ONU não investiga ataque israelense contra flotilha humana

Nova York, Estados Unidos, 23/07/2010 – Quando o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) condenou o assassinato de nove turcos da flotilha humanitária com destino a Gaza também “anotou” a proposta do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, de realizar uma investigação independente. Porém, ainda não há sinais de uma “rápida investigação imparcial, confiável e transparente” do incidente de 31 de maio.

O Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas designou uma comissão de três membros, liderados pelo juiz Richard Goldstone, para investigar a ofensiva militar israelense contra o território palestino de Gaza, no final de 2008 e começo de 2009, que deixou mais de 1.400 mortos e cinco mil feridos. A Comissão concluiu que Israel e o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) cometeram crimes de guerra.

As autoridades israelenses se preocuparam com a possibilidade de o chamado Informe Goldstone complicasse as possibilidades de o Estado judeu lançar outro ataque, disse à IPS o especialista em política Norman Finkelstein. “Lamentavelmente, Ban Ki-moon não implementou as recomendações do Informe Goldstone, de investigar os crimes de guerra, e só prolongou o processo. Agora, demora a criação de uma comissão que investigue os crimes cometidos contra o Mavi Marmara”, o navio da flotilha humanitária abordado pelas forças israelenses em alto mar.

O resultado é previsível, disse Norman, também autor de vários livros, entre eles “This time we went too far: truth and consequences of Gaza invasion” (Desta vez fomos muito longe: verdade e consequências da invasão de Gaza). Além disso, alertou que Israel se prepara para atacar o Líbano. “A ofensiva fará com que as anteriores pareçam mínimas. O Estado judeu poderá lançar um ataque monstruoso porque Ban Ki-moon não cumpriu sua responsabilidade”, previu. Quando a morte e a destruição se abaterem sobre o Líbano, Ban deverá ser culpado, disse Norman.

Por sua vez, um diplomata que pediu para não ser identificado disse que “é óbvio que o secretário-geral está pressionado pelos Estados Unidos e por outros países ocidentais para que não haja uma investigação internacional sem a anuência de Israel. Se os israelenses aceitarem, o que duvido muito, será uma investigação leve, e não completa como a aprovada pelo Conselho de Segurança”. Em junho, uma equipe de investigação israelense absolveu as forças militares israelenses de crimes no ataque contra a flotilha humanitária.

“É claro que o governo de Israel repudia as críticas e as tentativas da ONU de analisar seu questionável comportamento”, afirmou Richard Falk, professor emérito de direito internacional da norte-americana Universidade de Princeton. Israel não quis colaborar com Richard Goldstone, o difamou e depois repudiou o informe, apesar do escrupuloso esforço para realizar uma análise equilibrada das denúncias contra as forças israelenses por violações dos direitos humanos, mas também palestinas, completou.

“A demora de Ban Ki-moon para designar uma equipe de investigação contrasta com a atitude que assumiu diante de um caso semelhante, o do Sri Lanka contra os rebeldes tamis”, recordou Richard, relator especial da ONU para os territórios palestinos. “Deveria ser óbvio que apenas uma equipe internacional pode realizar uma investigação completa, objetiva e confiável sobre o incidente, no qual Israel recorreu a questionável e desmedido uso da força contra a flotilha humanitária em águas internacionais”, acrescentou.

Ban trabalha muito para levar adiante sua proposta, respondeu o porta-voz da ONU, Martin Nesirky, ao ser consultado se o secretário-geral continua esperando a “permissão” de Israel para designar uma comissão investigadora. “Como sabem, reuniu-se com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e conversou com ele por telefone”, e também tratou do assunto com o chanceler da Turquia, Ahmet Davutoglu, acrescentou.

“Não se trata de dilatar o assunto, mas de ter certeza de que todo o mundo está na mesma sintonia”, respondeu Martin quando perguntado sobre qual país, Turquia ou Israel, atrasava o processo. A comissão internacional “nunca verá a luz a julgar pelas últimas experiências”, afirmou, por sua vez, Naseer H. Aruri, reitor da Universidade de Massachusetts.

Israel, Estados Unidos e seus aliados ocidentais conseguiram em outubro passado “adiar” de forma indefinida o envio do Informe Goldstone ao Conselho de Direitos Humanos, com sede em Genebra. Israel ameaçou funcionários palestinos de represálias e infligir maior dano ainda à economia dos territórios ocupados, segundo o jornal israelense Haaretz. O mesmo tipo de acusações teria caído sobre a Autoridade Nacional Palestina se não tivesse concordado em adiar a discussão sobre o Informe Goldstone no Conselho de Direitos Humanos.

As flagrantes violações do direito internacional cometidas pelas forças armadas de Israel contra a população civil receberam a mesma resposta tanto do ex-presidente dos Estados Unidos, George W. Bush (2001-2009), quanto do atual, Barack Obama. “Os dois desculpam e protegem Israel de investigações internacionais e permitem a esse país continuar agindo impunemente”, concluiu Naseer. IPS/Envolverde

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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