Informe otimista da ONU sobre pobreza

Nova York, 24/06/2010 – Apesar da crise financeira, a taxa mundial de pobreza cairá pela metade nos próximos cinco anos, em relação a 1990, segundo o Informe 2010 sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, apresentado ontem pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon. Isto significa que 920 milhões de pessoas que agora vivem abaixo da linha de pobreza melhorarão sua condição.

Os Objetivos são uma série de compromissos assumidos por governos em setembro de 2000, e vão desde potencializar o papel das mulheres até reduzir a mortalidade infantil, com prazo até 2015.

“O crescimento econômico foi suficientemente forte para garantir que todas as regiões sigam rumo às metas referentes à pobreza”, disse Francesca Perucci, chefe da Seção de Planejamento e Desenvolvimento da ONU. Porém, os progressos são desiguais na África subsaariana, Ásia ocidental e em algumas partes da Europa oriental. O documento mostra que o número de pessoas que vivem com menos de US$ 1,25 por dia caiu de 1,8 bilhão em 1990 para 1,4 bilhão em 2005, e que o índice de pobreza baixou de 46% para 27%. Estas melhoras foram em parte impulsionadas por Índia e China, junto com alguns países da Ásia oriental, que experimentaram fortes reduções da pobreza.

O informe será usado como ferramenta para preparar uma cúpula de alto nível sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, em setembro, em Nova York. O trabalho indica que o desenvolvimento continua, mas alerta que o fluxo de financiamento foi desigual e apenas cinco países doadores – Dinamarca, Luxemburgo, Holanda, Noruega e Suécia – cumprem a meta fixada pela ONU de destinar 0,7% do produto interno bruto à ajuda externa. A demora em certas metas se deve, em parte, por não estarem entre as prioridades orçamentárias de muitos países, “mas também às dificuldades objetivas dos governos, que não são capazes de financiar e manter todas essas mudanças no longo prazo”, disse Perucci à IPS.

“Poderá haver mudanças se houver uma forte vontade política de ambas as partes, doadores e governos dos países em desenvolvimento”, acrescentou Perucci. Também lembrou que os progressos mais rápidos ocorreram em metas que não exigem grandes mudanças de infraestrutura, como o combate à aids, à malária e outras doenças. A disponibilidade de medicamentos antirretrovirais e de tratamentos aumentou rapidamente no caso do HIV e da malária. As nações onde a malária é endêmica também experimentam um aumento da ajuda, de US$ 100 milhões em 2003 para US$ 1,5 bilhão no ano passado.

Porém, outras metas fundamentais, como o poder das mulheres, estão distantes. A insegurança no trabalho e a falta de benefícios para elas são problemas propagados, e que se exacerbaram pela crise financeira, alerta o informe da ONU. Fornecer saneamento para os 2,6 bilhões de pessoas que carecem dele tem sido uma meta difícil de atingir. Apenas metade do mundo em desenvolvimento alcançou esta meta.

“A boa notícia é que países tão pobres quanto diversos, como Etiópia, Gana, Quênia, Moçambique, Malavi, Nepal e Tanzânia, experimentaram crescimento na matrícula escolar do ensino primário após a eliminação das cotas de ingresso”, destacou Olav Kjorven, administrador-assistente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

Para o Nepal este é apenas um de vários êxitos em seus esforços quanto aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Junto ao Pnud, o governo proporcionou energia limpa a cerca de 250 mil pessoas que vivem em aldeias localizadas a mais de um dia a pé da estrada mais próxima. Embora o acesso à energia moderna não esteja implicitamente incluído nessas metas, é algo que favorece esforços em outras frentes, destacou Kjorven. Quase metade da população mundial tem acesso nulo ou limitado à eletricidade, segundo o Pnud. A iniciativa do Nepal poderia servir como modelo para outros países.

A criação de uma pequena hidrelétrica gerou empregos e renda para muitos nepaleses, bem como maior número de matrícula escolar e mais oportunidades para as mulheres. Estas agora podem dedicar menos tempo à coleta de madeira e água. Também deixaram de usar fogão à lenha, que punha sua saúde em risco. O projeto é original porque “faz parte de um programa de desenvolvimento comunitário”, disse à IPS a representante permanente nepalesa na ONU, Gyan Chandra Acharya. Também ajudou a ativar o espírito empresarial entre as mulheres e outros habitantes rurais, destacou.

O administrador de projetos do Programa de Desenvolvimento Rural do Nepal, Kiran Man Singh, contou à IPS o caso de uma mulher que agora dirige sua própria unidade agroprocessadora, moendo grãos para outras comunidades. Embora os investimentos públicos tenham ajudado a iniciar o programa, para mantê-lo são necessários pequenos investimentos privados. A maioria das decisões e o controle seguem nas mãos da comunidade, e os preços da eletricidade continuam sendo acessíveis, mas o governo contratou particulares para a construção e fornecimento dos equipamentos necessários. “Contamos com as condições gerais que protegem a comunidade e que também permitem que os empresários façam algo, dessa forma todos ganham”, disse Olav. IPS/Envolverde

Beatrice Paez

Beatrice Paez was a contributor at IPS, where she covered the United Nations beat. She resides in Toronto, Canada.

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