DESTAQUES: Clima descontrolado para Cancún

BONN, Alemanha, 10/08/2010 – (Tierramérica).- O clima planetário mostra perturbações graves enquanto as discussões políticas para adotar um acordo contra o aquecimento global navegam à deriva, alertam especialistas.

Mauricio Ramos/IPS - Tierra reseca en Chiapas, México.

Mauricio Ramos/IPS - Tierra reseca en Chiapas, México.

Calor incomum, inundações, secas e furacões cada vez mais frequentes e intensos. Já ouvimos estas notícias? Quando se estreitam as opções para negociar um pacto mundial contra a mudança climática, a Organização das Nações Unidas (ONU) insiste em assinalar a emergência de “condições extremas”. Um olhar sobre o clima global dá sinais dessas “condições extremas”.

Nos Andes sul-americanos, as nevadas deste inverno foram tão intensas que mataram centenas pessoas. Ao mesmo tempo, as geleiras peruanas e bolivianas derretem irremediavelmente. No Paquistão e em outras regiões da Ásia central, prolongadas chuvas torrenciais causaram inundações igualmente mortais. Em toda a Europa e na América do Norte, o verão deste ano assola com temperaturas elevadas, de mais de 35 graus, que se mantêm constantes.

Na Rússia, o prolongado calor, com jornadas de até 40 graus, junto com uma seca extrema, provocou, no final de julho e começo deste mês, incêndios gigantescos ao redor da capital e em outras seis regiões do país, obrigando o governo a declarar o estado de emergência. O calor, a seca e o fogo mataram cerca de duas mil pessoas, destruíram milhares de casas e aproximadamente dez milhões de hectares de plantações.

“O teto da casa da humanidade está queimando”, disse um ativista ambiental que participou em Bonn da terceira rodada de negociações preparatórias para a 16ª Conferência das Partes (COP-16) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, que acontecerá em novembro e dezembro no México. Nos corredores do gigante Hotel Maritim desta cidade alemã, onde aconteceu o encontro, de 2 a 6 deste mês, proliferam cartazes sobre o efeitos do aquecimento global.

Segundo a agência espacial norte-americana (Nasa), as altas temperaturas médias registradas entre março e junho no planeta fizeram história: foi o período mais quente dos últimos 130 anos. Além das catástrofes, o aquecimento global tem outras consequências desastrosas. Na Europa, governos e empresários temem que o calor e a seca causem enormes perdas agrícolas.

“A colheita de grãos e cereais deste ano vai diminuir cerca de 10%, ou 25 milhões de toneladas”, disse ao Terramérica um dos mais importantes comerciantes de produtos da Alemanha, Ludwig Höchstetter, diretor da BayWa. Estas perdas representam escassez de alimentos, alta de preços e insegurança alimentar.

A nova secretária-executiva da Convenção Marco, Christiana Figueres, recordou novamente aos governos dos países industrializados sua “responsabilidade este ano de dar o passo essencial na luta contra a mudança climática”. Na COP-16, que acontecerá no balneário mexicano de Cancún, os governos devem aprovar um acordo vinculante que regule a redução de emissões de gases-estufa responsáveis pelo aquecimento global a partir de 2012, quando expirar o primeiro período de obrigações do Protocolo de Kyoto.

“Precisamos estabilizar as emissões antes de 2030 e reduzi-las em 50% antes de 2050”, para limitar o aumento médio da temperatura global a dois graus em relação às medições da era pré-industrial, disse Christiana ao Terramérica. Contudo, o mundo enfrenta um paradoxo. De um lado, vai precisar atender a crescente demanda por energia, especialmente nos países em desenvolvimento. Por outro, deve evitar o aumento das emissões provocadas pela queima de combustíveis fósseis, como o petróleo.

Para gerar energia limpa e criar uma economia de baixa intensidade de carbono, a Secretaria da Convenção considera necessários investimentos de US$ 20 bilhões. Mais da metade desse dinheiro deveria favorecer os países em desenvolvimento. A quantia é relativamente baixa, comparada com o que custará a mitigação da mudança climática. “Para cada dólar investido na geração de energia limpa nas nações em desenvolvimento o mundo economizaria US$ 7 em custos de mitigação”, disse Christiana.

A responsabilidade de reduzir os gases-estufa “recai sobre os países industrializados”, disse ao Terramérica, em Bonn, o representante da China para a mudança climática, Huang Huikang. “Nos últimos 200 anos, as nações industrializadas, com seu modo de produção e de vida, causaram um grande acúmulo de dióxido de carbono na atmosfera”, disse Huang. “A responsabilidade histórica e moral destes países é muito clara”, acrescentou.

Embora sem mencionar os Estados Unidos, a mensagem de Huang estava dirigida a Washington. Esse país ainda tem a maior quantidade de emissões de gases contaminantes por habitante, mas o governo se nega a ratificar o Protocolo de Kyoto e o Senado abortou, no final de julho, um projeto de lei contra a mudança climática. A questão de Washington não assumir responsabilidades ambientais globais continua bloqueando as negociações com vistas a Cancún, a ponto de os especialistas e observadores sugerirem sua suspensão e a busca de canais alternativos.

“Talvez devêssemos simplesmente aprovar a prorrogação do Protocolo de Kyoto para depois de 2012”, disse Christiana ao Terramérica. Outros, como Jo Leinen, presidente do comitê ambiental do Parlamento Europeu, acreditam que o contexto da ONU demonstrou sua inutilidade nas negociações para combater a mudança climática. “Se Cancún fracassar, e tudo sugere que fracassará, deveremos considerar uma coalizão de países voluntários, realmente comprometidos com o combate à mudança climática”, afirmou Jo ao Terramérica. “Esta coalizão deveria representar pelo menos 80% das emissões”, acrescentou.

Como a China encabeça a lista de contaminadores, com 23% das emissões globais, seguida dos Estados Unidos com 20%, tal coalizão deveria incluir uma destas duas nações. Missão que, no momento, parece impossível.

* * O autor é correspondente da IPS.

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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