FÓRUM SOCIAL MUNDIAL: O que mudou e o que falta mudar

Porto Alegre, 18/02/2010 – No Fórum Social Mundial (FSM) deste ano, o maior espaço para os que se opõem ao capitalismo, ganharam protagonismo os sindicatos e as cosmovisões não ocidentais, diz nesta entrevista o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos.

Boaventura de Sousa Santos no calor de Porto Alegre - Antonio Martins/IPS

Boaventura de Sousa Santos no calor de Porto Alegre - Antonio Martins/IPS

O sindicalismo – a seu ver – ocupa um novo lugar, não hegemônico e em diálogo com outros movimentos. O professor da Universidade de Coimbra destaca o valor da incorporação de concepções não ocidentais, mas alerta para o risco de virar moda a ideia indígena do “bem viver”.

Uma das tensões que subsistem no FSM se refere às relações entre movimentos sociais, partidos e instituições políticas. Sousa propõe a discussão das três formas de democracia, a representativa, a participativa e a comunitária. A longa jornada do FSM 2010 se estenderá por todo o ano, desdobrando-se em quase 40 fóruns em 22 países. A abertura foi no final de janeiro, com dois grandes encontros, um em Porto Alegre e outro em Salvador, que reuniram cerca de 30 mil pessoas.

IPS: Como avalia a abertura do FSM 2010?

Boaventura de Sousa Santos: Os progressos ocorreram nas áreas em que nosso pensamento ainda não está bem articulado: a mudança de civilização, a crise do capitalismo, os novos bens públicos e a importância das ideias e cosmovisões não ocidentais. O encontro de Porto Alegre revelou, ainda, o novo papel do movimento sindical e o protagonismo dos jovens.

IPS: A que se refere quando cita a crescente presença dos sindicatos?

BSS: Nos primeiros encontros do FSM, a participação dos sindicatos era muito limitada. O sindicalismo ainda se via como o grande movimento social e considerava que suas bandeiras e lutas eram as mais importantes. Na concepção que prevalecia na época, tudo o mais era folclórico e as organizações de trabalhadores corriam risco de perder força e energia, caso se misturassem com certas “extravagâncias”. O sindicalismo sofreu mais do que todos os outros movimentos na última década. Na Europa, em países do Sul como a Índia – inclusive em Estados governados por comunistas, como Kerala e Bengala Ocidental – foi registrada uma acentuada queda nos postos de trabalho e a desarticulação das organizações operárias. Mas, ao longo dessa década, aconteceu uma evolução notável. O movimento sindical percebeu a pujança do FSM e foi aderindo cada vez mais a ele. E um detalhe: ingressa sem nenhuma intenção de se apropriar de bandeiras nem de dominar o espaço. Quer dialogar de igual para igual. Vemos o que no Brasil é chamado de nascimento de um “sindicalismo dos movimentos sociais”, que implica incidir em outros temas ligados aos trabalhadores, como moradia, saúde e educação. Para quem trabalha, são temas tão importantes quanto o que ocorre dentro das fábricas. Esta mudança é percebida tanto no FSM como em outros espaços políticos. Constato esses novos ares nos seminários realizados por iniciativa da Universidade Popular dos Movimentos Sociais. Normalmente, os sindicalistas chegam muito convencidos de seu protagonismo, e com dificuldades para reconhecer a importância de outros atores. Porém, isso dura pouco. Em seguida, percebem que as lutas travadas contra a contaminação da água pelas mineradoras, para evitar que as monoculturas inviabilizem a pequena produção camponesa, ou para garantir o direito ao saneamento, são parte da mesma lógica de resistência ao capitalismo.

IPS: Há novidades do ponto de vista da teoria da emancipação social?

BSS: Está se ampliando o consenso de que não há contradição apenas entre capital e trabalho, mas também entre capital e natureza. Não só o trabalho é convertido em fator de produção, mas também a natureza é transformada em um recurso que se pode destruir sem nenhuma consideração pela sustentabilidade, nem no longo prazo, por nosso direito a estabelecer outra relação com a natureza. Outro êxito é a importância da luta pela paz. Meses depois do primeiro FSM, foram cometidos os ataques de 11 de setembro de 2001 contra as Torres Gêmeas e teve início a “guerra sem fim” contra o terrorismo, por parte do governo de George W. Bush. O Fórum se converteu em um espaço importante para essa bandeira, presente em atividades vinculadas à Palestina e ao Iraque, e às tentativas de estabelecer diálogos entre civilizações, como alternativa para o “choque” previsto por centenas de teóricos.

IPS: Nesse contexto está incluída a questão das cosmovisões não ocidentais?

BSS: Sim. Até o final da década, o FSM assumiu como tema o protagonismo indígena em muitas partes da América do Sul. Era algo já expresso em processos políticos do Equador e da Bolívia, que resultaram nas vitórias dos presidentes Rafael Correa e Evo Morales, respectivamente. As ideias deste novo sujeito incorporam ao debate o conceito do “bem viver”, como alternativa ao desenvolvimento infinito que rompe as relações entre homem, mulher e natureza. Além disso, ficou claro que as cosmovisões indígenas da América não são apenas uma contribuição específica para o FSM. Fazem parte de um conjunto vasto de pensamentos não coloniais originados na África, na Índia, na China, como o confucionismo. Embora seja costume fazer com que passem invisíveis no Ocidente, revelam que a esmagadora maioria da população mundial não vive segundo as regras do lucro infinito, da competição e da destruição do outro, mas segundo regras de convivência social que se apoiam em outra relação com a natureza e os bens públicos. Nisto vejo um perigo de banalização. Muitos assumem novos conceitos como o “bem viver” como uma moda, sem saber o que expressam exatamente. No “bem viver” há uma dimensão profunda de espiritualidade e religiosidade. O pensamento ocidental não é capaz de incorporar facilmente estes elementos. A religião foi colocada no âmbito do privado e transformada em uma opção sem vínculos com a vida política, econômica e cultural dos povos. Segundo essa lógica, há quem fale orgulhosamente de “bem viver” e se deleite comendo hambúrguer elaborado com componentes que viajam quatro mil quilômetros antes de chegar ao pão. É impressionante como se bebe água engarrafada nos FSM. E ninguém pensa no abastecimento de água potável gratuita, símbolo dos serviços públicos que devem ser restaurados.

IPS: Em qual aspecto o debate sobre as relações entre movimentos, partidos e política institucional poderia tornar o FSM mais efetivo?

BSS: O FSM teve um grande papel na redefinição política da última década. Em um momento de crise do sistema partidário, os fóruns afirmaram, com razão, que os partidos já não exerciam o monopólio da representação. Os movimentos e as organizações da sociedade civil são cada vez mais importantes para a construção de um futuro coletivo. Mas, também, e em razão disto, alguns partidos novos ou já existentes passaram a reconhecer o fim desse monopólio: o governante Movimento ao Socialismo (MAS) da Bolívia, a Aliança País, do Equador, e algumas forças na Europa. Estão presentes nas lutas sociais, aliam-se com os movimentos, buscam novas relações. Como responder a esta nova realidade? Voltamos à velha ideia de que os movimentos são temáticos e os partidos são gerais? Tentamos articular as várias formas de democracia? Procuramos combinar uma visão sobre as democracias representativa, participativa e comunitária com os diferentes atores de cada esfera, e como criar sinergias entre diversas formas de ação para a transformação social? O FSM deveria ser um espaço para esse debate. IPS/Envolverde

Antonio Martins

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