Cairo, 21/05/2010 – A decisão do Egito de prorrogar sua opressiva Lei de Emergência causou uma tímida reação nos Estados Unidos. Ativistas opinaram que isso mostra que Washington só defende reformas políticas neste país árabe quando estão de acordo com seus interesses. O presidente Barack Obama “descumpriu totalmente sua promessa de apoiar a democracia no mundo árabe”, disse à IPS o secretário-geral da Organização Egípcia para os Direitos Humanos, Hafez Abu Saeda. “Obviamente, chegou à conclusão de que a ‘estabilidade regional’, isto é, manter regimes ditatoriais no poder, interessa mais aos Estados Unidos do que a democracia”, acrescentou.
No dia 11, o parlamento, dominado pelo governante Partido Nacional Democrático, do presidente Hosni Mubarak, aprovou uma nova prorrogação, por dois anos, da antiga e impopular Lei de Emergência. Promulgada após o assassinato, em 1981, do presidente Anwar Sadat, a lei confere poderes especiais ao Estado para deter pessoas sem acusação. O governo tradicionalmente defende a legislação, apelando para a necessidade de “estabilidade” e de salvaguardar a “segurança nacional”. Líderes da oposição e ativistas pelos direitos humanos afirmam que, na realidade, é usada para reprimir dissidentes políticos.
No dia em que a lei foi prorrogada, a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, expressou sua desilusão e cobrou de Mubarak o cumprimento de sua promessa eleitoral, de substituí-la por uma legislação antiterrorista. “Esta prorrogação é lamentável, considerando o compromisso feito pelo governo ao povo do Egito em 2005”, afirmou Hillary. “Uma ampla gama de vozes egípcias pede o fim do estado de emergência”, acrescentou. Apesar dessas declarações, ativistas e opositores egípcios questionam a sinceridade do anunciado apoio de Washington às reformas políticas neste país árabe.
“O Ocidente, concretamente os Estados Unidos e a União Europeia, dificilmente será campeão das liberdades e da democracia”, escreveu em um editorial Ibrahim Eissa, destacado analista político e editor chefe do jornal independente Al Dustour. “Só querem que governos árabes obedientes sirvam aos seus interesses. Enquanto Mubarak continuar amigo dos objetivos políticos ocidentais e for bom vizinho de Israel, o Ocidente dará seu selo de aprovação ao regime e às suas flagrantes fraudes eleitorais”, afirmou.
Abu Saeda concorda, dizendo que em termos de promoção da democracia e dos direitos humanos, o governo Obama tem, inclusive, pior desempenho do que o de George W. Bush (2001-2009), apesar da esmagadora impopularidade deste último no Oriente Médio. “Durante o segundo mandato de Bush, Washington exerceu considerável pressão sobre os regimes árabes para que realizassem reformas democráticas, o que desatou um significativo movimento político no Egito”, acrescentou Saeda. “Obama prometeu manter essa pressão, mas agora parece desdizer suas palavras”, ressaltou.
Saeda disse, ainda, que pouco depois de assumir a Presidência Obama reduziu em mais de US$ 200 milhões a ajuda financeira para a promoção da democracia no mundo árabe. “Isto não é tão importante quanto o apoio moral que antes os Estados Unidos davam às reformas políticas no Egito, e que disparou o ativismo político em 2004 e 2005”, prosseguiu. “De fato, desde a posse de Obama, em muitos regimes árabes aumentaram as violações à democracia e aos direitos humanos dos cidadãos, com prisões arbitrárias, criação de tribunais militares, leis de emergência, etc.”, afirmou Abu Saeda.
Por sua vez, Hamdi Hassan, porta-voz do bloco parlamentar da Irmandade Muçulmana, o maior movimento de oposição no Egito, afirmou que para o governo Obama “não importa que o regime egípcio seja ditatorial, desde que se ajuste aos objetivos políticos dos Estados Unidos”. Hassan disse à IPS que, “após apoiar fugazmente as reformas democráticas na região após os atentados terroristas em Nova York e Washington em setembro de 2001, os Estados Unidos se deram conta de que a democracia no mundo árabe não estava entre seus interesses”.
“É por isto que o público árabe continua rechaçando de forma maciça a entidade sionista (o Estado de Israel), cuja segurança é o centro de todas as demais preocupações norte-americanas”, acrescentou Hassan. “Obama não poderia pedir um regime melhor que o de Mubarak, que segue traindo a causa palestina e se converteu em inimigo de fato dos grupos de resistência. Por esta razão, Washington continuará dando ao Egito um apoio político e econômico sem precedentes, sem importar o quanto o regime seja antidemocrático”.
Segundo Eissa, estes esforços do Ocidente para proteger seus interesses, disfarçando-os de “democratização”, não estão limitados ao Egito. “Estados Unidos e União Europeia não condenaram a fraude eleitoral no Sudão no mês passado porque a vitória de Omar al Bashir provavelmente contribuirá para a secessão do norte e do sul, objetivo de longa data do Ocidente”, escreveu. “Por outro lado, o Ocidente condenou de forma unânime a vitória eleitoral no Irã de Ahmadinejad no ano passado, apoiando as denúncias da oposição de que as eleições foram fraudadas”, ressaltou. IPS/Envolverde

