Santiago, Chile, 27/08/2010 – Comunidades do sul do Chile, onde prevalece a indústria florestal, apresentam quase o dobro de pobreza do que a média nacional, segundo estudo que utiliza dados da última Pesquisa de Caracterização Socioeconômica Nacional (Casen).
Para o pesquisador, esta situação pode explodir com “conflitos sociais nos territórios ou vulnerabilidade econômica”, pois os compradores internacionais de madeira e celulose chilenas são cada vez mais “sensíveis ao ambiente em volta das empresas das quais compram bens e serviços”. A indústria florestal, liderada pelas firmas chilenas Arauco e CMPC, é considerada um dos polos de desenvolvimento nacional, com exportações principalmente de polpa de celulose, além de papeis e papelões, paineis e chapas e madeira serrada, que este ano girará em torno dos US$ 4,6 bilhões, segundo estimativas do setor.
Partindo da base de que no sul do Chile são registrados os mais altos níveis de pobreza do país, o Rimisp comparou quatro “economias territoriais” que se desenvolveram em comunidades das regiões de Bíobío, La Araucanía, Los Ríos e Los Lagos, situados a mais de 500 quilômetros de Santiago. Essas quatro “economias territoriais” – florestal, pecuária, criação de salmão e turismo rural – resultaram do cruzamento de dados da pesquisa Casen 2009, do Censo Agropecuário de 2007, e da informação do Serviço Nacional de Turismo.
Em média, a pobreza abrange 26% dos habitantes das 34 comunidades de Bíobío e La Araucanía, com maior quantidade de plantações florestais, enquanto em nível nacional essa situação afeta 15,1%. As “comunidades florestais” também superam aquelas que se dedicam ao turismo rural, onde a pobreza alcança 21%, à criação de salmão, com 15%, e à pecuária, com 12%. Entre 2006 e 2009, a pobreza nas comunidades florestais caiu apenas 0,3%, segundo cálculo do Rimisp, em comparação com a redução de 2,1% nas 13 que se dedicam ao gado bovino em Los Ríos e Los Lagos, que conseguiram os melhores desempenhos das quatro economias.
Além disso, segundo o estudo, no “território florestal” a renda por pessoa era de 108.739 pesos (US$ 214) em novembro de 2009, enquanto a de um criador de salmão era de 162.999 pesos, do trabalhador com gado 148.552 e as comunidades dedicadas ao turismo rural de 120.884 pesos. Que fatores explicam esta situação?
Segundo Eduardo, “tanto estudos do Rimisp como a literatura disponível” coincidem em dois grandes temas: “baixa articulação das empresas florestais com seu entorno, porque se trata basicamente de explorações de recursos naturais sem maior valor agregado, e a necessidade de a indústria operar com economias de escala. Vão comprando e comprando terras e deslocando não apenas as demais economias, como também as famílias que vivem nesses lugares”.
Como outras organizações ecologistas e de defesa dos direitos humanos, Eduardo recordou que isto gera conflito com comunidades mapuches, a etnia indígena mais numerosa do país, com quase um milhão de integrantes, que exigem propriedade sobre territórios em poder das florestais.
Em seu site na Internet, a patronal Corporação Chilena da Madeira (Corma) afirma que 85% das exportações florestais são produtos de alto valor agregado. Estados Unidos, China e Japão são os mercados mais importantes. A Corma, cujos diretores não responderam as perguntas da IPS, reúne diversas empresas relacionadas com a atividade florestal.
Eduardo afirmou que os resultados do estudo “exigem políticas públicas mais coerentes com o que está acontecendo no setor”. Também, disse, “interpelam a indústria, porque é impensável que se continue da mesma forma que agora e, por isso, deve ser encontrada uma estratégia diferente”. O setor recebe, há mais de três décadas, subsídios estatais para reflorestamento, graças a um decreto de 1974 e que expirará em 2011. A Corma sugere que esta norma deve ser prorrogada porque calcula em cerca de três milhões os hectares ainda disponíveis, proposta rechaçada por organizações ecologistas e indígenas.
Precisamente, o governo do direitista Sebastián Piñera enviou ao parlamento, no dia 10 deste mês, um projeto para prorrogar o decreto por dois anos e ampliar os benefícios a pequenos produtores e indígenas, enquanto prepara uma nova Lei de Incentivo Florestal. “A pesquisa Casen mostra que as quatro regiões florestais são as que têm os mais altos níveis de pobreza e indigência do país, pois as empresas pagam salários muito baixos”, disse à IPS Sergio Gatica, porta-voz do Conselho Nacional Florestal.
Esta organização sindical, criada em 2007, que agrupa cerca de 15 mil trabalhadores das regiões de Maule, Bíobío, La Araucanía e Los Ríos, exige que as empresas paguem salários próximos de 250 mil pesos (US$ 495) porque atualmente ignoram o salário mínimo de 172 mil pesos. “Falamos de um setor altamente produtivo e exportador de matéria-prima, com uma grande quantidade de divisas que entram no país. O problema é que muitas empresas pagam mal”, criticou Sergio, que pede reuniões com parlamentares e autoridades para entregar as propostas dos trabalhadores organizados.
“Falamos de 130 mil empregos diretos e cerca de 300 mil indiretos. Uma importante quantidade de chilenos depende da atividade florestal, por isso é necessário todos darmos nossa contribuição para ajudar este a ser um setor moderno, justo, equitativo e que tenha desenvolvimento sustentável”, ressaltou o dirigente. O Chile, com 17 milhões de habitantes, dispõe de 15,9 milhões de hectares de cobertura florestal, cerca de 20% de sua superfície. Desse total, 85,4% correspondem a florestas nativas e 14,6% a plantações florestais, principalmente monoculturas estrangeiras de pinheiros e eucaliptos. Envolverde/IPS


