DESTAQUES: Ambientalistas reclamam sistema multilateral poderoso

NUSA DUA, Indonésia, 02/03/2010 – (Tierramérica).- Governos e organizações civis admitem a urgência de fortalecer as instituições globais para enfrentar com sucesso os desafios do aquecimento global.

Vista de Porto Alegre. A arquitetura ambiental também deve dar respostas ao ordenamento das cidades - Alejandro Arigón/IPS

Vista de Porto Alegre. A arquitetura ambiental também deve dar respostas ao ordenamento das cidades - Alejandro Arigón/IPS

Os ecos do fracasso da cúpula de Copenhague sobre mudança climática esquentam os debates sobre a reforma da arquitetura legal internacional. A sociedade civil cobra um novo sistema, mais ágil, efetivo e influente. Um grupo consultivo de ministros, formado há um ano para explorar mudanças no sistema multilateral, propôs nos encontros realizados no final do mês passado em Nusa Dua, centro turístico da Ilha de Bali, na Indonésia, uma série de iniciativas para que os países cheguem a um acordo no médio prazo.

Alguns governos e organizações da sociedade civil inclinam-se pelo funcionamento de vários organismos da Organização das Nações Unidas sob um mesmo guarda-chuva, enquanto outros propõem criar novas instituições. “Necessitamos de uma governabilidade ambiental fortalecida, com mais poder e maior orçamento”, disse ao Terramérica Alida Spadafora, diretora- executiva da Associação Nacional para a Conservação da Natureza do Panamá, ao término do Fórum da Sociedade Civil. “Não sabemos se deve ser um organismo ou um programa da ONU, mas deve ter mais influência e financiamento, porque cada vez é mais evidente que não conseguimos resultados”, destacou.

O fórum social precedeu às reuniões simultâneas extraordinárias das conferências das partes dos convênios de Estocolmo, Basiléia e Roterdã, sobre químicos e manejo de resíduos e substâncias perigosas, e à 11ª Sessão Especial do Conselho de Administração do Pnuma/Fórum Ambiental Mundial em Nível Ministerial, realizadas entre 22 e 26 de fevereiro, em Bali. Para Spadafora, “há contundentes evidências de que não estamos conseguindo reverter os graves problemas ambientais que temos, como mudança climática, perda de biodiversidade e tantos outros assuntos nos quais estamos ficando para trás”.

Maria Ivanova, diretora do Projeto Governabilidade Ambiental Global, descreveu este conceito como “a inclusão no desenho e execução de políticas das organizações da sociedade civil”. Ivanova, que também participou do fórum social, afirmou que poucos assuntos são tão intrinsecamente globais como o do meio ambiente, mas as instituições criadas “provaram ser incapazes de resolver os problemas”. Daí a necessidade de uma mudança, afirmou. Para esta especialista da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, existem dois discursos em torno da governabilidade ambiental. Há os que definem o sistema como exitoso e aberto a organizações não governamentais, e há aqueles que acreditam que é disfuncional, excessivamente fragmentado e que compete pelos recursos.

“Ter muitas instituições não é necessariamente ruim, mas quando não há cooperação e competem pelos mesmos recursos, então há fragmentação…, e os problemas ambientais continuam piorando”, alertou Ivanova. A necessidade de uma reforma “é um assunto no qual coincidem governos tão diferentes como o dos Estados Unidos e o do Irã, que expressaram, em momentos diferentes, preocupação pela contínua degradação ambiental e coincidiram em que as instituições multilaterais devem ser melhoradas”, acrescentou.

Tanto os ministros quanto a sociedade civil e o próprio Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) concordam que a comunidade internacional precisa de instituições efetivas, poderosas, com fundos e, sobretudo, coordenadas. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou em carta enviada à conferência que as questões ambientais “não podem ser resolvidas com instituições fracas” e exortou no sentido de serem “criativos e produtivos” ao analisarem alternativas.

Todos concordam que as mudanças não acontecerão antes da próxima conferência sobre mudança climática, em novembro, no México, mas o processo terá começado com vistas à Conferencia das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável de 2012, no Rio de Janeiro (Rio+20). “Se os governos querem fazer reformas e propor estratégias para um acordo de sucesso no Rio, devem começar a dar sinais claros a partir de agora”, disse ao Terramérica o diretor-executivo do Pnuma, Achim Steiner.

Um exemplo de sinergia em busca de maior eficácia, segundo Steiner, se manifestou nesta primeira reunião simultânea dos convênios de Estocolmo, Basiléia e Roterdã. Os executivos e especialistas dos três tratados começaram a trabalhar de forma coordenada e cooperativa para que os instrumentos de regulação que oferecem aos Estados-parte sejam mais eficazes para evitar que os tóxicos cheguem ao organismo humano e à vida silvestre. A sociedade civil reclama essa nova arquitetura, sobretudo porque considera que o maior poder se refletirá depois nas políticas governamentais.

Em muitos países os assuntos ambientais não têm nem mesmo ministério e os recursos destinados são escassos. O Fórum da Sociedade Civil divulgou um documento no qual consideram “essencial acelerar a implementação de reformas” na governabilidade ambiental internacional. De sua perspectiva, as reformas deveriam melhorar a dimensão ambiental de outras instituições do sistema multilateral, como a Organização Mundial do Comércio, a Comissão sobre o Desenvolvimento Sustentável, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.

* A autora é correspondente da IPS

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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