para combater a mudança climática.
Segundo a FAO, por ano são cortados no mundo cerca de 13 milhões de hectares. Esse desmatamento responde por 17% das emissões de gases que provocam o efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento da atmosfera que leva à alteração do clima. O Brasil é um dos principais emissores de gases provenientes da perda de florestas e pradarias. (IPS/Envolverde)


