Manila, 08/02/2010 – Todos os dias, a filipina Felisa, de 60 anos, revira o lixo nas movimentadas ruas desta cidade.

Segundo o Unicef, existem mais de 250 mil crianças em situação de rua nas Filipinas. - Kara Santos/IPS
Atualmente, é cada vez mais difícil encontrar lixo “bom”, como restos de metal ou garrafas usadas. No fim da noite, Felisa também tem de competir com uma longa fila do lado de fora da rede de fast food, onde um grande grupo de pessoas disputa parte das sobras. “O que antes era o trabalho de uma mulher idosa, agora é compartilhado por outras dez pessoas. Agora todos vivem do mesmo lixo”, disse Dennis Murphy, diretor-executivo do Urban Poor Associates (UPA – Pobres Urbanos Associados), que contou a história de Felisa.
A UPA é uma organização não governamental que ajuda as comunidades urbanas pobres em matéria de direitos de moradia no país. Dante, um catador de lixo, concorda que revirar o lixo nem sempre é uma tarefa simples. Natural da província agrícola de Negros Oriental, em um dos principais arquipélagos da ilha, mudou-se para Manila há quase 30 anos para ganhar a vida. Agora, conduz um carrinho de madeira pelas aldeias de Ciudad Quezon, em busca de algo para revender.
“Diariamente junto garrafas. Às vezes tenho sorte de encontrar velhos aparelhos de ar-condicionado, aço, velhas baterias de carros ou rodas”, disse à IPS na língua vernácula, apontando para duas rodas velhas em seu carrinho. “De vez em quando posso encontrar objetos bons. Mas a maior parte do tempo eles são poucos”, acrescentou. As histórias de Felisa e Dante destacam a falta de oportunidades de trabalho, bem como o fato de os centros urbanos absorverem a população pobre deste país do sudeste asiático.
Estudos da Organização Internacional do Trabalho e do Banco Asiático de Desenvolvimento indicam uma tendência de incomum migração inversa em tempos de crise. Na Tailândia, durante a crise financeira de 1997, cerca de 188 mil trabalhadores regressaram às áreas rurais. A maior proporção desses retornos foi observada na deprimida região nordeste do país, segundo dados do governo. As mudanças no emprego do setor não agrícola também foram observados na Indonésia e Coreia do Sul.
“Às vezes, quando uma comunidade é desalojada de um assentamento urbano, algumas famílias preferem voltar à província, em lugar de ir para um lugar distante ou em outra área de moradias ocupadas. Mas, na realidade, não têm nada que as espere na província, exatamente por isso vieram para as áreas urbanas em primeiro lugar”, disse Murphy. A Autoridade Nacional de Desenvolvimento Econômico, uma agência de grau ministerial nas Filipinas, afirmou que o país possui uma das concentrações urbanas mais densas e de crescimento mais rápido na região Ásia-Pacífico.
Mais da metade de seus 92 milhões de habitantes reside em centros urbanos, principalmente em Luzón, o maior arquipélago do país, e em Manila, uma das cidades de maior densidade demográfica do mundo. “A tendência é cada vez mais pessoas irem para as cidades”, afirmou Murphy, que participa dos esforços de ajuda a milhares de famílias no sentido de encontrarem melhores locais de assentamento nas cidades, particularmente em tempos de despejos.
Segundo o censo populacional, a população da área metropolitana da capital, conhecida como Metro Manila, quase duplicou, passando de 5,9 milhões, na década de 80, para 11,5 milhões em 2007. A média anual do crescimento da população está firme em 2,36%. A UPA estima que os pobres urbanos sem terra de Metro Manila são quase cinco milhões, ou cerca de 800 mil famílias. Na Ásia vive cerca da metade da população mundial que mora em favelas, de 581 milhões de pessoas, e espera-se que esse número cresça exponencialmente nos próximos anos.
A organização previu que, para 2030, cerca de dois bilhões de pessoas em todo o mundo viverão em favelas, principalmente na Ásia e África. Mesmo antes da crise financeira mundial iniciada em 2008, afetando grandes instituições financeiras e nações ricas em todo o mundo, a área urbana pobre de Manila há muito tempo convivia com o desemprego, a falta de moradia e a pobreza. “Definitivamente, a população urbana cresce a cada ano. A crise financeira mundial pode ser nova em outros países, mas, nas Filipinas, viver em crise não é novidade. Apenas piorou”, disse Von Mesina, vice-presidente da Coalizão Nacional de Pobres Urbanos (National Urban Poor Coalition).
Na última pesquisa da Fundação Ibon (das Filipinas), cerca de 71,4% da população do país se autoqualificou como pobre, contra 67,1% registrados em julho, devido ao impacto da crise, depois de dois tufões que devastaram áreas em Metro Manila e Luzón do Norte no ano passado. Um estudo do Banco Mundial indica que “os pobres das áreas urbanas são particularmente vulneráveis em tempos de crise, devido à sua forte dependência da economia monetária, à perda de empregos e às reduções de salário em indústrias baseadas nas cidades, e nenhuma produção agrícola em que se apoiar”.
Segundo Messina, “a porcentagem de pessoas formalmente empregadas nas Filipinas é de apenas 20% a 25%. Os demais, com emprego informal, entre eles os pobres rurais, como agricultores e pescadores, motoristas do setor de transporte, ambulantes e trabalhadores de fábricas, não integram os sistemas do governo”. Para abordar a situação, que piorou com a crise financeira mundial, no ano passado foi formada uma nova aliança entre grupos pobres de áreas urbanas chamada Kilos Maralita (Movimento para a Proteção Social dos Pobres). Mesina atua como facilitador da organização.
A campanha da aliança pretende destacar a luta dos pobres por seus direitos a moradia, e também exigir ampla gama de medidas de proteção social em um período de crise, que somente vai piorar a situação dos pobres das cidades. O Banco Asiático de Desenvolvimento projetou crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da região de 4,2%, em 2009, para 6,8% este ano. A emergente Ásia oriental inclui dez países do sudeste asiático, entre eles Filipinas, China, Hong Kong, Coreia do Sul e Taiwan.
Entretanto, tanto Murphy como Mesina alertam que este tipo de números raramente tem impacto nos setores mais pobres. “Embora a economia se recupere, isto só pode ser sentido no setor formal, como bancos e outras instituições. A crise econômica pode acabar, mas somente os empresários podem se recuperar”, afirmou Mesina. Segundo Murphy, “o que acontece na macroeconomia pode não ter relação com o que se passa com os pobres. As mesmas pessoas que sempre ganham muito dinheiro continuam ganhando dinheiro, então as cifras de crescimento nacional podem aumentar. Mas, para os pobres urbanos a história é diferente”. IPS/Envolverde

