ÁFRICA: Jogadores de futebol contra a malária

Johannesburgo, 07/12/2009 – O goleiro da seleção nacional de futebol de Camarões em três copas do mundo, Joseph Antoine Bell, jogava bola quando criança para mitigar os sintomas da malária.

Charles Ssali (direita), jogador ugandês, de 12 anos, e Joseph-Antoine Bell. - Saaleha Bamjee-Mayet

Charles Ssali (direita), jogador ugandês, de 12 anos, e Joseph-Antoine Bell. - Saaleha Bamjee-Mayet

Agora, integrou-se à campanha Unidos Contra a Malária para acabar com a pandemia que mata uma criança a cada 30 segundos na áfrica. Bell e seus amigos foram criados em uma zona de malária endêmica e acreditavam que jogando futebol poderiam se livrar da doença.

“Como se lavar e respirar, a malária era para nós parte da vida. Quando nos sentíamos mal, íamos jogar, com a esperança de que desaparecesse”, contou o ex-jogador, eleito goleiro africano do século pela Federação Internacional de Historia e Estatística do Futebol (IFFHS). A campanha pretende aproveitar a paixão pelo futebol para formar alianças com jogadores, equipes, autoridades esportivas, governos e torcedores para acabar com a malária na África. A Copa do Mundo de 2010 na África do Sul, a primeira a ser realizada em um país africano, apresenta uma boa oportunidade para sensibilizar e tomar medidas contra a malária.

A cada 30 segundos morre uma criança vitima dessa doença na África. Isso significa que durante os 90 minutos regulamentares de cada partida do Mundial morrerão, em media, 180 crianças por causa da malária, que pode ser prevenida e tratada. “Noventa por cento das mortes derivadas da malária ocorrem na África. Desse total, 85% são de menores de 5 anos”, informou Herve Verhoosel, diretor de relações exteriores da Roll Back Malaria Partnership, organização criadora da campanha Unidos Contra a Malária (UAM). A doença agrava a pobreza no continente e custa pelo menos US$ 12 bilhões em perdas diretas, o que é um freio para o crescimento econômico, acrescentou.

“O mundo prometeu à África que acabaria com as mortes por malária ate 2015. Essa é a meta”, afirmou Christina Vilupti Barrineau, diretora de campanha da UAM. Como o futebol pode acabar com a malária? “O futebol é religião. Os jogadores são heróis neste continente e em todo o mundo. Quando falam, são ouvidos”, disse Barreineau, acrescentando que o esporte é considerado um exemplo de vida sã.

“O futebol é o exemplo mais forte de cooperação e construção de uma equipe para vencer. Não se trata apenas dos jogadores. Também há os espectadores e as autoridades. Todos contribuem para que o jogo seja bom”, disse Bell. “Com o futebol podemos chegar a todos, fazer com que participem, sintam-se importantes e que pensem como podem ajudar a combater a malária”, afirmou.

Os governos começam a ver como pode funcionar esta associação. “Em uma reunião que tivemos em Gana com ministros e outros funcionários, o ministro do Esporte não pôde comparecer porque estava com malária”, disse Barrineau. “Disse aos delegados presentes que esse foi o melhor discurso que ele poderia ter feito. Desde então contamos com o apoio de todos os ministros, que se comprometeram a dormir sob mosquiteiros”, explicou. Os mosquiteiros tratados com inseticidas são eficazes para prevenir a picada do mosquito transmissor da malária.

Junto com Bell, os jogadores Landon Donovan e Abby Wambach dos Estados Unidos, a UAM escolheu Charles Ssali, um jogador ugandense de 12 anos, como um de seus embaixadores. Ssali, sobrevivente da malária, integra a viagem de lançamento da campanha e leva sua mensagem a Nova York, Bruxelas e Adis Abeba, entre outras cidades. Graças ao futebol, jogou em torneios na Dinamarca e Suécia, mas isso teria sido impossível se aos 4 anos não tivesse sobrevivido à malária. Ssali agora usa mosquiteiro para dormir e incentiva seus companheiros e todos os que conhece a fazerem o mesmo. A malária é uma doença febril que pode ser recorrente e Bell disse que afetou seu jogo. Também destacou o impacto que a doença teve em seu aprendizado quando era criança.

A malária é a principal causa de faltas escolares nas zonas endêmicas, o que vai contra o ensino primário universal, um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. “Quando era criança e sofria de malária, não podia ir à escola. Por isso é importante combatê-la. Significa menos dias de aula e talvez menos sucesso”, acrescentou. Das crianças que sobrevivem à malária cerebral, mais de 200 mil desenvolvem deficiências cognitivas a cada ano, informou Barrineau. E ressaltou que “isso significa que estamos perdendo quem poderia ser herói como Joseph (Antoine Bell) ou Chares (Ssali)”.

Os fundos destinados à prevenção e ao tratamento da malária cresceram no último quinquênio, mas persistem deficiências importantes nas áreas mais afetadas pela doença. O Plano de Ação Global contra a Malária diz que entre 2007 e 2009 houve um déficit de fundos de US$ 1,6 bilhão. Calcula-se que em 2010 a África terá US$ 2,680 bilhões para combate a doença. Bell e Barrineau convocaram os lideres africanos a assumirem responsabilidades neste sentido. “A África não sofre de uma única doença. Apenas porque estamos combatendo a malária não significa que esquecemos a luta contra a corrupção. Se não tratamos a corrupção, então o dinheiro não chegará à malária. Devemos ter resultados, como os paises esperam de suas seleções de futebol”, disse Bell.

Pela primeira vez, os sócios privados da UAM doarão dinheiro ao Fundo Mundial de Luta Contra a Aids, a Tuberculose e a Malária. Entre eles estão Coca Cola África, o fabricante de combustível sintético Sasol e a empresa de celulares MTN. Outros sócios da UAM já fazem parte da luta contra a malária. A empresa têxtil Tanzania A to Z produz mosquiteiros tratados com inseticida, e a Sumitomo Chemicals elabora produto aprovado pela Organização Mundial da Saúde que é aplicado aos mosquiteiros, além de diversos tipos de inseticidas de longa duração. (IPS/Envolverde)

Saaleha Bamjee

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