EDUCAÇÃO-CUBA: Consciência de gênero para a mudança

Havana, 28/06/2010 – Um professor coloca nas primeiras carteiras as alunas mais atentas, deixa no fundo da sala os meninos problemáticos, castiga o inquieto, e o retraído, simplesmente ignora. As meninas negras se sentam com os meninos negros, meninos brincam com meninos e meninas com meninas. Outro professor talvez não zombe diretamente do aluno que, desde muito pequeno, mostra um identidade de gênero diferente da de seu sexo biológico, ou uma inclinação para as pessoas do mesmo sexo que o seu, mas tolera as piadas durante a aula e assim, com suas ações cotidianas, pode acentuar o estigma e a discriminação.

Romper este ciclo gerador de desigualdades desde a infância, mesmo quando meninos e meninas tenham acesso igualitário a todos os níveis de ensino, aparece como o centro de um projeto da Cátedra de Gênero, Sexologia e Educação da Universidade de Ciências Pedagógicas Enrique José Varona, de Havana. “Cuba tem indicadores sociais avançados, mas também um machismo muito propagado. O pessoal da área de educação está preparado, mas não o suficiente em matéria de gênero e educação sexual”, disse à IPS Alicia González, diretora da Cátedra que trabalha com pessoal acadêmico e estudantes de pedagogia.

Na hora de olhar para a população adolescente e jovem, a professora reconhece que há domínio dos conceitos de igualdade entre homens e mulheres e de direitos. Porém, acrescenta, “estes conhecimentos nem sempre se refletem em seu comportamento cotidiano. Essa é a dualidade que devemos combater”. Com educação obrigatória até a nona série, mais de 99% da população infantil cubana termina o ensino primário, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas.

Estudos indicam que, embora as mulheres representem 66% da força técnica e profissional do país e esteja estabelecido igual salário para trabalho igual de homens e mulheres, elas ocupam os cargos de menor remuneração e apenas 38% dos postos de direção. Após um trabalho de vários anos sobre estas realidades, a Universidade de Ciências Pedagógicas avalia um projeto que, com o apoio da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (Aecid), procura promover mudanças entre professores de pedagogia e futuros professores.

A Estratégia de Educação Integral com Enfoque de Gênero, aplicada desde 2004, chegou a mais de 500 estudantes e 300 professores da capital cubana e da província de Holguín, por meio de processos de reflexão e debates em grupo, que partem da identificação de problemas com perspectiva de gênero. “O enfoque de gênero passa pela relação homem-mulher e não apenas pela mulher, como às vezes se pensa. Ela tem sido a mais discriminada e, portanto, tem tratamento especial, mas não se faz nada mudando metade da população se a outra não muda. Uma mudança desse tipo agrava os conflitos”, afirmou Gonazález.

Ao contrário do sexo que parte de diferenças biológicas entre homens e mulheres, a categoria gênero se refere aos atributos socialmente vinculados a uns e outros que, convertidos em estereótipos que definem o que é “ser homem” e “ser mulher”, sustentam os fundamentos culturais do poder patriarcal, da subordinação feminina e da violência. Os paineis com os alunos buscam, primeiro, promover mudanças em suas vidas. Entre os temas aparecem sexualidade e construção de gênero, autoconhecimento do corpo e da sexualidade, mitos e estereótipos na sexualidade feminina e masculina, orientação sexo-erótica, homofobia e violência de gênero.

Entretanto, os responsáveis pela capacitação dos futuros professores têm conhecimento mais teórico sobre saúde sexual e reprodutiva, direitos sexuais e educação sexual integrada com uma perspectiva de gênero nos contextos escolar, familiar e social, e metodologia com enfoque de gênero nos processos educacionais. “O diagnóstico inicial nos assustou. Perguntamos se o sexo dos estudantes influiria na relação de comunicação que se estabeleceria com os alunos e 90% dos professores disseram que sim”, afirmou à IPS Anabel Naranjo, professora da Universidade de Ciências Pedagógicas José da Luz e Caballero, de Holquín.

Tanto as mulheres quanto os homens asseguraram que “não seria igual a comunicação, nem o tratamento e nem os métodos de educação no caso de uma menina ou um menino”, acrescentou Naranjo, uma das profissionais encarregadas da execução do projeto na província. “Estimula-se mais as meninas a estudarem, a serem autodidatas, portanto o processo de aprendizagem está marcado pelo sexismo”, afirmou.

Esta pré-disposição do professorado, que tende a priorizar dentro da aula a menina ou a adolescente porque, supostamente, tem uma atitude melhor diante do estudo, poderia figurar entre as causas do aumento da feminização do ensino em Cuba, que nas universidades chega a mais de 60% das matrículas.

A criação de grupos de reflexão, a partir das necessidades expressas pelos próprios estudantes de Ciências Pedagógicas, deixou experiências importantes no trabalho dos estereótipos vinculados à masculinidade, à sensibilização sexual e à prevenção da homofobia no professorado em formação.

Para Gemma García, especialista do Escritório Técnico de Cooperação da Aecid em Cuba, o “impacto multiplicador” do projeto apoiado pela cooperação espanhola é incalculável. “Trata-se de profissionais que depois chegarão à sala de aula com um conhecimento integrado em temas de gênero”, disse à IPS. IPS/Envolverde

Dalia Acosta

Dalia Acosta ha sido corresponsal de IPS en Cuba por muchos años. Se graduó en 1987 de la licenciatura en periodismo internacional en el Instituto Estatal de Relaciones Internacionales de Moscú. Trabajó un año en el diario cubano Granma y otros seis en Juventud Rebelde, donde incursionó en el periodismo de investigación sobre mujer, minorías, sida y derechos sexuales. En 1990 recibió el Premio de Periodismo Tina Modotti, y en 1992 el Premio Nacional de Periodismo por un reportaje sobre la comunidad rockera de su país. Empezó a colaborar con IPS en 1990 como parte de un proyecto de comunicación con el Fondo de Población de las Naciones Unidas (UNFPA). Desde 1995 se desempeña como corresponsal en La Habana, y entre 1991 y 2010 trabajó también para el Servicio de Noticias de la Mujer de Latinoamérica y el Caribe (SEMLac).

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