Rio de Janeiro, Brasil, 20/07/2010 – Usados desde tempos remotos, os tijolos de terra, que agora no Brasil são chamados “ecológicos”, podem ajudar a aliviar o déficit de moradia, pelo menor custo de construção. Também reduzirão os danos ambientais causados pela elaboração dos materiais tradicionais. As obras na favela Pavão-Pavãozinho, uma das comunidades pobres da cidade do Rio de Janeiro construídas nos morros, contemplam a construção de três edifícios populares para substituir as casas erguidas em áreas de risco ou onde estiverem projetadas ruas e estradas vicinais.
As melhorias, que são parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal de Luiz Inácio Lula da Silva, incluem outras favelas do Rio de Janeiro e de outras partes do país, nas quais foram instaladas Unidades de Pacificação social e policial para combater o tráfico de drogas. À simples vista se trata de uma obra comum. Mas a cor dos prédios é terracota: a cor da terra usada na elaboração dos tijolos ecológicos.
Francisco Casanova, professor do Programa de Engenharia Civil da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é um entusiasmado defensor desta matéria, ao qual dedicou os últimos anos de sua carreira. O engenheiro recordou que a técnica é tão remota quanto o Antigo Egito. No Brasil, a primeira obra com tijolo deste tipo data de 1942. Na Europa, originalmente eram usados pela população mais pobre, em épocas de guerra e pós-guerra, explicou.
Hoje, segundo Francisco, do Centro de Pós-Graduação de Engenharia da UFRJ, foi retomada a técnica, melhorada com os novos conhecimentos. Misturadores, aditivos, processo de compactação, que otimizam sua qualidade e resistência. “Está tudo muito avançado em relação ao passado”, disse o engenheiro, que pesquisa outras técnicas de construção popular como as telhas de origem vegetal. Os tijolos ecológicos são fabricados, entre outros materiais, com 50% de terra, entre 15% e 20% de areia e apenas 10% de cimento portland.
O engenheiro explica que estes reduzem em até 30% o custo da construção. “Terra existe em todo lugar”, brincou. Ao contrário dos tijolos tradicionais, estes não passam pela queima em fornos de lenha ou gás durante a produção. Por isso, reduzem em até 90% a emissão de gases contaminantes, que causam o aquecimento global. Além disso, ajudam a evitar o desmatamento, disse Casanova à IPS. Os tijolos Miguel Ángel Lasa são produzidos em uma fábrica no município de Magé, norte do Rio de Janeiro. O fabricante, , projetou uma máquina especial para preparar a mistura e prensá-los. Matéria-prima não falta.
O processo começa com a chegada de um caminhão que transporta terra extraída da região, que, com o transporte incluído, custa apenas R$ 10 (US$ 5,55) o metro cúbico. Ao material são adicionados escombros de demolição triturados e colados até ficar com a textura de “pó de café”. Na máquina, a terra, os escombros, a areia, a cal e o cimento são misturados com alguns aditivos para dar coesão e resistência ao material. Depois são prensados até 90% do molde. A cura dos tijolos acontece por hidratação, isto é, simplesmente com água, por imersão. São colocados para assentar por sete a 14 dias. O cheiro e a cor dos tijolos são de terra molhada. A fábrica cheira a terra molhada.
Este tipo de material também reduz os custos de construção, destacou Miguel. “Enquanto em uma obra tradicional são usados praticamente para o fechamento de paredes, este sistema utiliza cimento apenas nas partes estruturais, como vigas”, afirmou. Outra economia é a instalação de ligações hidráulicas e elétricas entre seus orifícios, o que evita quebrar a parede. Além disso, funcionam como isolantes térmicos e de som, disse Casanova. “Em regiões com temperaturas altas, também reduz o calor. E confirmamos isso pessoalmente em um apartamento terminado na Pavão-Pavãozinho, em um dia de 37 graus na sombra”, contou. Estes tijolos “dão um acabamento bonito” e não exigem reboque nem pintura. Apenas uma camada de verniz ou resina, acrescentou.
Segundo Miguel, os pedidos começam a crescer. Não apenas para obras de baixo custo, como também para residências de luxo e hoteis que investem em qualidade ambiental. Para Francisco, “os interesses políticos e econômicos existentes” impedem que se volte a estas origens da construção de casas populares. Estas obras economizam cimento, e também outros materiais de construção, como ferro, arame, pregos e reboco. Não convém a ninguém, nem às grandes indústrias nem às lojas de construção, comentou.
Cálculos do engenheiro indicam que o Brasil produz 50 milhões de toneladas de cimento por ano e que 70% desse volume é usado por “autoconstrutores” populares, isto é, pessoas que erguem suas casas pouco a pouco, a chamada “construção formiga”. O problema também é de produção. Para uma grande obra, como as do PAC, as fábricas teriam de entregar cerca de dez milhões de tijolos ecológicos em pelo menos 12 meses, e não dão conta, completou.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) diz que no Brasil o déficit habitacional é de 7,2 milhões de moradias. O governo federal lançou um programa que tem o objetivo de reduzir em 14% esse déficit, meta que os especialistas consideram muito difícil de cumprir até o final de seu mandato, em dezembro próximo. IPS/Envolverde

