Distrito de Bugesera, Ruanda, 08/12/2009 – Com pessoas a entrar e a sair do seu gabinete, cada interrupção resolvida calma e facilmente, a enfermeira responsável pela Imunização e Internamento no Centro de Saúde de Nyamata, no Distrito de Bugesera, é uma mulher cheia de confiança. Pronta a falar connosco no seu pequeno gabinete – uma cama para exames médicos num canto, um armário de ficheiros no lado oposto, uma comprida mesa de madeira com equipamento médico como termómetros, um estetoscópio e um número reduzido de documentos – Demitiri Mukandashimiye olha para a sua bem organizada secretária. A maior parte do seu trabalho, diz, consiste em admitir mães grávidas e imunizar crianças. Também tem de acompanhar as mães com vista a garantir que não falhem nenhum dia agendado para imunizações.
Mulheres ruandesas reflectem sobre liderança. Antes do trigésimo aniversário da Convenção Sobre a Eliminação da Discriminação Contra as Mulheres, Eunice Wanjiru, da IPS África, viajou para as zonas rurais do Ruanda para falar com as mulheres do distrito de Bugesera, na Província Oriental, sobre o que pensam terem sido os benefícios para as mulheres, agora que são a maioria no parlamento. Clique aqui para ouvir: reportagem áudio (mp3)
Mukundashimiye – que trata de casos urgentes mesmo às sete horas da noite, quando supostamente o hospital devia estar encerrado – acredita firmemente que a educação formal desempenhou um papel muito importante na sua vida.
Apelida-a de confortável. Viúva há seis anos, afirma que assumiu a sua responsabilidade de assegurar que nada falte aos seus filhos de tenra idade.
IPS: Como é que a educação formal influenciou a sua vida?
DEMITIRI MUKANDASHIMIYE: É muito diferente, porque agora que tenho educação, tenho um emprego e um salário. Posso ir a um banco pedir um empréstimo porque poderei pagá-lo com facilidade. Isso permite-me começar qulauqer projecto como, por exemplo, construir uma casa.
Uma mulher que não tem educação não pode tomar conta de si própria e da família financeiramente. Ao entrar num banco para pedir um empréstimo, qual é a garantia que vai oferecer? Não tem nenhuma fonte de rendimento.
IPS: Como é que a educação afectou o seu estatuto na comunidade?
DM: As pessoas respeitam-me, sou bem recebida em todos os sítios que visito. Lembram-se dos serviços que lhes presto e têm uma grande estima pela minha pessoa.
Sim, posso dizer que me ouvem mais e me respeitam ainda mais, e isso é algo que surgiu com o meu trabalho. As mulheres que visitam o hospital ouvem as minhas palavras. Tudo o que lhes digo é levado a sério.
Devido à minha posição, os meus colegas também me respeitam, e tratam-me com a consideração que mereço.
IPS: Acha que a formação formal está associada ao desenvolvimento das mulheres?
DM: Claro que sim. É necessária porque é óbvio que até as mulheres em posições de liderança chegaram lá porque estudaram. Têm os conhecimentos adquiridos através da educação, o que lhes permitiu chegarem a posições de liderança. Não se pode ser líder se não se tiver educação.
IPS: A sua educação influenciou-a como mãe, ou a sua habilidade de criar os seus filhos?
DM: Na vida existem muitas coisas que trato eu própria. Como viúva, recai tudo sobre os meus ombros. Apesar de não levar uma vida extravagante, posso pagar as minhas necessidades básicas. Em termos materiais , consigo sobreviver.
A educação também me aproximou dos meus filhos. Posso ajudá-los com os trabalhos de casa porque compreendo a importância da escola.
Quero que os meus filhos tenham boas notas na escola e obtenham os conhecimentos necessários para poderem avançar na vida. Nesta altura, recebem tudo o que querem de mim, graças à educação que me permitiu conseguir emprego. Também compreendo os problemas deles, à medida que vão ficando mais velhos, e ainda a melhor forma de os resolver.
Não digo que as mães sem educação não conseguem compreender os filhos mas, com a educação formal, acredito que é mais fácil compreender muitas coisas.
IPS: A senhora desejaria continuar a sua educação, se tivesse essa oportunidade?
DM: Sim, absolutamente. Gostaria de o fazer, mas agora não tenho meios para obter o financiamento necessário e não sei a que porta devo bater para arranjar um patrocínio. Penso que nem sequer existe essa facilidade. Não tenho a certeza se o governo oferece patrocínios àqueles que gostariam de melhorar a sua educação,
Também penso que as escolas de enfermagem aqui no Ruanda não são fáceis de encontar –compreende o que eu quero dizer. Boas escolas de enfermagem, com equipamentos, bons professores e outras facilidades que ajudem uma pessoa a melhorar a sua carreira neste campo.
IPS: Quais são as suas esperanças em relação à educação dos seus filhos e qual será a coisa mais importante que devem aprender na escola?
DM: Só quero que os meus filhos façam o melhor que podem, não quero que eles não consigam ser alguém, e é por isso que o meu exemplo serve de orientação. Quero que adquiram os conhecimentos necessários para lhes permitir ultrapassarem os problemas da vida, como problemas financeiros. Mas, acima de tudo, quero que aprendam na escola que nada é fácil e que tudo o que se obtém consegue-se apenas com trabalho duro.

