Ramalá, 02/06/2010 – Israel enfrenta outra grave crise diplomática, depois de ter atacado uma flotilha humanitária internacional que se dirigia a Gaza, causando a morte de vários civis.
“Israel deu um tiro no próprio pé, novamente. Foi uma operação desastrosa na qual muitos morreram e ficaram feridos em águas internacionais. Foi totalmente injustificada”, disse Mohse Maoz, professor da Universidade Hebreia de Jerusalém. “O dano que Israel causou a si mesmo é enorme, e é uma ferida que simplesmente crescerá. Prejudicou irremediavelmente sua relação com a comunidade internacional e com o mundo muçulmano. O governo israelense vai de mal a pior”, disse Maoz à IPS.
Por sua vez, o acadêmico Samir Awad, da Universidade Birzeit, próxima à cidade de Ramalá, na Cisjordânia, disse à IPS que “o comportamento israelense com o Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) gerou uma publicidade mais positiva para a causa palestina do que essa organização poderia conseguir por si mesma”. Gideon Levy, jornalista do jornal Haaretz, de Israel, e duro crítico das políticas de seu país, resumiu o incidente da madrugada de 31 de maio em águas internacionais desta maneira: “A flotilha pegou o barco de bobos israelenses no mar da estupidez”.
Aproximadamente 700 pessoas de 40 países, incluindo jornalistas e cerca de 35 parlamentares, estavam em seis barcos que tentavam entregar dez mil toneladas de ajuda humanitária à população sitiada de Gaza. Quando ainda estava em águas internacionais, o “Mavi Marmara”, principal embarcação da frota, foi atacado por comandos israelenses fortemente armados. Alguns ativistas responderam ao ataque com armas improvisadas (paus, barras de ferro) e vários morreram depois que os soldados das Forças de Defesa Israelenses abriram fogo.
Jornalistas estrangeiros não puderam verificar o número exato de mortos nem os nomes e as nacionalidades dos feridos, por causa do forte controle militar israelense sobre a informação. Apesar do desproporcional uso da força por parte dos comandos, a chancelaria e os militares de Israel trabalham contra o relógio para apresentar seus soldados como vítimas de “ativistas pacifistas violentos”. Poucos aceitam seus argumentos, e a crítica internacional aumenta.
Doze países, em sua maioria europeus e também várias nações árabes, pediram explicações aos respectivos embaixadores de Israel. Turquia e Grécia cancelaram manobras militares conjuntas com o Estado judeu. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) manteve conversações de emergência ontem, a pedido da Turquia, país de onde partiu a flotilha e que tinha vários cidadãos nos barcos. Ancara chamou seu embaixador em Israel e parece improvável que as relações entre os dois países possam ser recuperadas. A Turquia era até agora o mais forte aliado do Estado judeu no Oriente Médio.
O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas condenou a ação israelense e cobrou uma investigação imparcial sobre o ocorrido, enquanto seu secretário-geral, Ban Ki-moon, insistiu que o governo de Benjamin Netanyahu levante o bloqueio a Gaza. Richard Falk, relator especial da ONU sobre direitos humanos nos territórios palestinos, pediu à comunidade internacional que julgue os responsáveis pelas mortes.
O chanceler da Grã-Bretanha, William Hague, exortou Israel a abrir os postos fronteiriços de Gaza. “Lamento a perda de vidas humanas na operação para interceptar a flotilha. Nossa embaixada está em urgente contato com o governo israelense. Estamos solicitando informação e urgente acesso a qualquer cidadão britânico envolvido”, afirmou.
Inclusive o primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd, velho aliado de Israel, condenou a operação e pediu o fim do cerco a Gaza. Cinco australianos estavam na flotilha, incluindo dois respeitados jornalistas do Sydney Morning Herald. Ambos se negaram a assinar ordens de deportação israelenses e encontram-se detidos. Outro australiano recebeu um tiro na perna.
No entanto, a indignação com Israel foi além da diplomacia internacional e chegou às ruas. Houve manifestações em Gaza e na Cisjordânia. Centenas de israelenses ocuparam as ruas em Telavive e em Ashdod, para onde foram levadas as embarcações dos ativistas. O futuro da paz na região também está em risco. As relações entre Israel e seus vizinhos está em seu pior momento. Teme-se, ainda, que o incidente possa congelar as aguardadas conversações entre palestinos e israelenses. As negociações foram reativadas há alguns meses, promovidas pelos Estados Unidos. IPS/Envolverde


