CHILE: A pobreza que a floresta não esconde

Santiago, Chile, 27/08/2010 – Comunidades do sul do Chile, onde prevalece a indústria florestal, apresentam quase o dobro de pobreza do que a média nacional, segundo estudo que utiliza dados da última Pesquisa de Caracterização Socioeconômica Nacional (Casen).

Troncos preparados para a indústria de celulose. - Mauricio Ramos/IPS

Troncos preparados para a indústria de celulose. - Mauricio Ramos/IPS

“A nosso ver, uma indústria madura como a florestal, que gera 26% de pobreza, é insustentável”, disse à IPS Eduardo Ramírez, principal pesquisador do não governamental Centro Latino-Americano de Desenvolvimento Rural (Rimisp), com escritórios na Bolívia, Nicarágua, Chile e Equador.

Para o pesquisador, esta situação pode explodir com “conflitos sociais nos territórios ou vulnerabilidade econômica”, pois os compradores internacionais de madeira e celulose chilenas são cada vez mais “sensíveis ao ambiente em volta das empresas das quais compram bens e serviços”. A indústria florestal, liderada pelas firmas chilenas Arauco e CMPC, é considerada um dos polos de desenvolvimento nacional, com exportações principalmente de polpa de celulose, além de papeis e papelões, paineis e chapas e madeira serrada, que este ano girará em torno dos US$ 4,6 bilhões, segundo estimativas do setor.

Partindo da base de que no sul do Chile são registrados os mais altos níveis de pobreza do país, o Rimisp comparou quatro “economias territoriais” que se desenvolveram em comunidades das regiões de Bíobío, La Araucanía, Los Ríos e Los Lagos, situados a mais de 500 quilômetros de Santiago. Essas quatro “economias territoriais” – florestal, pecuária, criação de salmão e turismo rural – resultaram do cruzamento de dados da pesquisa Casen 2009, do Censo Agropecuário de 2007, e da informação do Serviço Nacional de Turismo.

Em média, a pobreza abrange 26% dos habitantes das 34 comunidades de Bíobío e La Araucanía, com maior quantidade de plantações florestais, enquanto em nível nacional essa situação afeta 15,1%. As “comunidades florestais” também superam aquelas que se dedicam ao turismo rural, onde a pobreza alcança 21%, à criação de salmão, com 15%, e à pecuária, com 12%. Entre 2006 e 2009, a pobreza nas comunidades florestais caiu apenas 0,3%, segundo cálculo do Rimisp, em comparação com a redução de 2,1% nas 13 que se dedicam ao gado bovino em Los Ríos e Los Lagos, que conseguiram os melhores desempenhos das quatro economias.

Além disso, segundo o estudo, no “território florestal” a renda por pessoa era de 108.739 pesos (US$ 214) em novembro de 2009, enquanto a de um criador de salmão era de 162.999 pesos, do trabalhador com gado 148.552 e as comunidades dedicadas ao turismo rural de 120.884 pesos. Que fatores explicam esta situação?

Segundo Eduardo, “tanto estudos do Rimisp como a literatura disponível” coincidem em dois grandes temas: “baixa articulação das empresas florestais com seu entorno, porque se trata basicamente de explorações de recursos naturais sem maior valor agregado, e a necessidade de a indústria operar com economias de escala. Vão comprando e comprando terras e deslocando não apenas as demais economias, como também as famílias que vivem nesses lugares”.

Como outras organizações ecologistas e de defesa dos direitos humanos, Eduardo recordou que isto gera conflito com comunidades mapuches, a etnia indígena mais numerosa do país, com quase um milhão de integrantes, que exigem propriedade sobre territórios em poder das florestais.

Em seu site na Internet, a patronal Corporação Chilena da Madeira (Corma) afirma que 85% das exportações florestais são produtos de alto valor agregado. Estados Unidos, China e Japão são os mercados mais importantes. A Corma, cujos diretores não responderam as perguntas da IPS, reúne diversas empresas relacionadas com a atividade florestal.

Eduardo afirmou que os resultados do estudo “exigem políticas públicas mais coerentes com o que está acontecendo no setor”. Também, disse, “interpelam a indústria, porque é impensável que se continue da mesma forma que agora e, por isso, deve ser encontrada uma estratégia diferente”. O setor recebe, há mais de três décadas, subsídios estatais para reflorestamento, graças a um decreto de 1974 e que expirará em 2011. A Corma sugere que esta norma deve ser prorrogada porque calcula em cerca de três milhões os hectares ainda disponíveis, proposta rechaçada por organizações ecologistas e indígenas.

Precisamente, o governo do direitista Sebastián Piñera enviou ao parlamento, no dia 10 deste mês, um projeto para prorrogar o decreto por dois anos e ampliar os benefícios a pequenos produtores e indígenas, enquanto prepara uma nova Lei de Incentivo Florestal. “A pesquisa Casen mostra que as quatro regiões florestais são as que têm os mais altos níveis de pobreza e indigência do país, pois as empresas pagam salários muito baixos”, disse à IPS Sergio Gatica, porta-voz do Conselho Nacional Florestal.

Esta organização sindical, criada em 2007, que agrupa cerca de 15 mil trabalhadores das regiões de Maule, Bíobío, La Araucanía e Los Ríos, exige que as empresas paguem salários próximos de 250 mil pesos (US$ 495) porque atualmente ignoram o salário mínimo de 172 mil pesos. “Falamos de um setor altamente produtivo e exportador de matéria-prima, com uma grande quantidade de divisas que entram no país. O problema é que muitas empresas pagam mal”, criticou Sergio, que pede reuniões com parlamentares e autoridades para entregar as propostas dos trabalhadores organizados.

“Falamos de 130 mil empregos diretos e cerca de 300 mil indiretos. Uma importante quantidade de chilenos depende da atividade florestal, por isso é necessário todos darmos nossa contribuição para ajudar este a ser um setor moderno, justo, equitativo e que tenha desenvolvimento sustentável”, ressaltou o dirigente. O Chile, com 17 milhões de habitantes, dispõe de 15,9 milhões de hectares de cobertura florestal, cerca de 20% de sua superfície. Desse total, 85,4% correspondem a florestas nativas e 14,6% a plantações florestais, principalmente monoculturas estrangeiras de pinheiros e eucaliptos. Envolverde/IPS

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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