Devastador ataque político a Ban Ki-moon

Nações Unidas, 26/07/2010 – Um engenhoso colunista de imprensa disse certa vez que em Washington o barco do Estado faz água pelo teto e pelo piso.

A Secretaria Geral da ONU vive um terremoto político. - Un Photo/Paulo Filgueiras

A Secretaria Geral da ONU vive um terremoto político. - Un Photo/Paulo Filgueiras

Talvez as coisas não estejam melhores na Organização das Nações Unidas, a julgar pelas circunstâncias do vazamento de um documento confidencial, no qual o secretário-geral, Ban Ki-moon, é crucificado politicamente por uma de suas funcionárias de mais alto status.

A IPS foi o único meio de comunicação com acesso total ao documento de 50 páginas divulgado em seu site do TerraViva: http://ipsterraviva.net/uploads/Un/UN/report.Pdf.

Em resposta ao devastador ataque executado pela subsecretária-geral adjunta Inga-Britt Ahlenius, Ban afirmou que sempre esteve aberto à “crítica construtiva”. E acrescentou que “como servidores públicos, temos regras e procedimentos. Neste caso, a confiança e as obrigações foram quebradas”, acrescentou. O secretário-geral disse, na semana passada, em reunião de altos conselheiros, que é lamentável um documento confidencial vazar para a imprensa.

O jornal The Washington Post publicou, no dia 19, a notícia, mas reproduzindo apenas alguns fragmentos nos quais Inga-Britt, chefe do Escritório de Serviços de Supervisão Interna das Nações Unidas (OSSI) e ex-auditora-geral da Suécia, desafia a condução do secretário-geral. Acusa Ban de se exceder no exercício de sua autoridade ao nomear altos cargos, agir com dupla moral nas destituições e carecer de faculdades de boa governança.

A lista de acusações disparou um terremoto político na Secretaria Geral e um veloz realinhamento dos principais acessores de Ban. Angela Kane, subsecretária-adjunta para o Departamento de Administração, disse aos jornalistas que havia “numerosas incorreções” no informe de Inga-Britt, mas que “seu conteúdo deve ser levado a sério”. Perguntada se o texto deveria ter sido publicado, respondeu que se trata de um memorando interno e uma ferramenta de administração que não foi concebida como documento público.

Um embaixador de um país em desenvolvimento disse à IPS que as revelações do documento são “escandalosas”. É possível que os Estados membros da ONU solicitem ao secretário-geral um desmentido das acusações ponto por ponto, acrescentou.

Após passar vários anos trabalhando para as Nações Unidas, Inga-Britt serviu os últimos cinco como chefe da OSSI, o corpo investigativo da ONU.

“Não há transparência nem prestação de contas. Em lugar de apoiar o controle interno, sinal de boa governança, o senhor se esforça em manejá-lo, o que equivale a miná-lo. No vejo nenhum sinal de reforma na ONU”, diz Inga-Britt em seu “Informe de finalização de funções”.

Os ataques de Inga-Britt foram agudos e furiosos.

– “Vai demorar para ser visto o dano causado pelo débil secretário-geral, porque o processo de deterioração e enfraquecimento da organização e da Secretaria é furtivo.”

– “A ausência de liderança e condução estratégica se manifesta por si mesma não apenas no fracasso em matéria de mudanças e reforma da organização, senão como uma espécie de ‘adhocracia’: são lançadas ‘reformas’ desintegradas e mal concebidas, sem uma análise adequada, sem entendimento nem visão holística.”

– “O senhor está solapando a autoridade de seus colaboradores de maior hierarquia, concedendo-lhes mandatos curtos, de um ano, e exercendo sua autoridade direta na nomeação de seu pessoal.”

– “Os altos cargos politizados, uma cultura que impregnará toda a organização, comprometendo o recrutamento baseado nos méritos, minando a excelência e rebaixando a moral, fará com que a saúde e a capacidade da Secretaria sejam ignoradas.”

– “Entretanto, nem o senhor e nem o subsecretário-geral, nem o chefe de gabinete, nem o vice-chefe de gabinete estão dispostos a uma entrevista (sobre a Avaliação de Risco na Secretaria).”

– “A Avaliação de Risco acontece em seu interesse, e esperávamos que o senhor e seu pessoal mais próximo estivessem comprometidos e contribuíssem para suas conclusões. Apesar das inúmeras solicitações, não tivemos acesso ao senhor nem ao seu pessoal e, assim, deveremos terminar a Avaliação de Risco – sem contribuições cruciais – e submetê-la à sua consideração para posterior debate.”

O informe cita ao menos um delegado que se queixou junto ao Quinto Comitê da Assembleia Geral, encarregado da administração e do orçamento, de que “a cultura geral da Secretaria não mostra muita melhora na prestação de contas. A organização não deveria continuar sendo uma rede de proteção para os incompetentes”, e isto, diz o informe, procede, ironicamente, de um delegado da Coréia do Sul, país do secretário-geral.

Tradicionalmente, a cultura da ONU é de secretismo, afirma o texto, “que pouco faz em nosso favor, apenas serve para alimentar boatos, piadas e desconfiança dentro da organização e entre esta e seus atores externos, incluindo a mídia”. No vazio criado pelo secretismo, o público e os meios de comunicação dependem de informação de fontes informais, “vazamentos” bem ou mal intencionados.

“Lamentavelmente, esses vazamentos são vistos na Secretaria como um motivo para restringir ainda mais a informação e para investigá-las, em lugar de vê-las como um argumento para ampliar a transparência. Vê seu próprio Escritório Executivo como consumido pelos vazamentos.”

“A transparência serve no longo prazo para melhorar a organização e instaurar uma cultura de responsabilidade e prestação de contas que o senhor diz buscar.”

“Não vejo nenhum esforço para cumprir com seu declarado compromisso de ampliar a transparência.”

Implicitamente, Inga-Britt retrata muito mal Ban, em comparação com os três secretários gerais anteriores. Boutros Boutros-Ghali instaurou a liderança intelectual da Secretaria, afirma. Kofi Annan reforçou o papel do secretário-geral como “promotor de normas” mundiais, como diplomata destacado e alto negociador. Dag Hammarskjold foi quem definiu e se pronunciou sobre esse duplo papel. Ele dizia que “a Carta da ONU dá ao secretário-geral um papel político explícito”. Sua intervenção ativa e de sucesso em crises internacionais foi a prova de sua convicção.

Contudo, onde fica Ban? “Lamento dizer que a Secretaria está em um processo de decadência. Não só se desfazendo, mas vagando sem rumo, para usar as palavras de um de meus colegas”, disse Inga-Britt. “Preocupa estarmos a caminho da decadência e da perda de relevância. Logo seremos vistos cada vez menos como um sócio de importância para a solução dos problemas mundiais”, destacou.

Isto, inevitavelmente, coloca as Nações Unidas sob o risco de não poder cumprir seu mandato. “Definitivamente, isto vai em detrimento da paz e da estabilidade do mundo. E é tanto triste quanto grave”. IPS/Envolverde

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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