Nova York, 31/03/2010 – Enquanto continua a crise humanitária no Haiti, com mais de um milhão de desabrigados à véspera da temporada de chuvas, a comunidade internacional se reúne para esboçar uma reconstrução no longo prazo e superar uma história de fracassados esforços de ajuda a esse país caribenho.
Os oradores do encontro serão o secretário-geral Ban Ki-moon, o ex-presidente norte-americano Bill Clinton, que também é o enviado especial da ONU ao Haiti; a secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton, e o presidente haitiano, René Préval. A conferência será copatrocinada pela ONU e pelos Estados Unidos e presidida por Brasil, Canadá, Espanha e União Europeia, governos que deram ao Haiti substancial ajuda humanitária nos meses seguintes ao terremoto de 12 de janeiro, que destruiu mais de 60% de Porto Príncipe e matou cerca de 200 mil pessoas.
Segundo a administradora do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), Helen Clark, a meta é conseguir US$ 3,8 bilhões para projetos de reconstrução no curto prazo, segundo a própria avaliação feita pelo governo haitiano. Em editorial no jornal The Washington Post do dia 29, Ban escreveu que esse país precisa de US$ 4 bilhões no curto prazo e mais US$ 11 bilhões em investimentos estrangeiros totais na próxima década.
A conferência acontecerá apenas uma semana após o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, propor destinar US$ 2,8 bilhões do próximo orçamento federal a esforços de ajuda ao Haiti, dos quais US$ 1,2 bilhão canalizado por meio dos planos de reconstrução e recuperação coordenados pela agência de desenvolvimento norte-americano Usaid.
Em entrevista coletiva no dia 29, Edmond Mulet, representante especial de Ban junto à Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), explicou que o dinheiro que for prometido nesta reunião de doadores será administrado durante os próximos 18 meses. “O Haiti precisará de US$ 4 bilhões para reconstruir e refazer o país de forma a colocá-lo no caminho do crescimento e da modernização”, afirmou.
Em seguida, explicou que os fundos seriam administrados por uma comissão especial, liderada pelo governo de Préval, dirigida com a ajuda de governos doadores e instituições internacionais. Na mesma entrevista, Clark disse que a comunidade internacional estava “começando quase do zero” em termos de dinheiro especificamente destinado a projetos de reconstrução do Haiti.
Organizações não governamentais veem a conferência de Nova York com cauteloso otimismo. Cathy McAllister, da Fundação Haitiana para um Desenvolvimento Sustentável, disse esperar que a Conferência obtenha maior participação dos líderes locais no processo de reconstrução. Entretanto, alertou que, sem programas específicos de geração de empregos, o dinheiro dos doadores pode terminar replicando algumas das condições sociais e econômicas que levaram a que o terremoto tivesse consequências tão graves.
A preocupação é que, “por exemplo, o negócio das grandes fábricas no Haiti apenas perpetua a prática de pessoas abandonarem o campo em busca de emprego na cidade e repita o ciclo que vivia Porto Príncipe antes do terremoto”, afirmou McAllister. Por sua vez, Bryan Concannon, do Instituto para a Justiça e a Democracia no Haiti, destacou a importância de que a conferência de Nova York coloque o povo haitiano no centro dos esforços de reconstrução.
Afirmou, ainda, que Porto Príncipe ficou debilitada pela decisão de Washington de suspender sua ajuda econômica entre 2000 e 2004, em lugar de girar os fundos por meio das três mil organizações não governamentais que prestavam serviços nesse país. O resultado dessa medida, tomada pelo governo de George W. Bush, foi que o governo haitiano enfrentou grandes dificuldades para fornecer serviços básicos antes do terremoto, que matou quase um quarto dos 72 mil funcionários públicos.
Concannon destacou a importância de que o governo de Préval seja transparente e democrático nos esforços de reconstrução. “Muitos falam de responsabilidade financeira do governo haitiano. Há uma segunda responsabilidade que para mim é mais importante: a política”, disse. Enfatizou também que não devem ser canceladas as eleições previstas para o final deste ano e que o governo crie políticas de moradia e posse da terra que impeçam o aumento dos problemas sociais e econômicos existentes antes do terremoto.
Os organizadores da conferência de Nova York parecem saber bem a história de fracassadas iniciativas de desenvolvimento no Haiti. O lema não oficial do encontro, “Reconstruindo melhor”, foi repetido em várias ocasiões durante a coletiva e no editorial de Ban. “A comunidade internacional não havia trabalhado com o governo antes. Se não atendermos a situação agora mesmo, veremos missões de manutenção da paz e intervenções internacionais no Haiti durante os próximos 200 anos”, ressaltou Mulet. IPS/Envolverde


