ALIMENTAÇÃO-BOLÍVIA: Dano ambiental causa fome

La Paz, 01/04/2010 – O afastamento das práticas tradicionais da agricultura e a falta de cuidado com o meio ambiente e a terra empurraram para a extrema pobreza centenas de produtores de pequena escala na Bolívia, que há 20 anos geravam excedentes alimentícios.

Wilfredo Quiroz - Franz Chávez/IPS

Wilfredo Quiroz - Franz Chávez/IPS

A esta conclusão chegou o engenheiro agrônomo Wilfredo Quiroz, especialista em acompanhamento e avaliação do Projeto de Manejo de Recursos Naturais (Promarena), do Ministério do Planejamento do Desenvolvimento e que recebe o apoio do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida).

O programa, que opera com um fundo de US$ 12 milhões do Fida, US$ 1,1 milhão do Estado e US$ 1,1 milhão dos beneficiários, tem por objetivo reduzir a pobreza e a insegurança alimentar em áreas rurais. Quiroz falou à IPS sobre o trabalho no Chaco, Valles Altos e zonas semitropicais dos departamentos de La Paz, Chuquisaca e Tarija, onde há 247 mil camponeses de regiões consideradas “pobres e extremamente pobres”. Posteriormente se somarão outras dos departamentos de Santa Cruz e Cochabamba, e com elas aumentará o número de municípios de 26 para 56, com 900 comunidades beneficiadas.

IPS: Qual a diferença entre o trabalho da Promarena e outros programas de ajuda a agricultores pobres?

WILFREDO QUIROZ: Respeitamos as decisões dos comunitários e eles criam mapas onde descrevem suas atividades produtivas há 20 anos, mostram o presente e apresentam o futuro. No passado, contam que tinham mais alimentos e eram suficientes para se alimentar, vender e guardar. Embora carecessem de serviços de educação e saúde, tinham alimentos em quantidade suficiente. Para o futuro, imaginam cabanas para criação de porcos, com bebedouro, currais, fontes de água e sistemas de irrigação.

IPS: Qual a situação econômica dessas pessoas em relação ao passado?

WQ: Em lugar de melhorar, empobreceram e sua capacidade de produzir alimentos não é a mesma de 30 anos atrás. Antes tinham água em abundância, e agora falam de fontes hídricas secas pelo desmatamento nas zonas altas onde se arava a terra e a vegetação era preservada da criação de gado. O pastoreio forçado nas zonas onde nasciam as fontes de água, a degradação dos solos, os deslizamentos e a mudança climática acabaram prejudicando essa fonte de vida.

IPS: E como mudou a vida das famílias?

WQ: O dano ambiental afetou a atividade produtiva das famílias, reduziu a quantidade de alimentos e nas regiões mais pobres permanecem apenas os adultos e as crianças. Os jovens foram para as cidades. Há dez anos, dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) indicavam que as famílias produziam 80% de seus alimentos. Agora, apenas 60%.

IPS: Pode citar algum costume praticado antigamente para preservar as condições naturais?

WQ: Na localidade de Charazani, região andina que fica 272 quilômetros a noroeste de La Paz, uma montanha coberta de capinzais era protegida. A matéria-prima era extraída em determinada época do ano apenas para fazer os tetos das casas. Anos depois, os pastores não respeitaram esse costume, esgotaram o capinzal, afetaram as fontes de água e os moradores tiveram que comprar telhas de zinco para fazer o teto de suas casas. Outro hábito extinto é o descanso da terra por oito anos, até recuperar sua fertilidade e voltar a ser usada na agricultura.

IPS: E como afeta a deficiente rede viária nas zonas pobres?

WQ: Ao contrário das quentes planícies do departamento de Santa Cruz, onde as redes viárias são transitáveis, na zona andina as populações estão dispersas e há comunidades sem ligação terrestre. O camponês deve levar seu produto nos ombros durante caminhadas de até dez horas e, embora o custo diminua, a distância e a falta de caminhos aumenta o preço final e o exclui dos grandes mercdos.

IPS: Há uma fórmula para enfrentar este isolamento e a falta de políticas públicas de efetiva atenção às famílias camponesas?

WQ: Não existem macropolíticas para melhorar as condições de vida dos pequenos produtores. As ações são isoladas e dirigidas a médios empresários, e em alguns casos são escolhidas as subvenções para apoiar os camponeses de baixa renda. A Promarena deixa à escolha dos beneficiários os projetos relacionados ao cuidado do solo, pecuária, cuidado com a vegetação e de fontes de água, com uma ideia de preservação dos recursos naturais e criação de negócios. O modelo de apoio proporciona assessoria técnica para o desenvolvimento dos projetos e depois convoca as comunidades para um concurso que dá prêmio em dinheiro, que é simbólico, porque o valor da obra é muito maior. Esta experiência foi vivida com a recuperação das terras agrícolas pré-coloniais à qual se uniram muitas famílias, recuperaram áreas de produção e, após receber um prêmio, obtiveram o reconhecimento de suas comunidades e de seus municípios. No projeto, se aprende sobre a experiência da população, que é validada e depois o conhecimento é amplificado. Essa liberdade dos beneficiários torna diferente o modelo das tradicionais transferências de tecnologia. IPS/Envolverde

Franz Chávez

Franz Chávez es corresponsal de IPS en Bolivia desde noviembre de 2003. En busca de una cobertura adecuada de la compleja realidad boliviana, en especial para una audiencia internacional, Chávez se focaliza en esos temas en general ignorados por los grandes medios, poniendo esfuerzo en el contexto de uno de los países más pobres de América Latina. Nacido en La Paz, Franz trabajó para Radio Cristal entre 1985 y 1990, y luego formó parte del equipo editorial de los canales de televisión 2, 4, 7 y 11. Fue uno de los fundadores de los diarios La Razón, en el que se desempeñó entre 1990 y 1995, La Prensa (1998-201), y La Prensa-Oruro. Estudió sociología y comunicación en la Universidad Mayor de San Andrés en La Paz.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *