Nova York, 07/01/2010 – Mulheres de Ruanda podem dormir a noite inteira pela primeira vez em 15 anos, e veem que sua depressão e suas dores físicas desaparecem graças à prática de ioga.
Desde seu lançamento em 2007, milhares de mulheres violadas durante o genocídio ruandense de 1994, muitas das quais acabaram infectadas com o vírus HIV (causador da aids), foram beneficiadas com as aulas de ioga. Em cooperação com centros de atenção ginecológica que realizam operações de fistula em sobreviventes de violações, a organização agora prevê estender suas atividades às províncias orientais da República Democrática do Congo (RDC), um dos lugares mais perigosos para as mulheres.
Com o apoio formal da Organização das Nações Unidas – a primeira dada a uma iniciativa da ioga – Summerbell pensa expandir suas aulas também a outros lugares como Burundi, Serra Leoa e Somália, e também recebeu sugestões para visitar Afeganistão, Colômbia, gaza e Guatemala. Em recente viagem a Nova York, Summerbell conversou com a IPS sobre os desafios de ensinar ioga em países pobres açoitados por conflitos a pessoas que sofreram um grave dano físico e emocional.
“Por ter passado parte da minha juventude na Tanzânia, vi muitas ideias que chegam do Ocidente. Apesar de bem intencionadas, no geral são ingênuas, e eu temia que minha experiência com a ioga se convertesse em algo assim”, disse Summerbell. Mas o trabalho demonstrou que a ideia é um sucesso, e foi a primeira vez que a ioga foi incluída em um serviço de saúde mental programado em uma organização não-governamental médica africana, a We-ACTx.
IPS – Qual foi sua experiência ao ensinar ioga em um lugar como Ruanda?
Deirdre Summerbell – É muito diferente da forma como as mulheres praticam ioga no Ocidente. Para as ruandenses, o “corpo bonito” definitivamente não é o principal interesse. E é isto o que a torna mais efetiva, pois estas mulheres não têm ideias pré-concebidas sobre a ioga ou sobre o que se supõe que deva ser. Em nossas aulas aplicamos a ioga como exercício físico. Não é preciso se voltar à espiritualidade.
Outra coisa que naturalmente é muito difícil é pedir às mulheres que sejam fisicamente ativas quando se sabe que não têm o suficiente para comer e beber. Assim, além dos colchonetes para a ioga, fornecemos água e comida. Mas, gostaria de criar certa sustentabilidade neste tema, ensinando às mulheres, por exemplo, como desinfetar a água, o que também pode servir como um projeto de geração de renda. Em termos de hostilidade, encontramos certas dificuldades devido a uma visão propagada pelas igrejas evangélicas ruandenses de que a ioga é uma forma de satanismo. Mas, para mim, o nome ioga não é importante. Poderíamos chamar de físico-terapia, ou mitigação de traumas. É um meio para um fim.
IPS – Que tipo de impacto a ioga tem nas mulheres?
DS – Uma mulher disse que em seu corpo os ossos doíam o tempo todo e durante a ioga não sentiu nada. No começo sempre pensam que não podem fazer, que é coisa para criança. “Estou muito velha para isto”, dirá uma mulher de 28 anos. Mas, quando começam a se movimentar e usar seus corpos, logo se sentem orgulhosas de serem fortes e acabam com largos sorrisos em seus rostos.
Com um corpo forte há uma revolução em perspectiva. Se a pessoa se sente fraca, não está feliz consigo mesma. Mas se é forte, começará a gozar de grandes benefícios psicológicos também. E isso se aplica não apenas às mulheres com as quais trabalhamos, mas também às suas famílias, isto porque trazem seus filhos ou suas famílias inteiras, o que significa que às vezes terminamos com muitas pessoas a mais que assistem e participam das aulas.
IPS – O que está em sua agenda. Irá para outras regiões?
DS – As pessoas são muito ignorantes e indiferentes o uso da violação como arma de guerra, o que é horroroso. É um mistério perpétuo para mim o motivo de as mulheres tolerarem isto. Cada conflito que usa uma ferramenta particular torna essa ferramenta aceitável para o próximo conflito. As mulheres ocidentais precisam agir contra estes crimes. Este é um dos interesses que tenho no ensino da ioga às mulheres. Naturalmente, em cada região precisamos adaptar nosso enfoque a circunstancias culturais e sociais diferentes.
No caso da RDC, o mais provável é que trabalhemos com mulheres e adolescentes violadas recentemente e cujos traumas estão mais frescos do que naquelas mulheres com as quais trabalhamos em Ruanda. Com é uma região em guerra, sei que nossa segurança não pode ser garantida plenamente, mas, honestamente, seria difícil para mim viver se não fizesse algo para tentar ajudar. (IPS/Envolverde)


