ISRAEL-PALESTINA: Com o dedo no gatilho

Ramalá, 25/06/2010 – “Onde está meu papai? Por que não volta para casa? Quero meu papai”, soluça a palestina Yasmin, de sete anos, com seus grandes olhos azuis cheios de lágrimas. Todas as noites, acorda chorando.

Moira, viúva de Ziad Julani com suas três filhas, Hannah, 17, Mirage, 15, e Yasmin, 7. - Mel Frykberg/IPS

Moira, viúva de Ziad Julani com suas três filhas, Hannah, 17, Mirage, 15, e Yasmin, 7. - Mel Frykberg/IPS

“Minha vida começou quando conheci Ziad. Nunca conhecerei outro homem tão maravilhoso”, disse à IPS a mãe de Yasmin, Moira Julani. A menina tem duas irmãs: Hannah, de 17 anos, e Mirage, de 15, ambas cidadãs norte-americanas.

Moira, cujo nome de solteira era Reynolds, nasceu no Estado do Texas, de onde partiu há 17 anos para iniciar uma nova vida com seu marido em Jerusalém. Agora perdeu sua alma gêmea. Ziad Julani tinha 41 anos e vivia em Jerusalém oriental. Há duas semanas, as forças especiais israelenses dispararam várias vezes contra sua cabeça e abdome enquanto jazia, ferido, no chão. Uma ambulância o levou para o hospital, onde morreu pouco depois. Os soldados israelenses acusaram Ziad de tentar atropelar dois soldados que caminhavam pela rua.

Entretanto, testemunhas contam que o carro de Julani virou levemente quando uma pedra bateu em seu parabrisa, assim, sem se dar conta, foi parar no meio de um confronto entre soldados israelenses e jovens palestinos que jogavam pedras. Dois soldados levemente feridos e dois colegas abriram fogo contra o automóvel de Julani, atingindo seu ombro. Julani entrou em pânico e dirigiu um pouco mais, até que chegou a uma rua sem saída.

Segundo testemunhos compilados pelo Jerusalem Centre for Social and Economic Rights, em seguida Julani saiu do carro. Quatro policiais das forças especiais o haviam seguido e voltaram a atirar várias vezes contra ele, antes que caísse ao chão. Em seguida, um dos policiais disparou outra vez, a curta distância, em ambos os lados da cabeça e no abdome, antes de chutá-lo. As testemunhas que tentaram ajudar Julani apanharam com cacetetes. Uma sofreu 20 pontos na cabeça. Outros transeuntes ficaram feridos, entre eles uma menina de cinco anos, quando polícia e soldados dispararam balas de aço recobertas com borracha.

As autoridades israelenses acusaram Julani de tentar cometer um “ataque terrorista” e de ter “antecedentes penais”. “Há cerca de um mês, soldados israelenses deram uma surra em Ziad quando tentava rezar na mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém. Ficou detido cerca de duas horas e foi liberado, sem acusações. Talvez um desses soldados tivesse raiva do meu marido”, disse Moira à IPS. “Ele não estava envolvido na política e nem pertencia a nenhum grupo político. Era um homem pacífico com antecedentes cosmopolitas, que quando criança viveu na Suíça e depois estudou química farmacêutica nos Estados Unidos. No dia em que o mataram planejava levar a família a passeio ao Mar Morto”, acrescentou.

A ocupada Jerusalém oriental se converteu em uma panela de pressão, cheia de raiva e ressentimento, na medida em que a judaização que Israel realiza nessa parte da cidade implica, cada vez mais, em destruição de casas palestinas, jogando famílias na rua para dar espaço aos colonos. Com o aumento das tensões, vários palestinos fazem ataques contra israelenses na parte ocidental de Jerusalém, utilizando veículos e tratores, matando e ferindo vários.

As autoridades israelenses usam estes incidentes como argumento para a “autodefesa” na grande quantidade de casos em que palestinos desarmados foram mortos a tiros pelas forças de segurança, a curta distância, apesar de não representarem ameaça. No começo deste ano, os Serviços de Segurança de Israel baixaram uma lei da mordaça contra a imprensa em relação à prisão domiciliar da jornalista israelense Anat Kamm, que copiara documentos secretos das forças armadas israelenses enquanto realizava seu serviço militar.

Esses documentos dizem que esquadrões israelenses estavam assassinando ativistas palestinos, alguns desarmados, em lugar de prendê-los, em flagrante violação da decisão da Suprema Corte do Estado judeu. Kamm foi acusada de traição. A IPS informou sobre vários casos em que jovens palestinos da Cisjordânia morreram vítimas de disparos nas costas e na cabeça. As forças de Israel inicialmente alegaram que usaram munições não letais, agindo em defesa própria após serem atacadas.

Depois, investigações das próprias forças admitiram o uso de munição comum e que em alguns casos os soldados envolvidos usaram uma “força excessiva”. As autópsias realizadas pela Turquia nos ativistas mortos a bordo do navio Mavi Marmara, que em 31 de maio liderava uma flotilha humanitária com destino a Gaza, também indicaram que vários cadáveres receberam diversos disparos na cabeça, feitos à curta distância, como parte da política israelense de “matança de confirmação”.

“Pedimos uma investigação independente sobre o assassinato de meu marido. Não queremos que as forças de segurança israelenses investiguem a si mesmas”, disse Moira. Desde a morte de seu marido, os funcionários de segurança israelenses prenderam quem filmou a matança e confiscaram suas câmeras, eliminando os registros. IPS/Envolverde

Mel Frykberg

Mel Frykberg began her journalism career reporting on unrest in black townships, including Soweto, in South Africa during the apartheid era. She later worked as a journalist in Sydney, Australia. Mel has worked as a journalist in the Middle East for over a decade. She has reported for a number of major international publications from Gaza, Jerusalem, Beirut, Cairo, and Amman where she has lived. Mel also edited local magazines and newspapers in the region and is a frequent commentator on the Israeli/Palestinian conflict on National Public Radio in the United States. Frykberg studied journalism in the U.K.

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