Keti Bunder, Paquistão, 25/10/2010 – As inundações de julho no Paquistão preocuparam e afetaram muitas pessoas, mas os indígenas das marismas – áreas pantanosas – do delta do Rio Indo tiveram uma reação totalmente diferente.
Auyb vive com sua família enorme em Trippin, pequena aldeia nas marismas do riacho Hajamro, onde o Indo, de 3.200 quilômetros de comprimento, desemboca no Mar Arábico. A aldeia desta província de Sindh, onde vivem 50 pessoas, tem uma grande faixa de terra que permanece árida. Após as chuvas torrenciais do final de julho, um quinto do Paquistão ficou sob a água e 18 milhões de pessoas sofreram as consequências das inundações. O governo se esforça para ajudar as centenas de milhares de pessoas que continuam sem teto.
O país tem 15% de indígenas em uma população de 126 milhões de habitantes. As comunidades aborígines estão entre as mais marginalizadas e excluídas da sociedade, mas nesta região a situação é totalmente diferente. “Finalmente, Deus nos ouviu”, disse Ismail Janyaro, morador de Trippin, sorrindo para os visitantes com seu rosto marcado por rugas e apontando as terras secas que o rodeiam. “Há uma década esperamos esta invasão de água doce”, acrescentou.
“Não há dúvida de que as inundações fizeram muita gente sofrer”, afirmou Tahir Qureshi, assessor do programa marinho e costeiro da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). “No entanto, como ambientalista, penso que é uma bênção disfarçada”, afirmou. A agricultura e a pesca ribeirinha decolarão, acrescentou. “A recarga do lençol freático na zona costeira impedirá que o mar avance”, concordou Bakhshal Lashari, diretor do Instituto de Irrigação e Drenagem da Universidade Mehran de Engenharia, em Jamshoro. As inundações melhorarão a situação do delta durante dois ou três anos, acrescentou.
Segundo o pescador Mohammad Hassan Jaskehli, se o rio regasse a região de forma permanente, o Paquistão nunca mais teria de importar grãos. O delta do Indo, que concentra um dos maiores mangues do mundo, abrange 600 mil hectares na zona costeira da província de Sindh. Tem 17 riachos grandes e muitos mais de menor porte, bem como marismas. A área foi declarada sítio Ramsar, nome pelo qual se conhece a Convenção relativa aos mangues de importância internacional, especialmente como hábitat de aves aquáticas, e tem uma reserva de vida silvestre.
Os mangues ocupavam uma área de 26 mil quilômetros quadrados, segundo o Ministério do Meio Ambiente. Causas naturais e atividades humanas reduziram a entrada de água, deixando apenas 2.600 quilômetros quadrados. “O delta costumava ser muito fértil e exuberante”, recordou Ismail, de 74 anos. “Havia vários hectares com plantações de banana, de arroz vermelho, oliveiras e coqueiros”. Nessa época também chegavam ao delta aves migratórias em grande quantidade, disse o jornalista Iqbal Jwaja. A degradação dos mangues, a menor entrada de água doce e as mudanças climáticas perturbaram a reprodução de pássaros que, de fato, mudaram por completo sua rota.
“A deteriorada ecologia reviveu”, afirmou Mohammad Ali Shah, diretor do não governamental Fórum de Pescadores do Paquistão. “A partir do início dos anos 1990 começou a chegar um fiozinho de água, ou, às vezes, nem isso. O dilúvio encheu o aquífero e repôs a população de peixes”, acrescentou. “Porém, o que realmente é necessário é uma entrada constante de água doce”, alertou. Para controlar o avanço do mar, é preciso garantir um mínimo de água doce de forma contínua, concordou o engenheiro Bakhshal.
Obras de irrigação e represas foram esgotando o Indo, reduziram o caudal que desembocava no mar Arabico, o que facilitou o avanço do mar. “Quando a água doce se junta com a salgada, nutre-se o delta”, disse Auyb. “A água das inundações trouxe grandes quantidades de sedimentos com ricos nutrientes”, explicou Bakhshal. “O lodo não só faz o mar retroceder, como aumenta a fertilidade do solo, muito importante para os organismos marinhos”, acrescentou. Envolverde/IPS


