Belgrado, 20/05/2010 – A população da desintegrada Iugoslávia espera a chegada do prometido grande crescimento econômico e rápido desenvolvimento econômico que o capitalismo proporcionaria. São milhões de pobres e de 2% a 3% de ricos, segundo estatísticas oficiais. Após as guerras de secessão nos Bálcãs na década de 90, a região, formada por Bósnia-Herzegovina, Croácia, Eslovênia, Kosovo, Macedônia, Montenegro e Sérvia, sofreu uma “dolorosa transição” para uma economia de mercado, afirmam analistas.
A situação começou a se deteriorar entre 1991 e 1995, quando acabou o regime socialista liberal que caracterizou a Iugoslávia desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A economia regional está em um estado lamentável, se comparada com a de 1989, quando esteve especialmente bem. O caso da Eslovênia é diferente porque era uma das entidades mais desenvolvidas da Iugoslávia e entrou na UE em 2004. O processo de privatização e a transição para uma economia de mercado foi totalmente diferente do de outros países da Europa oriental, após a queda do Muro de Berlim em 1989, segundo especialistas.
“Não foram vistos gerentes comunistas astutos ou empresários internacionais de duvidosa reputação envolvidos nas privatizações”, disse o analista Misa Brkic em conversa com a IPS. A pobreza de hoje nesta região não é um fato repentino causado pela atual crise econômica mundial. “As elites locais aproveitaram as devastadoras guerras para ficar com o poder e colocar sua gente para cuidar da economia. Não puderam e nem souberam jogar em função das regras do mercado”, explicou.
A guerra deixou mais de 120 mil mortos. As perdas econômicas chegaram a milhares de dólares pela destruição de fábricas, empresas, edifícios privados e estatais, aniquilação da produção e falta de exportações para o desaparecido mercado comum. O custo da destruição da Sérvia subiu a mais de US$ 17 bilhões, após o bombardeio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em 1999, para acabar com a repressão do regime do então presidente Slobodan Milosevic (1941-2006) contra os albaneses de Kosovo.
A situação dissuadiu as empresas internacionais de realizar investimentos mais importantes na região, disse Brkic. O que ocorre desde 2008 “não é mais do que o resultado inevitável da combinação” da deteriorada situação local e da recessão mundial. A falta de atividade econômica é típica. As pessoas querem cada vez mais ajuda do Estado. O desemprego afeta 20% da população ativa da Sérvia e da Croácia e mais de 45% da Bósnia-Herzegovina.
“Custa a morrer a mentalidade socialista”, disse Brkic. “Nunca adotamos o credo de que há uma relação entre quantidade de trabalho e qualidade de vida. Por isso, acontecem protestos diários diante dos prédios do governo. Os trabalhadores reclamam salários e emprego”. Os aposentados dependem de pensões cujo valor caiu para poucas centenas de dólares ao mês. Os cofres do Estado minguam pelos ineficazes gravames de uma economia paralisada e o pouco dinheiro deixado pelas privatizações.
“A indústria e o comércio croatas foram vítimas da louca ideia de Franjo Tudjman (líder independentista) que criou 200 famílias muito ricas para lançar uma economia ‘de sucesso’”, disse à IPS Zarko Modric. “Entretanto, apenas os mais próximos dele ficaram com o que deixou a privatização. As outrora pujantes indústrias e empresas exportadoras foram vendidas por preço baixo a pessoas que não souberam gerenciá-las”, acrescentou. A solução mais fácil para o Estado ao fim da guerra, em 1995, foi aposentar centenas de milhares de veteranos empresários, cujas empresas foram destruídas pelo bombardeio em áreas de combate ou pelas turvas privatizações, disse Modric.
“A quantidade de aposentados é apenas um pouco menor do que a de empregados na Croácia. As pensões e outras categorias sociais consomem o orçamento estatal. O governo pede empréstimos, mas sob condições cada vez mais severas”, disse Modric. “A dívida externa do país equivale ao seu produto interno bruto, US$ 55 bilhões. O Estado está preso à dívida”, acrescentou.
A dívida da Croácia, com 4,3 milhões de habitantes, atingiu 69% do produto interno bruto de 1989 em 2003, enquanto com a da Sérvia, com 7,3 milhões de pessoas, aconteceu em 2009. A situação é pior na Bósnia-Herzegovina, com 3,5 milhões de habitantes, que após a guerra ficou formada por duas entidades: a sérvia República de Srpska, e a Federação Croata-Muçulmana.
A corrupção, a violação das leis, a fuga de cérebros, as divisões étnicas entre bósnios e muçulmanos, croatas e sérvios, “arraigados à sua entidade”, são as principais razões da paralisação econômica desse país, segundo um estudo realizado em 2009 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). A longa pesquisa “Privatização do capital estatal na Bósnia-Herzegovina” descreve o processo de reconstrução entre 1995 e 2000, a privatização e a transição para uma economia de mercado até 2009.
Como Sérvia e Croácia, a Bósnia-Herzegovina se converteu em um “Estado refém”, no qual os governantes permitiram que os delinquentes ou as “redes mafiosas” violassem a lei de forma flagrante e tirassem proveito “de transações turvas com funcionários e autoridades”, segundo o Pnud. As privatizações nesse país foram pouco transparentes. As empresas foram vendidas por quantias nominais de poucos euros e os novos donos não fizeram nada com elas.
Os cofres estatais ficaram sem o dinheiro dessas vendas, o que reduziu as já magras aposentadorias e a assistência social. “Quando a população da desintegrada Iugoslávia se queixa de que nunca foi tão pobre, explico que não podem compreender o ocorrido, embora tenham sido testemunhas de tudo”, disse Brkic.
“Muita gente acredita que não se deve trabalhar muito para viver bem. Mas a realidade é dolorosa e não escapa de ninguém. A transição é dura, mas deve ser feita rapidamente para que o dano seja menor”, acrescentou Brkic. “Há 20 anos que as pessoas vivem nessa situação, mas os governantes, os especialistas e os acadêmicos são os que devem chegar a um consenso para acelerar o processo”, insistiu. IPS/Envolverde

