Tegucigalpa, Honduras, 13/10/2010 – Conscientes das carências do sistema público de saúde de Honduras e da alta vulnerabilidade da população mais pobre do país, mulheres que ganharam a luta contra o câncer de mama transmitem suas vivências e seus conhecimentos para salvar mais vidas. “Todas somos sobreviventes desta doença e decidimos nos organizar para ajudar outras pessoas de poucos recursos. Imagine que, por não terem 300 lempiras (US$ 16), não podem fazer um exame e podem morrer por isso”, disse à IPS Ingrid Castellanos, presidente da Fundação Hondurenha contra o Câncer de Mama. Trata-se de uma organização da sociedade civil que há três anos realiza campanhas educativas, fóruns e caminhadas para chamar a atenção e sensibilizar a população sobre esta enfermidade. “Nos hospitais públicos, por suas limitações em orçamento e vagas, alguns pacientes com câncer de mama têm o tratamento marcado somente para dentro de cinco ou seis meses, um tempo muito valioso, e poderá ser muito tarde para elas”, disse Ingrid, que há quatro anos teve a doença detectada e submeteu-se a um doloroso tratamento durante um ano para poder se curar.
A principal causa da grave situação sanitária neste país, reconhecida em particular pelas autoridades, é a falta de dinheiro e pessoal tanto nos hospitais ligados ao Ministério da Saúde quanto do Instituto Hondurenho de Assistência Social. Uma das maiores carências é a falta de medicamentos. Há cinco anos, o Ministério, que atende apenas 50% da população, iniciou um registro mais detalhado dos casos de câncer de mama em homens e mulheres neste país centro-americano de quase oito milhões de habitantes, dos quais mais de 60% vivem em situação de pobreza.
O de mama é o segundo tipo de câncer mais mortal entre mulheres hondurenhas, depois do cérvico-uterino, que apresenta cerca de 1.600 casos ao ano. Entre 2005 e 2009, foram detectados 666 casos de câncer de mama em homens e 2.483 em mulheres. Para a doutora Xioleth Rodríguez, do Programa Nacional do Câncer, do Ministério da Saúde, estes dados “ainda são sub-registros”. “Estamos realizando um censo mais apurado que inclua toda a rede hospitalar do país, pois os números mais recentes que temos são do Hospital San Felipe”, o centro público que mais casos de câncer atende no país, afirmou.
Os departamentos com maior número de diagnósticos dessa doença são Francisco Morazán, onde fica Tegucigalpa, Comayagua, Choluteca, e também começam a ser registrados casos em Olancho. Xioleth disse à IPS que a faixa etária com maior incidência da enfermidade vai dos 40 aos 69 anos, mas há registros de jovens entre 17 e 24 anos. “Isso nos preocupa e obriga a dar mais atenção a este avanço da doença”, ressaltou.
Hermelinda Villela é outra sobrevivente do câncer de mama. Ela contou à IPS que diariamente atendem na Fundação entre três a cinco pessoas, muitas procedentes de bairros da periferia, como Nueva Suyapa, Villanueva, Nueva Capital, Israel Norte, Campo Cielo, entre outros. Inclusive, “detectamos casos em homens menores de 18 anos. Um deles nós perdemos porque não quis fazer um exame, mas estamos procurando por ele e o encontraremos. Imagine, pode morrer se não se tratar a tempo”, declarou.
Hermelinda, de 65 anos, teve o câncer detectado há 20 anos e, se agora goza da presença dos filhos e netos, a maior parte do tempo passa orientando nos bairros pobres da cidade e nas escolas. A Fundação opera modestamente. Uma clínica preventiva com dois médicos voluntários, duas psicólogas e uma assistente. É mantida graças a contribuições voluntárias de empresas e pessoas, além de artesanatos, rifas e outras atividades que seus membros realizam. Localizada diante do lotado centro de saúde Luis Alonso Suazo, na capital, esta organização permite a pessoas de todas as idades se informar sobre a gravidade da doença, e ajuda os mais necessitados a conseguir de graça uma mamografia, bem como tratamento médico.
Lia Bueso de Castellanos, especialista em mastologia e colaboradora da Fundação, possui uma clínica particular onde faz para a organização exames de mamografia e também presta outros serviços médicos. Ela foi a médica de todas as voluntárias sobreviventes de câncer que hoje tentam orientar sobre a prevenção. A médica disse à IPS que o manejo do câncer de mama deve ser multidisciplinar porque em cada dez tumores detectados nos seios, oito são benignos, mas “dois são malignos e esses devem ser atacados”.
Lia explicou que o câncer de mama é um tumor maligno formado pela divisão anormal e descontrolada das células que compõem as glândulas mamárias. Este tumor se propaga para os tecidos vizinhos e os afeta. Ela recomenda que a mulher, após seu período menstrual, realize um autoexame e, se detectar um nódulo nos seios, consulte um médico. Para as maiores de 40 anos recomenda a realização de mamografia uma vez por ano, a qual consiste na exploração diagnóstica de imagem por raio X, que detecta a doença antes que seja suficientemente grande para ser descoberta pelo tato.
As causas do câncer vão desde fatores genéticos até obesidade. Seus efeitos psicológicos têm várias etapas, da negação à raiva, até chegar à aceitação do diagnóstico. Além disso, afeta todo o ambiente familiar, afirmam especialistas. Envolverde/IPS

