ZÂMBIA: Poucas oportunidades para as mulheres na política dominada por homens

LUSAKA, 02/02/2010 – Charity Mwansa, antiga ministra e deputada, sabe exactamente o que significa ser um dos muito poucos políticos do sexo feminino na Zâmbia. Quando deixou o funcionalismo público, essa decisão não teve nada a ver com o ser incapaz de fazer o seu trabalho: estava a escapar do mundo louco da política dominada por homens.

A experiente advogada é uma das últimas mulheres a rejeitar participar nas próximas eleições no país. Mwansa disse que, o ter de estar constantemente à defesa, a apagar fogos ateados por outras pessoas, e a estar atenta a conluios contra ela 24 horas por dia, se tornara um pouco cansativo.

“É isso que a política significa. Não é para os timoratos. É por isso que agora quero descansar.”

Embora o número de mulheres no governo tenha aumentado constantemente no resto da região da SADC, a Zâmbia, que vai às urnas em 2011, provavelmente registará uma redução do número de mulheres em cargos de tomada de decisão. Actualmente, há 24 deputadas de um total de 150 deputados. No governo há cinco ministras de um total de 21 ministros. Há só seis ministras adjuntas de um total de 20.

As mulheres constituem metade do eleitorado, mas representam menos de 15 por cento dos candidatos e dos funcionários eleitos no Parlamento e nas instituições de governo local, segundo a análise feita pelo Grupo de Pressão Nacional das Mulheres na Zâmbia (ZNWL) sobre as últimas eleições em 2006.

O ZNWL está a envidar esforços no sentido de convencer mais mulheres a candidatarem-se nas próximas eleições em 2011. Mas a directora do ZNWL, Tamala Kambikambi, disse à IPS que ficaria surpreendida se esse objectivo fosse atingido.

“Apesar dos discursos acerca da promoção da participação das mulheres em todos os níveis do processo de tomada de decisão, nenhum dos partidos políticos conseguiu atingir o limiar mínimo recomendado pela SADC de 30 por cento de mulheres em cargos de tomada de decisão,” disse Kambikambi.

O ZNWL identificou o baixo nível de educação e a deficiente condição económica como sendo algumas das barreiras que impedem mais mulheres de se candidatarem às eleições. As atitudes patriarcais e os costumes e tradições negativas, que não reconhecem as mulheres como parceiros iguais aos homens, constituem alguns obstáculos adicionais.

Os cargos de liderança dentro dos partidos são normalmente reservados aos homens, visto que as comissões executivas nacionais, dominadas por homens, continuam a escolher quem pode candidatar-se a cargos públicos. Kambikambi recomendou a adopção de uma política nacional clara apoiada por um enquadramento jurídico, com vista a orientar os partidos políticos sobre a aceitação de candidatos.

No entanto, Given Lubinda, deputado e membro superior do Partido Unido Para o Desenvolvimento Nacional, na oposição, afirma que os protestos sobre a forma como os partidos adoptam os seus candidatos são absurdos. “Todos, homens e mulheres, votam em pessoas que irão desempenhar funções nas comissões, incluindo a comissão de aceitação de candidatos. As mulheres votam connosco e, portanto, como é que alguém pode queixar-se de dominação masculina?”

Elizabeth Chitika, deputada que exerceu o cargo de ministra de governo para o Movimento Para a Democracia Multipartidária, no poder, não concorda.

“Os partidos dizem que escolhem o melhor candidato, mas assistimos a situações onde a mulher é o melhor candidato, mas escolhem um homem, às vezes no último minuto, depois da mulher ter feito todo o trabalho prepartório necessário para que o partido seja aceite nessa área,” disse Chitika.

Avisou que vai participar como candidata independente se o seu partido não a propuser como candidata nas eleições de 2011.

Edith Nawakwi, presidente do Fórum Para a Democracia e Desenvolvimento (FDD), na oposição, sabe o que é a discriminação do género. Ganhou uma dura luta contra homens poderosos para se tornar presidente do seu partido – a primeira mulher a disputar o cargo máximo.

Ela concorda que é difícil as mulheres serem aceites como candidatas mas, em vez de continuarem a referir-se aos desafios que enfrentam, as mulheres devem aceitar esses desafios e meter mãos à obra.

“As mulheres devem contactar os seus partidos com algo na mesa. Têm de dar provas da sua popularidade, o que quer dizer que têm de fazer campanha no seu eleitorado e conseguir o seu bilhete de entrada. Se estabelecerem o seu próprio nome, nenhum partido as pode ignorar.”

Nawakwi está agora a enfrentar críticas de alguns membros do seu partido que afirmam que ela não vai conseguir ganhar a presidência e que lhe pedem para desistir. Os críticos afirmam que ela passa mais tempo a ”ser uma esposa” para o marido polígamo do que a ser líder de um partido político que quer formar o próximo governo.

Nawakwi rejeita a acusação.

“Estou habituada a vencer as barreiras do género. Fui eleita pelo partido numa convenção dominada por homens; portanto, o facto de ser mulher não pode constituir agora um problema. É um fenómeno novo haver um candidato presidencial do sexo feminino, e não é surpreendente que isso cause algum nervosismo. Mas já lhes disse para ficarem calmos e observarem-me.”

Dos actuais candidatos presidenciais, ela tem a melhor educação, com graus académicos em economia e energia obtidos no Imperial College, em Londres. Também é uma política com muita experiência, tendo passado 15 anos em diversos cargos governamentais, e sendo também a primeira ministra das finanças na Zâmbia e na região da SADC. Também é uma mulher rica por direito próprio.

Mas Nawakwi tem uma confiança invulgar, mesmo entre as mulheres com recursos independentes. O ZNWL tem solicitado a uma mulher de negócios, Angelica Rumsey, que se candidate na sua aldeia na região norte da Zâmbia. Mas ela ficou desapontada com a experiência que teve durante as eleições de 2006.

“Espalharam-se mentiras acerca da minha pessoa. Enquanto discutia questões relacionadas com o desenvolvimento, os meus oponentes começaram a atacar o meu carácter. Vi tanta corrupção e jogos sujos durante as campanhas que fiquei indignada. Teria de rebaixar-me ao nível dos meus oponentes se quisesse ganhar um lugar, e não quis fazer isso,” disse Rumsey.

Também está relutante em financiar uma outra tentativa política. Os homens podem correr mais riscos e pedir empréstimos aos bancos e outras instituições de crédito, enquanto que as mulheres têm maior relutância em se envolverem em empreendimentos tão arriscados e, em todo o caso, não têm essa oportunidade, disse Rumsey à IPS.

“É mais fácil as mulheres que já estiveram no parlamento manterem os seus lugares porque receberam as suas remunerações e outros valores que podem usar, mas para nós, que queremos entrar no sistema, isso não é tão fácil, uma vez que temos de arranjar o dinheiro para as campanhas.”

Apesar de diversos acordos para promover os direitos das mulheres terem sido assinados e ratificados, Mwansa afirmou que a Zâmbia não os incluiu na legislação nacional nem os implementou. Ao deixar a política, ela tem só uma vaga esperança que as eleições em 2011 acabem com a discriminação do passado.

Zarina Geloo

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