Bulawayo, Zimbábue, 27/10/2010 – A crescente deserção de alunas de escolas secundárias por causa de gravidez reavivou o debate no Zimbábue sobre as relações sexuais com homens adultos e outra de suas consequências: os contágios pela aids. Embora não estejam disponíveis dados precisos sobre a quantidade de jovens que abandonam os estudos por este motivo, ativistas pelos direitos infantis e especialistas em educação afirmam que os problemas que levam à gravidez precoce, entre eles a violência sexual, estão amplamente sem serem abordados.
O sexo intergerações – entre moças em idade escolar e homens mais velhos – é apontado como um fator fundamental. “Todos sabem que as moças saem com homens muito mais velhos porque querem dinheiro e telefone celular, já que muitos de nossos pais não podem comprar essas coisas”, disse à IPS Tatenda Hlatshwayo, uma estudante da cidade de Bulawayo.
“Apesar de sabermos o que aconteceu com outras moças que ficaram grávidas e foram abandonadas, fazemos como elas, não porque somos bobas, mas porque também queremos essas coisas”, afirmou Tatenda.
Teresa Chigovera, da organização não governamental Childline, disse que apesar de manter relações sexuais com uma moça menor de 16 anos ser crime no Zimbábue, o que dificulta ajudar as vítimas é que as famílias aceitam as propostas de casamento feitas pelos homens.
“Embora algumas famílias nos informem, e à polícia, sobre esses homens, logo retiram as acusações, dizendo que esse homem muito mais velho fez acordos para se casar com a estudante grávida ou para pagar o que for preciso” durante a gestação, disse Teresa. “Mas sabemos que os homens desaparecem assim que termina a ameaça de prisão”, acrescentou.
A última Pesquisa Nacional Demográfica e Sanitária do Zimbábue, publicada em 2007, identifica o sexo entre gerações como um dos principais fatores de risco de contágio do HIV (vírus da deficiência imunológica humana, causador da aids) para as mulheres jovens.
Dados da Organização Mundial da Saúde e do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids (Onusida) de 2008, a prevalência do vírus nas mulheres com idades entre 15 e 24 anos é de 7,7%, enquanto para os homens nessa mesma faixa etária é de apenas 2,9%.
A preocupação pela alta proporção de infecções por HIV e gravidez também apresenta dúvidas sobre a efetividade da educação sexual nas escolas. “A educação sexual não deve estar criando consciência se ainda estamos falando sobre como enfrentar a gravidez das estudantes”, disse Abigail Dube, diretora da Escola Secundária de Nkulumane.
Thomas Ntini, cujos filhos cursam o ensino secundário, acredita que os programas educativos estão falhando com os alunos. Quando o Ministério da Educação “introduziu pela primeira vez a educação sexual, muitos pais queixaram-se de que servia apenas para corromper nossa juventude. Agora as estudantes estão se lançando ao sexo e engravidando, e ainda não sabemos se deixamos que voltem à escola para estudar com os demais alunos, sendo mães”, disse Thomas.
“Mas onde estão os homens que abusam de nossas filhas? Desaparecem e voltam a fazer o mesmo em outro lugar, e os pais devem ficar contentes se sua filha não foi afetada”, afirmou Thomas. Envolverde/IPS

