Lulas esquivas no Atlântico Sul

Buenos Aires, Argentina, 20/08/2010 – Fatores ambientais, falta de cooperação e pesca excessiva causaram uma profunda baixa nas capturas de lula argentina (Illex argentinus) no sudeste do Atlântico, a zona mais rica do mundo nesta espécie. Nos primeiros seis meses deste ano, as capturas diminuíram 50,4% em comparação com igual período de 2009, que também foi muito ruim em relação a 2008.

De 58 mil toneladas no primeiro semestre de 2009, as capturas passaram para 29 mil no mesmo período deste ano. Em 2007, somente os barcos argentinos pescaram 232 mil toneladas, enquanto os estrangeiros, que ficam na margem da zona econômica exclusiva, capturaram ainda mais. As exportações desta espécie, a segunda mais vendida pela Argentina depois da merluza (Merluccius hubbsi), retrocederam 68% em volume no mesmo período deste ano, uma contração que eleva os preços.

Empresas, organizações ambientais e científicas concordam que não existe apenas uma causa, mas uma soma de fatores que incidem em uma espécie de vida curta e muito sensível às alterações de seu hábitat. A lula argentina, que agrada o consumidor tanto recheada como frita, vive um ano, durante o qual desova para que o ciclo continue com novos exemplares na temporada seguinte.

As diferentes famílias desta lula ocorrem em grandes quantidades na zona econômica exclusiva de Brasil, Argentina e Uruguai, e em águas que rodeiam as Ilhas Malvinas, cuja soberania é disputada por argentinos e britânicos, que a ocuparam no Século 19 e as chamam de Falkland Islands. “É um recurso dinâmico e submetido a fortes flutuações naturais, que poderiam ser mais frequentes pela mudança climática”, disse Guillermo Cañete, coordenador do Programa Marinho da Fundação Vida Silvestre Argentina.

O empresário Guillermo Jacob, da firma Bahía Grande, informou à IPS que este ano sua empresa pescou metade do que capturou em 2009, quando já havia obtido apenas 50% do que pescara em 2008. Jacob atribui a queda a mudanças naturais que levam a lula a buscar correntes menos quentes ou mais profundas. “Nossos mecanismos de pesca são sustentáveis e não há grande pressão sobre o recurso”, assegurou. “De um ano para outro ocorrem grandes variações porque as condições ambientais estão variando muitíssimo, talvez pela mudança climática”, afirmou.

Somente agora, final da temporada, houve um aumento que poderá salvar o ano para alguns. Entretanto, a maioria dos empresários está preocupada, sobretudo os que se dedicam exclusivamente a esta espécie. Jacob descartou uma queda pela pressão de barcos estrangeiros que operam na milha 201, na área vizinha à zona econômica exclusiva, a cerca de 370 quilômetros da costa. São barcos que competem com vantagens porque são subvencionados para permanecerem longas temporadas em alto mar com uma tripulação que recebe baixos salários, afirmou.

Em anos bons, pode haver até 300 barcos “poteros” (que usam máquinas criadas para capturar de forma seletiva a lula) procedentes principalmente da Ásia, além de alguns espanhois que usam técnicas de arrastão, mais predadoras do que a dos “poteros”, segundo ambientalistas. Antes de desovar, as fêmeas perdem dinamismo, afundam e não se deixam atrair pelos “poteros” que têm anzois especiais. Já as redes de arrastão capturam fêmeas e machos indiscriminadamente.

Segundo Cañete, “é preciso evitar o efeito sinérgico entre as alterações naturais e o excesso de pesca” e elaborar “uma política de adaptação” às novas condições climáticas e do oceano. Para isso é necessário ter informação, disse, um insumo que nos últimos anos escasseia por problemas sindicais no Instituto Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Pesqueiro (Inidep), que há duas temporadas não embarca observadores para prever como será a temporada seguinte.

“Não é fácil responder por que a lula diminuiu. Não temos informação de que a causa sejam as capturas”, disse à IPS o diretor de Pesquisa do Inidep, Otto Wöhler. A seu ver, o fenômeno parece responder a “causas naturais que provocam flutuações muito notórias”, mas isto “não foi possível elucidar. A pesca na milha 201 afeta o potencial reprodutivo” da espécie, reconheceu, e não há informação que permita descartar ou confirmar essa hipótese nesta temporada.

Segundo a Secretaria de Pesca, pouco menos de uma centena de navios “poteros” são registrados neste país e autorizados a capturar lula na zona econômica exclusiva, e pode haver até 300 na milha 201. Além disso, algumas embarcações operam com licenças concedidas por autoridades das Malvinas, que fixam diferentes limites. Enquanto a Argentina exige que seja preservada 40% da espécie para reprodução, nas Malvinas o limite é estabelecido em toneladas.

Segundo uma fonte consultada pela IPS na não governamental Fundação Nosso Mar, a tendência mundial para organizar as capturas de forma sustentável é criar organismos regionais que fixem normas comuns. Essa possibilidade se complica pelo conflito territorial entre Argentina e Grã-Bretanha e as dificuldades para patrulhar melhor a área vizinha à milha 201, disse a fonte, que pediu para não ser identificada.

Uma comissão integrada por representantes dos dois países funcionou um tempo controlando a pesca, mas em 2005 a Argentina deixou de participar por não reconhecer que os britânicos tenham direitos sobre a pesca nas Malvinas. Envolverde/IPS

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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