CUBA-EUA: Novas tensões encrespam o clima

Havana, 11/01/2010 – Os governos de Cuba e dos Estados Unidos começam o ano com atritos que alimentam um clima pouco propício para as esperanças de diálogo e distensão abertas após à chegada à Casa Branca do democrata Barack Obama, visto inicialmente com simpatia pelas autoridades cubanas. Se 2009 acabou com a detenção em Havana de um cidadão norte-americano, acusado de espionagem, 2010 começou com a reiterada inclusão de Cuba em uma lista elaborada por Washington de nações “patrocinadoras do terrorismo internacional”, o que converte seus cidadãos em suspeitos de práticas dessa natureza.

A Casa Branca mantém Cuba na relação de países terroristas desde 1982. A novidade é que devido a uma frustrada tentativa de sabotagem aérea nos Estados Unidos no dia 25 de dezembro, os passageiros procedentes desta ilha caribenha e de outros 13 pontos do planeta serão submetidos a controles adicionais ao desembarcarem nos Estados Unidos. A lista inclui ainda Afeganistão, Argélia, Irã, Iraque, Líbano, Líbia, Nigéria, Paquistão, Arábia Saudita, Somália, Sudão, Síria e Iêmen.

Em uma extensa declaração divulgada na sexta-feira, a chancelaria cubana condenou essas medidas e defendeu sua “conduta intocável” e histórica de cooperação nessa área, que também figura em uma proposta de agenda para o diálogo apresentada pelo governo de Obama no ano passado. Na sexta-feira, a televisão cubana mostrou manifestações de apoio ao comunicado oficial e contra a inclusão de Cuba nessa lista, em centros educacionais, empresas e órgãos estatais. “Não exportamos terrorismo, exportamos saúde”, disse um trabalhador entrevistado no jornal da televisão.

“Cuba receita, por ser ilegítimo, o mecanismo pelo qual o governo dos Estados Unidos se dá o direito de certificar a conduta de outras nações em matéria de terrorismo e de divulgar listas discriminatórias e seletivas, com fins políticos”, diz a declaração do Ministério das Relações Exteriores. Este também acusou Washington de assumir uma posição “de duplo discurso por não julgar e permitir que sigam em liberdade os responsáveis confessos de horrendos atos terroristas contra Cuba”, que mataram 3.478 pessoas e deixaram 2.099 mutiladas, segundo a chancelaria.

Sobre isso, recordou a explosão de um avião de passageiros da Cubana de Aviación, no dia 6 de outubro de 1976, quando sobrevoava o litoral de Barbados, que matou 73 pessoas e foi o primeiro ato terrorista contra uma aeronave civil, em pleno voo, no hemisfério ocidental. “Seus autores, Orlando Bosch Ávila e Luis Posada Carriles viviam e ainda moram impunemente em Miami, o primeiro graças ao perdão presidencial de George Bush (1989-1993) e o segundo à espera de um prolongado julgamento por mentir e obstruir a justiça em um processo migratório e não pelas acusações de terrorismo internacional que merece”, diz o texto.

Após recordar que Cuba é “Estado parte dos 13 convênios internacionais existentes em matéria de terrorismo” e cumpre suas obrigações nesta esfera, a chancelaria afirmou que Havana coopera, inclusive ativamente, com o governo dos Estados Unidos. “Em três oportunidades (novembro e dezembro de 2001 e março de 2002), Cuba propôs a Washington um projeto de programa de cooperação bilateral para combater o terrorismo, e em julho de 2009 Cuba reiterou sua disposição de cooperar nessa área”, diz o comunicado.

Na última data mencionada, a questão está incluída em uma agenda que o governo de Raúl Castro expôs ao de Obama em julho passado diante de um eventual processo de diálogo para melhorar as relações bilaterais. A enumeração de assuntos inclui, entre outros, o fim do bloqueio econômico e a exclusão de Cuba da lista de países terroristas. Durante sua campanha eleitoral, Obama deixou aberta a possibilidade de desenvolver uma diplomacia direta com Cuba, e, logo após assumir o cargo, eliminou as restrições para envio de dinheiro e as viagens de residentes de origem cubana à sua terra natal.

Mas, nas últimas semanas, evidencia-se um retorno às épocas de atrito entre os dois lados do estreito da Flórida. Nesse contexto, analistas cubanos têm a impressão de que o setor de direita que controla o poder no atual governo democrata não está interessado em melhorar as relações com o governo Castro. Em seu último discurso, dia 20 de dezembro, o presidente cubano assegurou que são mantidos intactos os instrumentos da política de agressão a Cuba. “Washington não renuncia à destruição da Revolução e geração de uma mudança de nosso regime econômico e social”, afirmou Castro.

O clima de atrito foi alimentado pela detenção, no último dia 5, de um norte-americano a quem o presidente do parlamento cubano, Ricardo Alarcón, envolveu esta semana com uma empresa “que contrata para os serviços secretos norte-americanos” e é investigado pelas autoridades da ilha. Por sua vez, o governo dos Estados Unidos alegou que essa pessoa, que não foi identificada em nenhum dos dois países, “não está associada com nossos serviços de inteligência” e viajou a Cuba como parte de um processo de apoio a cidadãos cubanos de se conectarem à internet, se comunicarem e expressarem suas opiniões”.

O homem foi preso quando se preparava para viajar de regresso e, segundo as autoridades, durante sua estada dedicou-se ao abastecimento ilegal com fins subversivos de “sofisticados” meios de comunicação via satélite da sociedade civil. Em sua declaração, a chancelaria cubana cobrou novamente de Obama a libertação dos cubanos Antonio Guerrero, Fernando González, Gerardo Hernández, Ramón Labañino e René González, presos há mais de 10 anos nos Estados Unidos acusados de espionagem. (IPS/Envolverde)

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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