Caracas, 03/03/2010 – Um manto de solidariedade internacional cobriu o Chile, enquanto chovem ofertas de cooperação em auxílio das vítimas e da reconstrução do país depois dos devastadores terremoto e maremoto do dia 27 de fevereiro.

O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, visita Michelle Bachelet para coordenar a ajuda internacional. - Presidência do Chile
“Meus pensamentos e minhas orações estão com todos os irmãos do Chile. Todos podemos ajudar”, disse Shakira, enquanto Sanz escreveu “uma vez mais a natureza golpeia. Estejamos atentos para as plataformas de ajuda que se habilitarem”. Juanes, por sua vez, disse, no próprio sábado, que “Todos somos chilenos hoje” e pediu aos seus seguidores que olhassem para o país. A ex-modelo norte-americana Cindy Crawford se mostrou “muito preocupada com o desastre no Chile”, enquanto Longoria pediu “rezem pelos irmãos chilenos”, com fez Oswaldo “Ozzie” Guillén, gerente venezuelano da equipe de beisebol Medias Blancas, de Chicago.
As redes também foram procuradas com mensagens de busca e ajuda. “Preciso de notícias para poder tranquilizar seu pai que vive na Argentina e nada sabe sobre Raúl Dragonetti e sua família, que vivem em Concepción, na esquina da Ararranza com Freire, em frente ao Colégio Dom Bosco. Obrigado. Mario, Buenos Aires”, foi uma típica mensagem. Enquanto isso, as esferas tradicionais de liderança e poder também se manifestavam de modo praticamente unânime, do papa Bento 16, que uniu às suas orações um chamado à “solidariedade, em particular as organizações eclesiásticas”, até o governo comunista da Coreia do Norte, que enviou mensagem de condolências.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva viajou, na segunda-feira, a Santiago para expressar solidariedade e coordenar a cooperação imediata do Brasil com base na lista de prioridades da mandatária chilena, Michelle Bachelet. “O Chile não merecia uma catástrofe como esta”, afirmou Lula. A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, chegou ontem com o mesmo propósito, em uma série de curtas viagens de alto nível, que incluem o presidente do Peru, Alan García, e o chanceler da Bolívia, David Choquehuanca. Os dois vizinhos sul-americanos têm atritos diplomáticos com o Chile, o que realça o gesto.
Inicialmente, Bachelet havia agradecido a onda de ofertas de cooperação, mas explicou que não era necessária ajuda imediata. Contudo, na segunda-feira, começou a detalhar uma lista de ajuda urgente, com destaque para hospitais de campanha. Além disso, afirmou que serão necessários altíssimos recursos e assistência para apoiar a reconstrução de, pelo menos, 1,5 milhão de casas destruídas em um terremoto de 8,8 graus Richter, seguido por um maremoto nas localidades costeiras do sul do país. Até agora, o número oficial de mortos é de 723, saldo provisório, enquanto os desabrigados superam os dois milhões.
Carlos Portales, embaixador do Chile junto às Nações Unidas em Genebra, disse que é necessário o envio de equipes de avaliação de danos, e que de imediato são necessários telefones via satélite, pontes móveis, geradores elétricos, tendas e hospitais de campanha, além de equipamentos de diálise. “Na realidade, o que as pessoas mais vão precisar é de recursos próprios, dinheiro, para poderem se manter para reconstruir e manter sua vida”, disse à IPS Francisco Vivero, presidente da Casa do Chile, organização de chilenos na Venezuela, enquanto se preparava para viajar a fim de auxiliar seus parentes em seu país.
A União Europeia já concedeu uma ajuda emergencial de US$ 5,4 milhões, o Japão dispôs de US$ 3 milhões, a China de US$ 1 milhão, a Corporação Andina de Fomento colocou à disposição de Santiago suas alavancas financeiras e o Sistema Econômico Latino-Americano também ofereceu a cooperação que for necessária. A Rússia anunciou ontem o envio de dois aviões com ajuda humanitária, enquanto o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, o chileno José Miguel Insulza, chegou ao seu país na segunda-feira para estabelecer quais apoios imediatos o sistema continental pode proporcionar.
O presidente Lula, que viajou para a posse de José Mujica como novo presidente do Uruguai, disse que o Brasil “será tão solidário com o Chile como tem sido com o Haiti”, devastado por um terremoto que deixou mais de 200 mil mortos em 12 de janeiro. Uma diferença essencial entre os dois países, e os termos da ajuda internacional oferecida, é que o Haiti é a nação mais pobre do continente americano, bem distante da renda nacional por habitante do Chile, além das instituições e da vasta experiência no manejo de desastres sísmicos que os chilenos possuem.
Por isso a ajuda internacional não foi precipitada e aguarda que o próprio Estado chileno avalie os danos e peça apoio concreto. “Nosso hemisfério se une em tempos de crise e estaremos lado a lado com o povo do Chile nesta emergência”, disse a secretária Clinton. Praticamente, todos os países americanos enviaram mensagens de solidariedade e condolências pelas mortes e pela devastação do dia 27, bem como ofertas de ajuda material na medida de suas possibilidades.
Destaque para as enviadas por Bolívia e Peru, que mantêm com o Chile litígios que possuem suas raízes no século XIX e cujos governos frequentemente entram em atrito com o de Santiago, a ponto de La Paz não manter relações diplomáticas com seu vizinho desde 1978, enquanto Lima mantém um processo no Tribunal Internacional de Justiça de Haia. “É gravíssimo ver nossos irmãos latino-americanos mortos por um terremoto. Sinto que a natureza não suporta as políticas que destroem o meio ambiente, que a mãe Terra se enraivece. Como fizemos no Peru e o Haiti, vamos compartilhar o pouco que temos com o povo chileno”, afirmou o presidente boliviano, Evo Morales.
No Peru, o presidente Alan García decretou um dia de luta nacional, determinou o hasteamento da bandeira nacional a meio-pau em todos os edifícios públicos e disse que seu país “está a serviço do governo e do povo chileno para o que precisarem”. Também teve um toque humano especial a solidariedade expressa por Rafael Correa, presidente do Equador, que, além de se solidarizar com o Chile, destacou a especial comoção pelo que tem de suportar “nossa grande amiga” Michelle Bachelet.
De fato, nas redes sociais são muitos os comentários destacando sua solidariedade concreta com o fato de Bachelet encerrar seu mandato, no dia 11, enfrentando uma das piores catástrofes de um país habituado aos golpes da natureza. “Ela não merece isto”, “que pena para Michelle” e “me dói muito Bachelet” são expressões repetidas de solidariedade especial com a presidente, nos comentários na rede Twitter feitos por pessoas de todas as partes em canal especial sobre o terremoto que atingiu o Chile. IPS/Envolverde

