Nova York, Estados Unidos, 18/08/2010 – Embora tratado por muito tempo como um problema exclusivo dos países ricos, o câncer é hoje uma importante causa de morte também no Sul em desenvolvimento, e um grupo de especialistas pede novas estratégias para enfrentá-lo nos países mais pobres. Um documento, divulgado no dia 15 na revista médica The Lancet, escrito por Paul Farmer, Julio Frenk, Lawrence Shulman e Felicia Knaul, da Iniciativa pela Igualdade Global, da Universidade de Harvard, busca chamar a atenção para as desigualdades em nível mundial nos padrões de tratamento contra o câncer.
“O câncer nos países em desenvolvimento continua sendo uma imprevista e pouco reconhecida prioridade de saúde”, disse Felicia à IPS, acrescentando que “ainda é considerada uma doença dos ricos e do mundo industrializado”. Dos 7,6 milhões de pessoas que morrem de câncer a cada ano, dois terços são de países em desenvolvimento. Em 1970, apenas 15% dos casos de câncer registrados eram de países de rendas baixa e média. Em 2008, o número subiu para 56%, e a previsão é que chegará aos 70% em 2030.
Esta crescente proporção é acompanhada por uma queda das doenças infecciosas. As taxas de sobrevivência para determinados tipos de câncer, como cervical, de mama e de testículo, estão diretamente ligados à renda do país onde são detectados. Em nações ocidentais, como os Estados Unidos, a incidência e a mortalidade do câncer diminuíram desde os picos registrados na década de 90, graças à ampla disponibilidade de tratamentos efetivos a baixo custo, melhor prevenção e maior consciência pública.
Entretanto, o acesso ao tratamento nos países do sul é mais limitado. Assim, os autores do documento, coordenadores da Força de Tarefas Mundial para um Acesso Expandido à Atenção e ao Controle do Câncer em Países em Desenvolvimento (GTF.CCC), destacam a importância da prevenção. Mais campanhas intensas contra o tabaco e uma ampla disponibilidade de vacinas contra o vírus do papiloma humano e contra a Hepatite B diminuiriam a incidência do câncer e reduziriam os custos dos tratamentos de longo prazo. “Muitos tratamentos para o câncer não são tão caros, incluindo os de mitigação e controle da dor”, destacou Felicia.
Nos últimos dez anos, aumentou a ajuda financeira internacional para melhorar os recursos de saúde nos países pobres, mas a assistência se concentra principalmente em doenças infecciosas como aids e tuberculose. Os programas para combater essas enfermidades conseguem reduzir o número de pessoas afetadas e oferece um cuidado mais acessível.
Os desafios que estas iniciativas enfrentavam no início são similares aos que têm pela frente hoje os defensores de maior atenção e prevenção do câncer. Críticos afirmam que os recursos para a saúde mundial não deveriam ser gastos em vacinas caras e cuidados com o câncer, e que esses complexos tratamentos não seriam possíveis no fraco contexto dos sistemas sanitários dos países em desenvolvimento.
Felicia ressaltou que “o controle e a assistência do câncer podem ser oferecidos de maneira a fortalecer todo o sistema de saúde, reforçando a capacidade de dar atenção também para outras enfermidades”. E acrescentou que “devemos eliminar o argumento de que só é possível atender uma coisa, e começar a incrementar a disponibilidade de recursos para fortalecer os sistemas de saúde e atender as necessidades dos pacientes”, afirmou.
Uma das maiores dificuldades nos países de escassos recursos é a falta de especialistas e oncologistas. Contudo, as últimas experiências em Malauí, Haiti e Ruanda demonstram que mesmo esse obstáculo não é intransponível. Em colaboração com os respectivos ministérios nacionais, a organização Sócios na Saúde ajuda a administrar clínicas em distritos rurais, e, diante da falta de especialistas, capacita médicos e enfermeiras locais.
Porém, “o alcance dessas experiências-piloto se tornaram pequenas diante da expansão da doença”, reconhece o documento. Segundo seus autores, é importante que o tratamento contra o câncer seja oferecido de forma gratuita, embora admitam que isto é difícil pela falta de fundos. Um exemplo positivo, acrescentaram, é a inclusão dos tratamentos oncológicos nos programas nacionais de seguro médico do México e da Colômbia. Porém, mesmo positivas, estas lições dificilmente são aplicáveis em outras nações, já que muitas carecem de seguros médicos nacionais e não oferecem proteção financeira em saúde para os pobres.
Para as nações de baixa renda, “expandir o apoio internacional será essencial”, disse Felicia à IPS. “Devem ser mobilizados recursos mundiais, e estes devem ser aplicados de forma a fortalecerem os sistemas de saúde em sua totalidade, oferecendo proteção financeira com especial atenção aos segmentos mais pobres”, afirmou. Envolverde/IPS

