Plumtree, Zimbábue, 26/08/2010 – Um novo tipo de emigração acontece no Zimbábue. Antes, as pessoas cruzavam a fronteira com a África do Sul ou Botsuana em busca de trabalho ou fugindo da repressão. Hoje, fazem para receber tratamento contra aids. As planícies de Ndolwane e Plumtree, no sudoeste do Zimbábue, compartilham fronteira com Botsuana. Deste lugar, um crescente número de famílias leva seus filhos infectados com o vírus HIV, causador da aids, para países vizinhos para receber medicamentos antirretrovirais.
Este fenômeno cresceu porque os programas do governo do Zimbábue para fornecer medicamentos a pacientes com HIV não conseguiu cobrir a grande demanda, segundo organizações religiosas. “Isto demonstra o quanto estão desesperadas as pessoas para dar tratamento aos filhos”, afirmou Khumbulani Khaphela, pastor de uma igreja evangélica que trabalha em Plumtree. “Algumas famílias, após saberem que outras enviaram seus filhos através da fronteira, aproximaram-se de nós para pedir ajuda nesse sentido”, disse.
Espera-se que as igrejas financiem as viagens por razões médicas como parte de seus esforços para salvar crianças com HIV. Os moradores de Plumtree estão acostumados à emigração. Homens e mulheres desta empobrecida região são obrigados a deixar suas aldeias por falta de água, alto desemprego e carência de serviços médicos. Milhares abandonaram suas casas para trabalhar em Botsuana ou na África do Sul e enviar dinheiro para suas famílias. Este fenômeno, segundo pesquisadores da aids e líderes locais, contribuiu para a propagação da doença, já que os maridos que viajam em busca de emprego mantêm relações sexuais fora do casamento e voltam para casa com o vírus. Isto faz com que muitas crianças nasçam com o HIV.
A emigração em busca de tratamento para meninos e meninas também é alimentada pelo crescente número de doentes em áreas urbanas que vão para zonas rurais em busca de medicamentos antirretrovirais, já que os hospitais dessas áreas têm listas menores de pacientes do que, por exemplo, a cidade de Bulawayo. Além disto, grupos religiosos indicam que também há informes de casos em centros urbanos onde os pais optaram diretamente por tratar seus filhos no exterior.
“Pelo que ouvimos, é fácil para crianças com tuberculose e HIV serem tratadas em hospitais públicos sul-africanos”, disse Josphat Dakamela, idoso de uma aldeia em Plumtree. “O que podemos fazer? Todos sabem que não há remédios no país (Zimbábue), por isso o que acontece não é surpresa”, afirmou. Apesar de tudo isto, as autoridades continuam afirmando que as infecções por HIV diminuem neste empobrecido país da África austral.
O governo zimbabuense oferece tratamento antirretroviral, mas não é fácil ter acesso a ele, já que os pacientes devem passar por rigorosa seleção antes de entrarem para a lista de beneficiários. Segundo informe da Organização das Nações Unidas, entre as cerca de 160 mil crianças com HIV no Zimbábue, apenas uma em cada 16 tem acesso aos antirretrovirais, que podem prolongar suas vidas.
Ativistas locais dizem que muitos zimbabuenses que trabalham em países vizinhos se negam a buscar treinamento ali porque, por não terem documentos, temem ser deportados. Mas a situação é diferente para as crianças. Os governos de Botsuana e da África do Sul têm iniciativas para dar atenção médica a todos os menores de idade, dentro de seus esforços com vistas a cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. “Muitos sabem que o tratamento para crianças nos países onde se instalaram é gratuito, e aproveitam isto para enviar os filhos doentes”, afirmou Khumbulani. Estes pais são ajudados por traficantes que durante anos exploraram os porosos limites fronteiriços para levar zimbabuense à África do Sul.
“Levar pessoas através da fronteira nunca foi um problema, mas levar crianças de até seis anos para a África do Sul para receber tratamento é algo novo”, disse Mongameli Sibanda, que faz transporte de emigrantes. Ele contou que algumas das crianças que leva têm visíveis problemas de saúde. Isto o obriga a agir com maior urgência. Agora, seu trabalho pode ser de vida ou morte. “É triste quando temos crianças buscando tratamento fora do país. Estas coisas deveriam ser feitas aqui”, no Zimbábue, lamentou.
Trabalhadores da saúde zimbabuenses queixam-se que muitos pais adiam o tratamento para seus filhos com HIV. Mas isto está mudando lentamente em algumas áreas rurais. “Não podemos cruzar os braços e ver como meninas e meninos morrem quando suas famílias tomam estas mais do que desesperadas alternativas. Continuaremos ajudando”, disse Khumbulani. Envolverde/IPS

