Direitos Humanos: Oito milhões em depósitos de seres humanos

Washington, 16/06/2005 – Sete em cada 10 dos 11,5 milhões de refugiados no mundo encontram-se "depositados" por cinco ou mais anos em países que se negam a reconhecer seus direitos básicos, segundo o não-governamental Comitê Norte-americano para Refugiados e Imigrantes (USCRI). A edição 2005 do Informe Mundial sobre Refugiados, divulgado nesta quarta-feira pelo Comitê, indica que muitos países negam àqueles que devem abandonar seus países o respeito aos direitos garantidos pela convenção internacional sobre a matéria em vigor desde 1951. Dessa forma, muitos dos refugiados do planeta se vêem impedidos de trabalhar, movimentar-se livremente dentro dos países em que residem, possuir propriedades e receber educação, segundo o documento.

Outra revelação do relatório é que a quantidade mundial de refugiados no exterior e em seus próprios países caiu pelo segundo ano consecutivo. O USCRI qualifica em seu estudo 40 países com base no tratamento que dispensam aos seus refugiados, no contexto de uma campanha que já dura um ano para chamar a atenção sobre o que esta organização chama de "depósitos" de seres humanos. Nestas instalações, sejam acampamentos ou outras áreas de restrição ou segregação, os refugiados são mantidos em inatividade forçada e em situação de dependência durante prolongados períodos de tempo. "Estamos falhando com os que mais necessitam", disse a presidente do Comitê, Lavinia Limón. "Milhões destes refugiados são crianças que crescem para o nada", acrescentou.

Entre os principais violadores da convenção figuram, segundo o documento de 126 páginas, Tanzânia, Malásia e Irã, que receberam qualificação F, a pior da escala do USCRI. Por outro lado, Chade, Iraque e Estados Unidos receberam a nota máxima, A. Em seu informe, o Comitê indica que a quantidade estimada de refugiados e solicitantes de asilo caiu em 2004, de 11,9 milhões no começo do ano passado para 11,5 milhões em janeiro de 2005. A redução segue a tendência iniciada em 1996, quando eram 14,5 milhões. Em 2004, segundo o relatório, cerca de 400 mil afegãos regressaram ao seu país, bem como 100 mil angolanos, 75 mil eritreus e 60 mil liberianos. Mas a quantidade de refugiados sudaneses continuou aumentando, com mais 100 mil ao longo do ano, fundamentalmente por causa da crise humanitária em Darfur.

Países como Birmânia, Burundi e Iraque enviaram para o exterior cerca de 80 mil refugiados. O USCRI calcula que os iraquianos que vivem fora de seu país são entre 280 mil e 366 mil. Também caiu a quantidade mundial de refugiados internos, de 23,6 milhões, no final de 2003, para 21,6 milhões até janeiro deste ano. A maior parte dessa redução é atribuída ao regresso para seus lares de centenas de milhares de pessoas em Angola e República Democrática do Congo. Por outro lado, houve novos deslocamentos no Sudão, onde até 2,5 milhões de pessoas abandonaram suas casas nos últimos dois anos devido à violência em Darfur, embora dezenas de milhares tenham regressado às suas casas no sul do país, depois do acordo de paz entre Cartum e a insurgência local. O Sudão tem mais refugiados (entre 5,3 milhões e 6,7 milhões) do que qualquer outro país. a Colômbia, com quase três milhões, ficou em segundo lugar, à frente da República Democrática do Congo que, no final de 2004, tinha 2,33 milhões, 900 mil a menos do que no ano anterior, segundo o documento.

De todo modo, o USCRI enfatizou que os refugiados internos são mais difíceis de se calcular do que os refugiados no exterior. Com um total de quase três milhões, o contingente de palestinos refugiados é o maior do mundo. Cerca de 1,63 milhão vivem nos territórios ocupados da Cisjordânia e Gaza, 701 mil na Síria e 265 mil no Líbano. Estes dois países árabes têm, além disso, a maior proporção de refugiados em relação à população: um em cada 18 no Líbano e um em cada 25 na Síria. Os palestinos também constituem a mais antiga população "depositada" de refugiados. Há 56 anos, em Gaza, Líbano e Cisjordânia muitos palestinos vivem pelo menos cinco anos restritos a acampamentos ou assentamentos segregados ou privados de direitos básicos.

Hoje, 1,65 milhão de palestinos vivem em áreas nessas condições. No Egito, na Jordânia e Arábia Saudita, os palestinos encontram-se "depositados" ao longo de 37 anos. A população palestina "depositada" nesses países chega a 454 mil pessoas. Outras grandes populações de refugiados "depositados", quase dois milhões, são as de afegãos no Irã e no Paquistão, nessa condição há 25 anos. E há 20 anos encontram-se nessa situação eritreus no Sudão, angolanos em Zâmbia e Namíbia, saharawis na Argélia, filipinos na Malásia, iraquianos no Irã, palestinos no Kuwait, srilanquenses na Índia e birmaneses na Tailândia. No total, sete milhões de refugiados sofrem condições deploráveis de vida em "depósitos" por mais de 20 anos. (IPS/Envolverde)

Foto: J. Bleibtreu

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *