FÓRUM SOCIAL MUNDIAL: Nordeste brasileiro na vidraça

Salvador, 03/02/2010 – A questão do Nordeste, uma das regiões menos desenvolvidas do Brasil, surgiu como problema no último dia de debates do Fórum Social Mundial Temático (FSMT).

Crianças regam a horta de uma escola agrícola no Nordeste brasileiro. - Mario Osava/IPS

Crianças regam a horta de uma escola agrícola no Nordeste brasileiro. - Mario Osava/IPS

Nada mais natural do que a questão nordestina emergir no contexto do desafio de levar adiante políticas que integrem todas as regiões deste país, no encontro de três dias Como conseguir que esta região, de 52,3 milhões de habitantes (27,6% da população nacional), com superfície de 1,5 milhão de quilômetros quadrados (duas vezes mais do que a França), atinja graus de desenvolvimento competitivos no plano mundial?

Embora os indicadores econômicos e sociais nordestinos tenham melhorado na última década, resta muito por fazer nesta região onde vive “a maior massa de famílias em situação crítica” do Brasil, afirmou o economista Ladislaw Dowbor, coordenador da mesa de debate “Estratégias de governabilidade” no FSMT, que terminou no domingo.

O Nordeste abriga também o sertão, o ecossistema semiárido que é uma das áreas mais secas do país. Investir na vocação mais evidente da região, o turismo, é uma das apostas do governo federal, em sociedade com organismos internacionais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Airton Saboya, pesquisador e economista do Banco do Nordeste do Brasil e um dos participantes do debate, citou como exemplo o Programa de Desenvolvimento do Turismo, que canaliza recursos para que os Estados e municípios implementem iniciativas para melhorar a qualidade dos serviços turísticos regionais.

Os fundos destinam-se a melhorar o saneamento básico, transporte, proteção ambiental e capacitação profissional em 14 polos onde foram identificados potencial turístico. Além do exuberante cenário tropical, cheio de praias e sol, o Nordeste tem um patrimônio cultural e histórico sem igual no Brasil. “A diversidade da região, seu rico acervo arquitetônico, artístico e de manifestações culturais, é sua carta na manga. Mas os agentes turísticos devem avançar na oferta de itinerários, ainda restritos ao circuito sol e mar”, disse a economista, socióloga e professora Tânia Bacelar, uma nordestina presente no debate.

Em sua opinião, a tendência para o futuro é o aumento da demanda por bens culturais, o que pode ajudar a inserir a região no cenário internacional. “A sociedade contemporânea avança para este tipo de consumo. Assim, o Nordeste, com sua multiplicidade de riquezas imateriais, tem preciosos ativos para oferecer”, disse Bacelar. “Além do mais, o turismo tem uma cadeia produtiva dinâmica que pode crescer muito se estiver associada à valorização do artesanato, por exemplo, atividade que gera emprego e renda sem a pré-condição da educação formal”, argumentou.

O Nordeste também se destaca em outras áreas, com a fruticultura. “As técnicas modernas de irrigação, de uso eficiente e econômico da água, permitem duas colheitas e meia de uvas por ano, o que transformou esta região no segundo polo produtor de vinho do país”, disse Saboya. Porém, o Nordeste é “castigado pelo funcionamento do sistema financeiro internacional”, destacou.

As pesquisas sobre os fluxos de captação e destino do crédito revelam que a maior parte dos bancos privados transfere parte da poupança nordestina para outras áreas do Brasil. O processo de intermediação financeira ajuda, então, a aprofundar as desigualdades entre as regiões, pois a maior parte dos recursos se destina a financiar atividades produtivas no sudeste, que já é a região mais industrializada e rica. Foi então novamente citada a importância reguladora dos bancos públicos como fator essencial para um Estado que pretende ser progressista. “O Banco do Nordeste, no aspecto de recapitalização, cumpre o papel crucial das instituições públicas de financiamento na correção dos desequilíbrios regionais”, afirmou Dowbor.

Os volumes anuais de recursos aplicados no Nordeste por esse banco passaram de US$ 756 milhões em 2002 para US$ 9,72 bilhões em 2009, ano em que foram realizadas mais de dois bilhões de operações de crédito. “Para nós que pesquisamos opções de organização para empregar de forma inteligente a poupança, trata-se de um dos vetores mais importantes para a democratização da economia”, argumentou Dowbor. E mais, prosseguiu: o processo funciona bem em grande escala e pode se expandir, com os ajustes necessários, a outros países. “Além disso, confrontar a produtividade econômica e social do dinheiro bem dirigido por uma instituição pública com o caos e a elitização gerados pelos grandes bancos privados e os fundos especulativos, constitui uma lição importante”, concluiu o professor. IPS/Envolverde

Denise Ribeiro

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