Erradicar a pólio é apenas uma questão moral

Nova York, 22/04/2010 – A varíola é a única doença que se conseguiu erradicar no mundo, sendo que o último caso foi registrado em 1975. Agora os médicos pretendem seguir o exemplo com a poliomielite, que apresenta cerca de 1.600 casos no mundo por ano. A comunidade internacional tem a obrigação moral de acabar com a enfermidade, afirmam a médica Claudia Emerson e seu colega Peter Singer, do Centro McLaughlin-Rotman de Saúde Global, com sede em Toronto.

Se a enfermidade for erradicada, será possível evitar que nos próximos 20 anos quatro milhões de crianças contraiam a poliomielite, que afeta o sistema nervoso central, causa atrofia e pode chegar a paralisar os músculos do corpo, segundo artigo publicado pelos especialistas na última edição da revista médica The Lancet.

A doença já foi comum no começo do século XX. Na década de 50, o infectologista Jonas Salk desenvolveu uma vacina que previne da enfermidade, com a implementação, em seguida de campanhas de imunização que permitiram reduzir o número de casos para menos de 350 mil no final dos anos 80. A poliomielite não tem cura, mas Singer afirma que o objetivo de erradicá-la é realista. A enfermidade está restrita geograficamente. Os países com maior quantidade de casos são Afeganistão, Índia, Nigéria e Paquistão, afirmou.

“A questão é se temos, ou não, de fazer um último esforço para erradicar a pólio”, insistiu Singer. O assunto será discutido na Assembleia Mundial da Saúde em maio, a reunião anual dos ministros da área, organizada pela Organização Mundial da Saúde. O assunto deve ser analisado de um ponto de vista ético, segundo o especialista. “Erradicar a pólio é como caminharmos à beira de um rio e vermos uma pessoa se afogando. Está ao nosso alcance e podemos salvá-la. Simplesmente, não podemos deixar que se afogue”, afirmou o especialista.

Os médicos têm a responsabilidade de resgatar todas as pessoas que puderem, ressaltou Singer. As únicas barreiras são “sociais e éticas”, não “tecnológicas nem científicas”, acrescentou. Com a existência da vacina, o único obstáculo para eliminar a doença e a dúvida se vale a pena erradicar uma doença que afeta tão pouca gente. “A principal barreira hoje é se temos a vontade, ou não, de fazer um último esforço. É essencialmente uma questão de motivação e de vontade, por isso os argumentos éticos são importantes”, acrescentou.

A erradicação da pólio será difícil e implicará superar obstáculos políticos e culturais onde é difícil ter acesso à vacina e onde há temores arraigados quanto à imunização. Outro obstáculo a superar é a guerra no Afeganistão e Paquistão, onde há muitos casos. A doença e o verme da Guiné, como se chamam comumente outra doença fácil de erradicar, oferecem à humanidade a oportunidade de fazer algo que só conseguiu uma única vez. Quando conseguir, os benefícios serão permanentes.

Porém, não será fácil convencer a Assembleia Mundial da Saúde a fazer um último esforço definitivo. O interesse de Singer pelo aspecto moral se deve a que é o tipo de argumento que se costuma ouvir contra a erradicação. Com tão poucos casos, o artigo do The Lancet tenta provar que se está perto de terminar uma maratona e que vale a pena atingir a meta, mesmo quando implica desviar fundos e atenção de outros problemas. IPS/Envolverde

Armin Rosen

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