MUDANÇA CLIMÁTICA: Maldivas na vanguarda

Male, 17/06/2010 – Maldivas, um arquipélago de pequenas ilhas no Oceano Índico, vive se fazendo ouvir nos debates sobre mudança climática. Pregando com o exemplo, agora lançou um plano para eliminar os contaminantes gases hidroclorofluorocarbonos (HCFC) até 2020, dez anos antes que outros países. O Protocolo de Montreal, que trata das Substâncias que Esgotam a Camada de Ozônio, aposta nesse mesmo objetivo, mas até 2030. O governo disse que já começou a trabalhar as medidas necessárias para concretizar esta mudança. Entre elas está a introdução de uma legislação que ajude a reduzir, minimizar e por fim erradicar o uso de gases-estufa em aparelhos de ar-condicionado.

Maldivas, com mais de mil ilhotas no Índico, também anunciou que até 2020 será neutra em matéria de carbono. De novo, esse prazo está anos à frente dos apresentados por outros países. O ministro de Transporte, Habitação e Meio Ambiente, Mohammad Aslam, disse que alguns dos passos dados para iniciar o processo de eliminação de gases contaminantes incluem dar diretrizes às agências governamentais e criar uma base de dados sobre equipamentos que empregam HCFC.

“Também visamos a pequena indústria e preparamos pautas a serem aplicadas”, disse Aslam. “Todas estas medidas serão incluídas em um detalhado programa de trabalho para garantir que os objetivos sejam cumpridos até 2020”, acrescentou. A indústria confirmou seu apoio a esta iniciativa. Representantes de empresas que participaram de uma conferência sobre o tema, realizada na capital, disseram estar trabalhando junto com o governo. “Já importamos alguns aparelhos de ar-condicionado sem HCFC e a resposta é boa”, disse um executivo.

Utilizados principalmente nesses aparelhos, os HCFC esgotam a camada de ozônio e contribuem para o aquecimento global, segundo os especialistas. O presidente Mohammad Nasheed é quem está por trás do sucesso de Maldivas como ativista mundial a favor de uma mudança ambiental, impulsionando-a em seu próprio país. Nasheed chegou ao poder democraticamente em novembro de 2008, após seu antecessor Maumoom Abdul Gayoom (1978-2008) governar a nação com mão-de-ferro por 30 anos.

“Agora os governos me ouvem com bastante intensidade, e também me convidam a falar sobre meio ambiente com maior frequencia”, disse o mandatário à IPS, em entrevista realizada em sua modesta casa da capital. “A Europa apoia nossos esforços ambientais, mas temos um longo caminho a percorrer com os Estados Unidos”, disse. Maldivas é o primeiro país a receber financiamento da Organização das Nações Unidas – concessão de US$ 1 milhão – no contexto do Protocolo de Montreal.

O país mais abaixo do nível do mar do planeta, com ilhas que ficam apenas dois metros acima do oceano, lidera a campanha contra a mudança climática. Nela, o próprio Nasheed representa todos os pequenos Estados insulares, dizendo que este é um assunto sobre “direitos humanos e direito à vida”. Adotar políticas “verdes” não é bom apenas para o ambiente, “mas é benéfico para toda a economia”, assegurou. Nas Maldivas todos estão informados sobre o aquecimento global e a elevação do nível do mar.

Fathimah Reema, diretora-adjunta da Agência de Proteção Ambiental, citou um estudo feito por essa entidade, que revela que a erosão causada pelo mar era o principal motivo de preocupação ambiental entre a população. Em seguida, apareciam o lixo, esgotamento da camada de ozônio e mudança climática. “O fato de os meios de comunicação informarem regularmente sobre estes temas ajudou a conscientizar a população”, destacou Reema.

Mifzal Ahmed, assessor de Investimentos do Ministério de Desenvolvimento Econômico, disse que o governo promove somente projetos de desenvolvimento sustentável. “A política do governo é que todos os investimentos devem ser sustentáveis. Não queremos que alguém venha e instale uma central elétrica alimentada a carvão, por exemplo”, disse à IPS. “Queremos passar uma mensagem positiva sobre a mudança climática. Queremos dizer que existe a tecnologia para solucionar estes problemas. É apenas questão de investir nela”, acrescentou.

Nasheed, apelidado de “a estrela de rock” da mudança climática, disse que em sua viagem à Austrália, no começo deste mês, visitou a Universidade Nacional, que desenvolve, desde 1971, uma tecnologia mais barata dedicada à energia solar. “Desde a crise energética, essa universidade prepara um protótipo para produzir energia solar a 10 centavos de dólar australiano (menos de US$ 0,10) por minuto”, afirmou. Ali foi completada toda a fase de pesquisa científica, mas ninguém usa essa tecnologia porque aqueles que têm o dinheiro necessário são os produtores de carvão e as empresas que processam os combustíveis fósseis, destacou.

Segundo Atul Bagai, coordenador da rede regional do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) em Bancoc, Maldivas é o primeiro país a alcançar tanto, dos 145 países que assinaram o programa para erradicar os HCFC. “Isto mostra a eficiência do governo e das associações público-privadas na indústria”, disse, acrescentando que, quando Maldivas tiver abandonado os HCFC, as demais nações ainda os estarão utilizando.

“Não podemos continuar sempre com passos pequenos”, afirmou o ministro Aslam, se referindo à urgência de seu país e à velocidade na hora de atuar contra a mudança climática e seus efeitos adversos sobre o meio ambiente. Maldivas é o lugar “onde vivemos por várias gerações e onde continuaremos presentes. Pode-se pensar em assentamento em outros países, mas ninguém quer partir”, ressaltou. IPS/Envolverde

(IPS/Envolverde)

Feizal Samath

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