Nações Unidas: A China não cede lugar ao Japão

Pequim, 16/06/2005 – A forte oposição da China aos planos apresentados para reformar a Organização das Nações Unidas se deve somente à sua resistência em ceder um lugar no privilegiado clube do Conselho de Segurança ao Japão, seu histórico rival. Os governantes chineses "sentem que são parte de um clube muito exclusivo e que o merecem. Não é um privilégio estarem dispostos a compartilhar com recém-chegados. Opondo-se ao Japão, encontraram uma forma adequada de proteger sua posição|, disse à IPS um diplomata brasileiro em Pequim. A China é um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU com poder de veto, junto com Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia.

Na semana passada, Pequim criticou os esforços do chamado Grupo dos Quatro, formado por Brasil, Alemanha, Índia e Japão, para ampliar o Conselho de Segurança e qualificou a iniciativa de "imatura", bem como de ameaça às tentativas de reforma das Nações Unidas. "Por culpa de uns poucos países que pressionam com uma proposta imatura, a reforma do Conselho de Segurança sai dos trilhos e o avanço potencial da reforma da ONU é minado", afirmou o porta-voz da chancelaria chinesa, Liu Jianchao, em entrevista coletiva. Os países do G-4 buscam um lugar permanente no Conselho, mas enfrentam a resistência do movimento Unidos por Consenso, coalizão de partidos liderados pela Itália que pretendem uma mera ampliação da categoria de membros rotativos.

O movimento integrado, entre outros, por Argentina, China, Coréia do Sul, México e Paquistão, trabalha para conseguir um consenso antes que seja tomada qualquer decisão sobre o tamanho e a forma do novo Conselho de Segurança. Em um documento divulgado na semana passada, Pequim assinalou que a reforma da ONU deve ser determinada através de um amplo consenso antes da votação, pois se trata de um assunto importantíssimo para o fórum mundial. O documento defende a ampliação do Conselho em favor dos países em desenvolvimento, especialmente os pequenos, mas apenas admitindo novos membros rotativos, e adverte que Pequim "se oporá a qualquer prazo para impor o voto sobre um plano de reforma a respeito do qual os membros ainda discordam".

Os países da ONU debatem sobre a reforma do Conselho de Segurança há mais de 10 anos. O secretário-geral da organização, Kofi Annan, apresentou em março dois projetos para aumentar de 15 para 24 o número de membros do Conselho, e exortou a Assembléia Geral a escolher um antes de sua reunião no próximo mês de setembro. Annan afirma que o órgão deve ser ampliado para que efetivamente reflita os interesses de toda a comunidade internacional. O primeiro projeto que apresentou propõe a entrada de seis novos países permanentes, mas sem poder de veto, e outros três rotativos pelo período de dois anos. Os assentos seriam divididos de maneira a dar uma representação eqüitativa a todos os continentes. O segundo modelo proposto mantém os atuais cinco membros permanentes e cria uma nova categoria de oito países que integrariam o Conselho pelo período de quatro anos, e um por dois anos.

"Por que a China diz "não" neste momento crucial?", dizia uma manchete, quinta-feira, passada, do periódico Southern Weekend, da cidade de Guangzhou. "Não há forma de a China permitir que um Japão, ainda por cima desrespeitoso com a história, seja admitido em um órgão de tomada de decisões das Nações Unidas", respondeu o jornal. O Japão tenta um assento permanente argumentando que é um dos principais contribuintes financeiros das operações de paz da ONU e que constantemente fornece assistência econômica a países em desenvolvimento através da ajuda oficial ao desenvolvimento. Mas a pretensão japonesa não caiu bem em Pequim nem em Seul. Os dois governos acusam Tóquio de ter distorcido os fatos históricos de seu passado imperialista nos livros escolares.

Entre outras coisas, os textos dizem que o Japão "possui" as ilhas de Takeshima, no Mar do Japão, disputadas com a Coréia do Sul. O arquipélago foi ocupado nas primeiras décadas do século XX pelo outrora império japonês, que lançou uma campanha colonialista na Ásia oriental, cometendo todo tipo de crimes contra a população civil. O Shouthern Weekend disse que a China tenta deter os planos de reforma agora para não ter de usar seu poder de veto quando a emendada Carta da ONU for enviada ao Conselho de Segurança para sua aprovação. "Todos os olhos do mundo estão fixos na China neste momento", disse ao periódico Lin Guojiong, diplomata chinês aposentado e com muitos anos de experiência nas Nações Unidas. "Temos de ser firmes e fiéis à nossa posição sobre a pretensão japonesa de ingressar no Conselho de Segurança. Se cedermos nisto, a autoridade internacional da China, que trabalhamos todos estes anos para construir, será seriamente prejudicada", acrescentou.

A candidatura japonesa é a mais forte dentro do G-7, especialmente graças às suas contribuições financeiras para instituições da ONU. Mas em abril, suas pretensões foram minadas por vários protestos na China e na Coréia do Sul, quando manifestantes criticaram Tóquio por não se desculpar pelas atrocidades cometidas pelo seu exército durante a era de colonizações na Ásia, entre 1910 e 1945. O primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, disse, em visita à Índia no mês de abril, que o Japão deve enfrentar seu passado antes de se candidatar a um cargo de tamanha importância. Por outro lado, apoiou as aspirações da Índia, país com o qual a China está criando cada vez mais vínculos. "Entendemos e apoiamos plenamente as aspirações indianas para ter um papel mais importante nos assuntos internacionais, inclusive nas Nações Unidas", disse Wen Jiabao.

Analistas dizem que a forte oposição à candidatura japonesa poderia causar uma quebra no G-4. "O Japão leva toda a culpa pela rejeição da China à proposta de reforma da ONU", disse Wu Miaofa, pesquisador do Instituto Chinês de Relações Internacionais. "Desde que os governantes chineses deixaram clara sua posição, têm sido mais ativos do que qualquer outro no sudeste da Ásia e na África, fornecendo assistência financeira e procurando garantir votos", acrescentou. Somente com a aprovação de dois terços dos 191 membros da Assembléia Geral, uma emendada Carta da ONU poderia ser enviada aos governos para sua ratificação. "É pouco provável que o Japão ganhe votos no sudeste da Ásia e na África, já que ambas regiões valorizam a amizade da China e farão o que ela disser", afirmou Wu. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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