ANÁLISE: Solução para a dívida islandesa se chama geotermia

ST. AUGUSTINE, Estados Unidos, 16/03/2010 – (Tierramérica).- Por meio de sua energia geotérmica, a Islândia poderia pagar sua dívida externa fornecendo eletricidade limpa aos credores, propõe neste artigo a economista Hazel Henderson.

 - Claudius

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Mais de 90% dos cidadãos da Islândia se negaram, no referendo do dia 6 deste mês, a pagar US$ 5,3 bilhões da dívida feita para salvar seu falido banco Icesave. O valor equivale a 45% da produção nacional do ano passado. Assim, abriu-se caminho para o engenhoso Plano pela Dívida, proposto pela Fundação Planck, do empresário e filantropo Gijs Graafland.

Trata-se de convidar os investidores privados e públicos a desenvolverem a ilimitada fonte de energia termal que a Islândia possui, convertê-la em eletricidade e enviá-la para a Grã-Bretanha e a Holanda através de linhas de corrente contínua de alta voltagem. Deste modo o país pagaria a essas duas nações a dívida contraída para que o banco devolvesse os depósitos aos seus acionistas.

Especialista em energia e finanças, Graafland diz que a Islândia, situada entre duas das placas tectônicas da Terra, tem próximo à superfície, e não a grande profundidade como em outras partes do mundo, uma ilimitada energia geotérmica, proveniente do centro do planeta. “A Islândia pode converter-se na Arábia Saudita do Norte em energia geotérmica”, afirmou.

Há poucas barreiras técnicas para desenvolver os recursos geotérmicos islandeses, e muitas linhas de transmissão de alta voltagem similares já operam na Europa, China, Brasil e Japão. Os principais fornecedores são as empresas ABB e Siemens, mas muitas outras linhas serão conectadas até 2013. As mais novas levam energia renovável de diferentes origens, como a eólica na Europa e a solar nos Estados Unidos.

O fator mais inovador do Plano Energia pela Dívida é que reembolsaria os investidores com fornecimentos seguros de energia elétrica, em lugar das voláteis moedas. Esta nova “moeda de quilowatts/hora” será mais sólida do que as emitidas pelos Estados. De fato, atualmente, os bancos centrais estão salvando seus distorcidos e corruptos setores financeiros com fundos a juro zero, comprando ativos tóxicos e aumentando a emissão de dinheiro. Os islandeses rechaçaram a injustiça de salvar os bancos privados e os ingênuos poupadores britânicos e holandeses tentados por taxas de juros absurdamente altas.

O acordo de reembolso ao qual haviam chegado os governos dos três países forçaria cada um dos 350 mil islandeses a pagar US$ 135 mensais durante os próximos oito anos. O colapso bancário causou profunda recessão e desemprego de 9% nesse país. Com o Plano Energia pela Dívida, a Islândia poderia não só restaurar sua economia, como também devolver seu dinheiro aos poupadores britânicos e holandeses na nova “moeda elétrica” à prova de riscos inflacionários.

Agora que o referendo emitiu um sinal claro, é possível que o governo islandês possa apoiar o plano de Graafland, criando um contexto idôneo para a participação da ABB, Siemens ou outras empresas do setor elétrico. Por seu lado, os governos da União Europeia poderiam dar as garantias necessárias para que os fundos de pensão invistam nesse plano, pois tais financiamentos de longo prazo são ideais para seus beneficiários.

Os fundos do Grupo Institucional de Investidores sobre a Mudança Climática, que representam US$ 17 trilhões, se comprometeram a incrementar seus investimentos “verdes”. Importantes meios financeiros também avaliam o Plano Energia pela Dívida, mas esperam que os atores se unam e que o governo dê o sinal para ir em frente. Este plano pode muito bem desencadear uma nova “febre energética”, já que muitos investidores estão interessados nas fontes limpas e renováveis.

Restam pouquíssimos “movimentos” possíveis dentro dos velhos circuitos monetários, como a compra especulativa de petróleo, matérias-primas e recursos renováveis, entre eles as florestas e as terras da África. Inclusive os bônus da dívida pública de muitas nações agora são atacados por especuladores que controlam a maioria dos US$ 3 trilhões das transações diárias do mercado monetário internacional.

Apesar da crise financeira de 2008, seguem sem regulamentação os perigosos fundos abutres, obscuros fundos comuns, vendas no curto prazo a descoberto, coberturas por riscos fictícios e produtos derivados, que atemorizam a maioria dos investidores. Muitos poupadores evitam Wall Street e os bancos “muito grandes” e movimentam seu dinheiro para entidades locais, organizações creditícias sem fins lucrativos e plataformas eletrônicas de comércio monetário livre.

O influente boletim informativo norte-americano “Energy and Capital” teve como manchete, no dia 5 deste mês, “Por que a energia é a única moeda verdadeira”, e alertou os poupadores sobre os riscos dos mercados não regulados. As empresas industriais, os fundos de pensões e os investidores institucionais “verdes”, como os que aderiram aos Princípios para o Investimento Responsável das Nações Unidas, que totalizam US$ 19 trilhões, podem tomar a vanguarda no financiamento do Plano Energia pela Dívida.

Junto com as garantias dos governos britânicos e holandês, e um sinal positivo das autoridades islandesas, este plano pode proporcionar um modelo criativo e se constituir em um farol para o Novo Acordo Verde Global das Nações Unidas. Islândia e Europa poderiam olhar para um futuro de energia limpa proveniente de suas próprias fontes.

* Hazel Henderson é economista e autora de “Ethical markets: growing the green economy” (2007), coautora do “Índice sobre a qualidade de vida Calvert-Henderson”, integrante do Clube de Roma e da Royal Society of Arts da Grã-Bretanha.

Hazel Henderson

Hazel Henderson, futurist, evolutionary economist, is author of ''Beyond Globalisation'' and other books (www.hazelhenderson.com).

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