Turim, Itália, 26/10/2010 – Para que a nova política agrícola da União Europeia (UE) seja justa com os contribuintes, deverá “levar em conta a produção alimentar sustentável”, disse à IPS o comissário europeu de Agricultura, Dacian Ciolos, que apoia o movimento Slow Food (contraponto do fast food).
“Este modelo de agricultura é marginalizado porque é dada muita ênfase na produção alimentar industrial. Mas agora devemos mudar a maneira como produzimos alimentos, devemos prestar mais atenção ao uso dos recursos naturais”, afirmou Dacian, que trabalha para que a Política Agrícola Comum da UE entre em vigor em 2013.
“A nova política incluirá instrumentos financeiros simples, que não existiam antes, para apoiar os pequenos estabelecimentos agrícolas, ferramentas para ajudar os agricultores a promoverem seus produtos locais e apoiar a criação de mercados e feiras onde os pequenos produtores possam vender diretamente aos consumidores”, explicou Dacian. O movimento Slow Food se torna cada vez mais popular entre os progressistas do Norte industrializado que buscam respostas para as crises econômica e ambiental.
O Slow Food International, que lidera a campanha para promover este tipo de alimento, foi criado em 1989 pelo italiano Carlo Petrini, como uma organização ecogastronômica sem fins lucrativos para se contrapor ao fast food e ao desaparecimento das tradições alimentares locais. O grupo busca sensibilizar a população a propósito do impacto de suas opções de consumo. Agora é considerado um movimento, e está associado com a Via Camponesa, rede com mais de 150 milhões de membros em todo o mundo que trabalham pela soberania alimentar.
Desde 2004, os agricultores do Slow Food e os que apoiam a produção sustentável de alimentos em todo o planeta organizam a cada dois anos as reuniões Terra Madre em Turim. Cerca de cinco mil pessoas participaram do encontro este ano. Os pequenos agricultores que exibiram seus produtos no Salone del Gusto, uma feira instalada no contexto do encontro, buscam conseguir um espaço cada vez maior em um mercado dominado por alimentos produzidos industrialmente.
“Nosso objetivo é a sustentabilidade, não apenas econômica, mas também ambiental e cultural”, disse Elías Alvarado, da cooperativa Kallari, de produção de chocolate, na Amazônia equatoriana. “Uma longa cadeia de intermediários entre nós e os consumidores deixa os preços muito mais caros para eles e o lucro muito pequeno para nós. Pretendemos chegar diretamente ao consumidor primário”, acrescentou.
“Há uma grande necessidade de serem realizadas feiras regionais semanalmente, por exemplo”, disse Eric Fernández Cortez, produtor de mescal em Oaxaca, no México. “São produzidos muitos dejetos e muito dinheiro é gasto simplesmente com o transporte dos produtos. Os clientes pagariam menos se pudessem comprar alimentos produzidos localmente”, acrescentou.
Os agricultores do Slow Food usam técnicas de produção tradicional, com baixo impacto ambiental, para produzir alimentos saudáveis. A qualidade de seus produtos é melhor do que a dos alimentos produzidos em massa, mas têm uma posição marginal nos mercados mundiais. Os alimentos industriais têm preços artificialmente baixos por conceito de produção em massa e subsídios que os governos pagam a grandes produtores.
As grandes distâncias até os mercados e os complicados procedimentos de certificação exigidos pelas autoridades também elevam os preços dos produtos Slow Food. “Se não devolvermos o valor dos alimentos, não sairemos desta crise mundial”, afirmou Carlo Petrini na abertura da Terra Madre. “É uma loucura pagar tão pouco pelos alimentos e depois jogá-los fora. Os preços baixos que não compensam aos agricultores não são um sinal de civilização”, disse. “Os camponeses são os maiores intelectuais sobre a Terra. O futuro pertence a eles”, acrescentou.
O escritor e ativista Raj Patel disse na reunião Terra Madre que a soberania alimentar, tal como é promovida pelo Slow Food e pela Via Camponesa, é o principal meio disponível para que a sociedade combata os excessos do capitalismo de um modo construtivo. “Para que nosso movimento tenha sucesso, precisamos nos organizar e formar alianças com outros movimentos, e precisamos de uma visão”, afirmou.
Isto pode significar medidas mais fortes no Norte industrializado para um “decréscimo” que vise a uma sociedade de “simplicidade voluntária”. Serge Latouche, idealizador do decrescimento, afirmou que o Norte deveria renunciar ao crescimento econômico para permitir uma justiça social mundial, acrescentando que essa aposta está essencialmente vinculada ao Slow Food. Envolverde/IPS


