Turkana, Quênia, 06/07/2010 – Metade das mulheres grávidas ou que amamentam na região queniana de Turkana está desnutrida. Além disso, estão sozinhas, pois, por ancestral costume, seus maridos se afastam delas por dois anos quando dão à luz.
“Quando há alimentos, a gente vem por eles”, disse Regina Ekwar, de 34 anos, mãe de cinco filhos. “Em geral, vivemos de frutas silvestres, raízes, leite de camelo, carne de cabra e até de burro, o que tiver”, disse. Segundo Gilchrist Lokoel, diretor do hospital do distrito de Lodwar, em Turkana central, “as duras condições de vida tornam a mortalidade infantil muito alta, que chega a 66% para cada cem mil nascidos vivos”. Apesar das últimas inundações, que afogaram grande parte do gado, a única vegetação evidente é o verde escuro do “mathenge”, uma agressiva espécie invasora, espinhosa e não comestível, tanto para o gado como para seres humanos. As erráticas chuvas ameaçam os animais e as plantas nativas, bem como os estilos de vida tradicionais.
“Supõe-se que um homem deve permanecer afastado de sua mulher por cerca de dois anos após o parto, para dar tempo para que crie o filho ou filha”, disse Francis Ekatapan, da aldeia de Napucho, perto do Lago Turkana. “Se ela é a primeira mulher, é costume que ele leve os animais para pastar a vários quilômetros de distância, onde pode se casar novamente. E, se já tem esposa, habitualmente é bom que se reassente” e fique com ela, explicou.
Ekwar é a segunda mulher do seu marido. Seu filho mais novo tem dois anos e está grávida novamente. A maior parte da manada de seu marido morreu na seca de 2009 contou à IPS. Ele raramente volta para casa, e Ekwar tem pouco com que alimentar sua família. Depende do que as organizações humanitárias fornecem. O professor Brian Ekai se preocupa com o costume de o marido se mudar não ter se adaptado às novas circunstâncias.
“Isto funcionou bem no passado, quando as chuvas chegavam com frequencia e as pastagens eram abundantes. Mesmo quando as mulheres ficavam sozinhas em casa, tinham camelos para ordenhar. Mas já não é o caso”, disse Ekai. “As atuais condições de vida exigem famílias manejáveis, apoio de pai e mãe e frequentes exames médicos, devido às doenças emergentes que nunca surgiam aqui”, acrescentou. As organizações humanitárias tentam atender a necessidade urgente de mulheres e crianças desnutridas, bem como promover o planejamento familiar.
“Não é possível corrigir tudo de uma só vez”, disse Nick Wasunna, assessor do capítulo queniano da organização humanitária cristã World Vision. “No momento, estamos concentrando nos mais vulneráveis, que são os menores de cinco anos, mães que amamentam e grávidas desnutridas”, afirmou. A “World Vision administra vários programas que abordam tanto as necessidades urgentes como de longo prazo de mulheres e crianças desnutridas”, acrescentou.
“Prescrevemos dietas especiais a quem está moderadamente desnutrido, enquanto o restante da família recebe outra dieta, no contexto do programa de Distribuição Geral de Alimentos. Crianças, grávidas e mães que amamentam com desnutrição severa são enviadas a centros de saúde avançada para receber cuidados especiais”, disse Wasunna.
Junto com a distribuição de alimentos, são ensinados às mulheres métodos de planejamento familiar, explicou o enfermeiro Julius Ekure, funcionário encarregado do ambulatório de Kangatotha. “Devido ao analfabetismo, a maioria delas crê que os métodos que incentivamos, como pílulas e injetáveis, as deixarão estéreis, enquanto o uso de camisinha é associado à imoralidade”, disse Ekure.
Os números do governo mostram que o uso de anticoncepcionais em Turkana é de apenas 3%, muito abaixo da média nacional de 46%. Aqui a família média tem seis filhos, enquanto o objetivo nacional fixado pelo governo é de quatro. O apoio adicional dado à saúde pública por organizações como World Vision, Oxfam, Cruz Vermelha e outras, é um passo vital, mas é preciso mais.
Lokoel disse que é necessária uma campanha para conscientizar com base em imagens, a fim de convencer os moradores de Turkana a levarem a sério o planejamento familiar e os cuidados médicos. Isto “implicaria o uso de cartazes, desenhos, ou mesmo peças de teatro no idioma local, vinculadas ao seu estilo de vida. Em alguns casos, convidamos os anciãos da aldeia para conversar sobre a importância da medicação, por serem eles as pessoas em quem mais se confia”, afirmou. IPS/Envolverde


