BRASIL: Eleitorado do PT desperta para garantir vitória

Rio de Janeiro, Brasil, 27/10/2010 – Os dois candidatos à Presidência do Brasil no segundo turno do dia 31 disputam voto a voto a atenção do eleitor, e, por isso, o Partido dos Trabalhadores (PT) mobiliza nas ruas sua base eleitoral, adormecida após oito anos no poder.

Eleitores se mobilizam por Dilma Rousseff no final da campanha. - Dilma13

Eleitores se mobilizam por Dilma Rousseff no final da campanha. - Dilma13

Com o aconselhado cuidado de reduzir a presença da cor vermelha, distintivo dos atos partidários durante a campanha, os petistas que em 2002 levaram Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência deixaram suas cadeiras para dar força a sua candidata, Dilma Rousseff.

Analistas asseguram que os militantes e os eleitores do PT reagiram diante da necessidade de garantir a continuidade das conquistas dos oitos anos de governo Lula, como o crescimento econômico, a inclusão social e o papel protagonista e soberano do país no cenário internacional. São eleitores que não necessariamente votaram em Dilma no primeiro turno ou se identificam com a esquerda brasileira, mas que agora “unem forças” para impedir o triunfo do PSDB e de seu candidato, José Serra, cuja eventual vitória veem como “um retrocesso” político.

Sucedem-se as mobilizações de apoio a Dilma que misturam cultura e política. A última de grande alcance aconteceu no dia 24, na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, onde os organizadores apelaram para um dos maiores símbolos populares do Brasil, o carnaval. O Bloco da Dilma desfilou com sua bateria para apoiar a candidata, que teve 47% dos votos no primeiro turno e que as pesquisas indicam estar com 50% das intenções de voto, contra 40% para Serra, que teve 31% da votação do dia 3.

“Sou a porta-bandeira da Dilma”, disse orgulhosa à IPS Maria Helena, da Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense, uma das mais tradicionais do Rio de Janeiro. “É a primeira vez que vejo alguém que se preocupa com os pobres”, acrescentou a respeito do presidente Lula, que após dois mandatos consecutivos deixará o cargo em 1º de janeiro e hoje tem 80% de popularidade.

“Com Lula, o povo brasileiros, os mais pobres, tiveram oportunidades únicas. Realmente, houve distribuição de renda”, disse outra mulher que se identificou como professora Sonia e fazia parte das centenas de manifestantes que seguiam entusiasmados a bateria da escola. Esta inédita “escola de samba” foi encabeçada por um abre-alas de reconhecidas figuras políticas do PT, como o reeleito deputado estadual e ex-ministro do Meio Ambiente de Lula, Carlos Minc. Sem deixar de dançar ao ritmo dos ritmistas, Minc disse que apoia a candidata do PT porque ela é quem pode carregar uma “bandeira verde” na defesa do meio ambiente brasileiro.

O sociólogo Emir Sader coordenou em um teatro carioca outro dos inumeráveis atos organizados pelo PT para mobilizar seus eleitores tradicionais, que se multiplicaram desde que as pesquisas mostraram uma aproximação entre os candidatos, o que gera insegurança sobre uma vitória de Dilma, que era dada como certa. Figuras do PT e do mundo intelectual, religioso e artístico do país uniram-se no palco para apoiar Dilma. Precisamos de um “país que priorize a educação, a cultura, a sustentabilidade, a erradicação da miséria e da desigualdade social, e que preserve sua dignidade reconquistada”, disseram os participantes.

O protagonista que recebeu os maiores aplausos em um teatro lotado foi Chico Buarque, que liderou as demonstrações de apoio a Dilma, sentada ao seu lado junto a outros mitos da esquerda brasileira, como o centenário arquiteto Oscar Niemeyer. “Lula não falou baixinho com os Estados Unidos e não falou alto com a Bolívia e o Paraguai”, disse o compositor ao destacar a necessidade de prosseguir essa política externa. O teólogo Leonardo Boff, que lidera um grupo religioso de apoio à candidatura de Dilma, destacou a “revolução sem violência” realizada por Lula para atender em “grande parte” as necessidades dos mais pobres.

“As classes dominantes não suportam que um filho da pobreza, sobrevivente das atribulações brasileiras, que vem de baixo, chegue a ser presidente”, disse Boff a um público que respondeu agitando bandeiras e gritando lemas políticos. “Para eles, um operário como Lula deve estar na fábrica produzindo para eles. A Presidência é um lugar reservado para eles”, reforçou ao referir-se ao eleitorado e ao setor social que Serra representa.

Outro protagonista das lutas sociais brasileiras, que cimentaram as bases do PT, esteve presente no ato: o dirigente o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile. “Nossa posição não é única”, disse à IPS. “É uma posição coletiva debatida com os principais movimentos sociais do país e isso não nos tira o direito de criticar as políticas ruins do governo Lula, mantendo nossa saudável autonomia”, afirmou. Junto a outras organizações camponesas, estudantis, sindicais e de mulheres, o MST decidiu “ir à luta para apoiar Dilma”, para que não vença a “proposta liberal e fascista” de Serra.

Apesar das reservas quanto ao governo de Lula por temas como a reforma agrária, o manifesto das organizações sociais diz ter, pelo menos, uma certeza. Afirmam essas entidades que José Serra representaria um “retrocesso para os movimentos sociais e populares, para as conquistas democráticas em nosso continente, e uma maior subordinação ao império dos Estados Unidos”. Outro grupo religioso, formado por laicos, pastores, sacerdotes e bispos de igrejas evangélicas e católicas, saiu dos templos para apoiar a candidata do PT. Explicaram que reagiam à “ofensiva conservadora” que identifica Dilma como defensora do aborto, embora ela nunca tenha se pronunciado nesse sentido.

“Sabemos que há pessoas que se dizem religiosas e cometem atrocidades contra crianças. Por isso, ter um candidato religioso não necessariamente é um parâmetro para ter um governante justo”, diz o manifesto pastoral. A reação conservadora de grupos religiosos foi, segundo o analista Ricardo Ismael, da Pontifícia Universidade Católica, um dos motivos que impediu a vitória de Dilma no primeiro turno. Porém, Ricardo mencionou outros fatores, como as denúncias de corrupção contra colaboradores próximos de Dilma e ao crescimento da candidata Marina Silva, que obteve quase 20% dos votos no dia 3. O Brasil chega à reta final da campanha com um cenário “muito disputado e emocionante”, que ficará claro somente nas urnas, afirmou. Envolverde/IPS

Fabiana Frayssinet

Fabiana Frayssinet nació en Buenos Aires, Argentina. Ha colaborado con IPS desde 1996, abordando con reportajes y crónicas la realidad brasileña. Se desempeña como corresponsal extranjera desde 1989, primero desde América Central y luego desde Brasil, donde se instaló en 1996, colaborando con medios internacionales de radio, televisión y prensa: CNN en Español, Univisión, Telefé de Argentina y los servicios latinoamericanos de Radio Suecia y de Radio Nederland.

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