Salvador, 03/02/2010 – A questão do Nordeste, uma das regiões menos desenvolvidas do Brasil, surgiu como problema no último dia de debates do Fórum Social Mundial Temático (FSMT).
Embora os indicadores econômicos e sociais nordestinos tenham melhorado na última década, resta muito por fazer nesta região onde vive “a maior massa de famílias em situação crítica” do Brasil, afirmou o economista Ladislaw Dowbor, coordenador da mesa de debate “Estratégias de governabilidade” no FSMT, que terminou no domingo.
O Nordeste abriga também o sertão, o ecossistema semiárido que é uma das áreas mais secas do país. Investir na vocação mais evidente da região, o turismo, é uma das apostas do governo federal, em sociedade com organismos internacionais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Airton Saboya, pesquisador e economista do Banco do Nordeste do Brasil e um dos participantes do debate, citou como exemplo o Programa de Desenvolvimento do Turismo, que canaliza recursos para que os Estados e municípios implementem iniciativas para melhorar a qualidade dos serviços turísticos regionais.
Os fundos destinam-se a melhorar o saneamento básico, transporte, proteção ambiental e capacitação profissional em 14 polos onde foram identificados potencial turístico. Além do exuberante cenário tropical, cheio de praias e sol, o Nordeste tem um patrimônio cultural e histórico sem igual no Brasil. “A diversidade da região, seu rico acervo arquitetônico, artístico e de manifestações culturais, é sua carta na manga. Mas os agentes turísticos devem avançar na oferta de itinerários, ainda restritos ao circuito sol e mar”, disse a economista, socióloga e professora Tânia Bacelar, uma nordestina presente no debate.
Em sua opinião, a tendência para o futuro é o aumento da demanda por bens culturais, o que pode ajudar a inserir a região no cenário internacional. “A sociedade contemporânea avança para este tipo de consumo. Assim, o Nordeste, com sua multiplicidade de riquezas imateriais, tem preciosos ativos para oferecer”, disse Bacelar. “Além do mais, o turismo tem uma cadeia produtiva dinâmica que pode crescer muito se estiver associada à valorização do artesanato, por exemplo, atividade que gera emprego e renda sem a pré-condição da educação formal”, argumentou.
O Nordeste também se destaca em outras áreas, com a fruticultura. “As técnicas modernas de irrigação, de uso eficiente e econômico da água, permitem duas colheitas e meia de uvas por ano, o que transformou esta região no segundo polo produtor de vinho do país”, disse Saboya. Porém, o Nordeste é “castigado pelo funcionamento do sistema financeiro internacional”, destacou.
As pesquisas sobre os fluxos de captação e destino do crédito revelam que a maior parte dos bancos privados transfere parte da poupança nordestina para outras áreas do Brasil. O processo de intermediação financeira ajuda, então, a aprofundar as desigualdades entre as regiões, pois a maior parte dos recursos se destina a financiar atividades produtivas no sudeste, que já é a região mais industrializada e rica. Foi então novamente citada a importância reguladora dos bancos públicos como fator essencial para um Estado que pretende ser progressista. “O Banco do Nordeste, no aspecto de recapitalização, cumpre o papel crucial das instituições públicas de financiamento na correção dos desequilíbrios regionais”, afirmou Dowbor.
Os volumes anuais de recursos aplicados no Nordeste por esse banco passaram de US$ 756 milhões em 2002 para US$ 9,72 bilhões em 2009, ano em que foram realizadas mais de dois bilhões de operações de crédito. “Para nós que pesquisamos opções de organização para empregar de forma inteligente a poupança, trata-se de um dos vetores mais importantes para a democratização da economia”, argumentou Dowbor. E mais, prosseguiu: o processo funciona bem em grande escala e pode se expandir, com os ajustes necessários, a outros países. “Além disso, confrontar a produtividade econômica e social do dinheiro bem dirigido por uma instituição pública com o caos e a elitização gerados pelos grandes bancos privados e os fundos especulativos, constitui uma lição importante”, concluiu o professor. IPS/Envolverde


