Porto Príncipe, Haiti, 26/10/2010 – Foram confirmados cinco casos de cólera na capital do Haiti, após o foco registrado na zona rural do departamento de Artibonito, que deixou mais de 200 mortos. Os casos detectados na capital “não significam uma propagação da epidemia” porque estas pessoas foram infectadas no centro do Haiti, segundo boletim divulgado pela missão da Organização das Nações Unidas com o título “Mensagem Importante”, à qual a IPS teve acesso. “A identificação de novos casos e a rápida resposta mostra que funciona o sistema de registro que implementamos”, conclui o informe.
Contudo, a população da capital não está tão convencida. “As pessoas morrem, claro que tenho medo”, disse Boudou Lunis ao jornal Miami Herald. O rapaz, de 25 anos, é uma das 1,3 milhão de pessoas que perderam suas casas no terremoto que atingiu o Haiti em janeiro e continuam vivendo em assentamentos provisórios. A Rádio Boukman fica no meio de Cité Soleil, um assentamento cortado por canais entupidos de lixo e onde um foco de cólera faria estragos.
A emissora não recebeu nenhum comunicado oficial das autoridades com recomendações, disse à IPS o produtor Edwine Adrien, no dia 23, quatro dias após ser divulgada a existência de casos de cólera. Em um pequeno acampamento desolado, com barracas de campanha rasgadas, tem um reluzente tanque de água vazio apoiado sobre tijolos. Foi instalado há uma semana pela Organização Internacional para as Migrações, mais de nove meses depois que os residentes perderam suas casas para o terremoto. “Precisamos de água potável”, protestou o jovem à IPS.
A propagação do cólera, doença bacteriana transmitida através de água e alimentos contaminados, pode expandir-se para além da capital haitiana. Há suspeitas da existência de casos nos departamentos Norte e Sul, segundo a Organização Pan-Americana de Saúde. Estima-se que pelo menos 2.600 pessoas podem ter contraído a enfermidade. O médico Pierre Duval contou como estabilizou dois homens no único hospital do povoado de Lafiteau, a 30 minutos de carro de Porto Principe. Mas não conseguiu atender mais de seis pacientes. Um morreu no dia 23.
Todos chegaram de St. Marc, perto do epicentro da epidemia. O principal hospital da localidade está lotado de pessoas contaminadas. Havia poucas reservas de sais para reidratação oral, disse à IPS o médico norte-americano Riaan Roberts, que chegou ao lugar dia 22. “Primeiro falamos com uma senhora da ONU que nos disse ‘tenho uma reunião, falarei com vocês, mas voltem amanhã”, contou. Por outro lado, uma equipe da organização Médicos Sem Fronteiras se pôs a serviço.
A ONU “tem tanta burocracia que não é efetiva para atender pequenos focos como este, que se agravam e se propagam com rapidez”, disse Riaan. Na poeirenta estrada que vai do centro do Haiti até Porto Príncipe, ônibus e tap-taps, nome dado no país ao transporte coletivo de passageiros, circulam a toda velocidade. Na reunião realizada pelo Ministério de Água e Saneamento, “falou-se em fechar escolas e estradas”, disse Nick Prenata, subdiretor da SOIL, uma organização que instala banheiros químicos em acampamentos de refugiados. “Estão falando disso agora, muito tempo depois de detectado o primeiro caso, já é tarde”, lamentou.
A bactéria do cólera pode causar diarreia mortal e vômitos após cinco dias de incubação. Pessoas que parecem sãs podem viajar e infectar outras. A organização Sócios na Saúde chama o cólera de “doença da pobreza”, por ser causada pela falta de água potável. A origem da epidemia se localiza no Rio Artibonito, que percorre o centro do Haiti, e nas fortes chuvas e conseguintes inundações. A área é conhecida como “celeiro”, por seus cultivos de arroz. A economia agrícola foi devastada porque durante anos os Estados Unidos importaram arroz haitiano a preço muito baixo, segundo especialistas. Envolverde/IPS

