ZWEDRU, Libéria, 27/07/2010 – Henry Teh faz deslizar com cuidado um lençol de hospital azul para revelar o ventre de uma mulher grávida. À medida que vai tacteando para sentir a posição do feto, este parteiro estagiário sabe que está a romper a tradição e a mudar o aspecto dos cuidados obstétricos na Libéria.
“Na nossa cultura, há algumas mulheres que não se sentem verdadeiramente à vontade com os homens a examiná-las…. devido às parte íntimas,” disse, mexendo no estetoscópio.
Em 2009, Teh tornou-se um dos primeiros homens a ser admitido num programa de formação de parteiras no sudoeste da Libéria. A escola de parteiras rural, encerrada durante 20 anos devido à guerra, foi reaberta pela Merlin, agência britânica de ajuda médica, e pelo Ministério de Saúde e Assistência Social da Libéria.
Falta de estagiários qualificados
Os funcionários da escola rapidamente constataram que havia uma escassez de candidatas qualificadas naquela região remota. Poucas jovens na Libéria acabaram o liceu nas últimas décadas porque os pais preferiam enviar os filhos para a escola.
A decisão de recrutar homens parece fazer sentido, disse Sawah Shaffa, formador de enfermagem. “A (Libéria) tem médicos. Tem enfermeiros. Portanto, a profissão de parteira não deve estar só limitada às mulheres.”
No hospital-escola Martha Tubman em Zwedru, Teh convida outra mulher grávida a deitar-se na mesa de exame. O jovem explica que aceitou imediatamente a oportunidade de se tornar parteiro devido a uma tragédia pessoal – a irmã de 19 anos morreu durante um parto quando estava no mato.
“Ela tentava ir a pé da aldeia até Kanweaken, onde temos uma clínica. Começou a sangrar muito e não havia nenhum carro disponível.”
Os aldeões puseram a mulher grávida numa cama de rede para a levar para a cidade mais próxima, mas ela morreu na estrada antes que a ambulância pudesse chegar.
Um relatório de 2009 publicado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) indica que as mulheres liberianas correm o risco durante a sua vida, na proporção de 1 para 12, de morrerem durante a gravidez ou devido a complicações durante o parto, normalmente por causa de partos obstruídos, hemorragias ou infecções, que resultam na oitava mortalidade materna mais elevada do mundo.
A UNICEF chegou à conclusão que 80 por cento das mortes maternas podiam ser evitadas havendo acesso a trabalhadores de saúde qualificados.
A Libéria tem aproximadamente 3.8 milhões de pessoas mas só 400 parteiras qualificadas. Os funcionários de saúde dizem que são necessárias outras 1.200 parteiras.
Mas ainda está em dúvida se a experiência dos parteiros será bem sucedida.
Ultrapassar obstáculos culturais
Na sala de espera apinhada de gente no hospital em Zwedru, uma jovem grávida encolhe-se com dores e agarra a barriga. Aletha Cherley, de 22 anos, está nervosa porque é a sua primeira gravidez mas, apesar de sentir cãibras e dores nas costas, tem relutância em deixar Henry Teh examiná-la.
“Para mim, se um homem que não seja o meu namorado vê as minhas parte íntimas, vou ficar com muita vergonha. … É muita vergonha para mim. É por isso que há senhoras aqui para fazerem isso,” disse Cherley.
“Sabe, ser parteira quer dizer que alguém fica com a mulher durante bastante tempo. E a maior parte das mulheres não se sente à vontade se outro homem ficar com elas até darem à luz,” concorda Zeena Abdalla Ramadhan, parteira queniana e coordenadora de formação de Merlin.
“Ser parteira é algo privado… de mulher para mulher.”
Adballa. de 56 anos, conhecida como “Mamã Zeena”, passou quase metade da sua vida a formar parteiras no Sudão, no Chade e no campo de refugiados de Kakuma no Quénia. Sabe que existem barreiras culturais à introdução de homens neste campo tradicional.
“No sul do Sudão, só podem chamar um homem se a mulher não conseguir resolver o problema. Então vem o homem com uma lança para remover o bebé, se o bebé estiver preso. Ainda assim, tem de haver uma mulher perto.”
Os homens formados podem preencher este vazio?
A Mamã Zeena tornou-se parteira depois de ter perdido o seu próprio filho no fim da gravidez em 1987. Hoje, tornou-se defensora eloquente da formação de parteiras mais qualificadas em estados pobres ou naqueles que passaram por uma guerra.
Avisa que o Objectivo de Desenvolvimento do Milénio de reduzir a taxa de mortalidade materna em três quartos até 2015 e proporcionar acesso universal à saúde reprodutiva não pode ser atingido sem maior investimento.
Na Libéria, tem debatido a questão de saber se a formação de parteiros tem alguma utilidade se a questão do género impede as mulheres grávidas de procurarem os seus conhecimentos especializados. A decisão torna-se mais difícil porque os candidatos masculinos obtêm notas mais altas no exame de entrada.
“Se tivéssemos de olhar só para as notas, podíamos ter só homens… Mas (os membros das comunidades) levantaram essa preocupação. Não podemos formar pessoas que não vão ser úteis. Assim, decidimos que não vamos aceitar mais homens.”
A escola reduziu o número de estudantes masculinos aceites em 2010 para dois. A Mamã Zeena não sabe o que vai acontecer no próximo ano.
De regresso à sala de exame, Henry Teh coloca o seu ouvido contra o auscultador fetal em forma de um chifre, e pressiona o instrumento contra a barriga da mulher grávida para ouvir as batidas do coração do feto. Teh, que carregava telemóveis na sua pequena aldeia no ano passado, sorri com orgulho quando descreve como gosta da formação para se tornar parteiro.
Ao contrário dos funcionários da escola, está confiante que as mulheres grávidas irão ultrapassar a timidez e os tabús culturais e procurar a sua assistência médica na aldeia.
“Gosto muito deste trabalho… só temos de abordar as mulheres de forma que se sintam comfortáveis.”
A primeira classe de 32 parteiras, que vão formar-se em Dezembro de 2010, assinaram contratos com o Ministério da Saúde garantindo-lhes emprego a tempo inteiro durante três anos, cargos esses que deverão desempenhar em seis distritos rurais no sudoeste da Libéria.

