Incheon, Coréia do Sul, 01/11/2010 – O destino quis que enquanto ministros asiáticos discutiam uma estratégia para reduzir os riscos de desastres naturais, a Indonésia fosse sacudida por uma dupla tragédia: um tsunami causado por um terremoto de 7,7 graus na escala Richter e a erupção do vulcão Merapi, o mais ativo do país. Entretanto, o subdiretor de preparação e prevenção da Agência Nacional de Gestão de Desastres da Indonésia, Sugeng Triutomo, está otimista quanto ao “espírito” do país não se romper, segundo disse à imprensa durante a Quarta Conferência Ministerial sobre Redução do Risco de Desastres, realizada nesta cidade sul-coreana na semana passada.
“Estes desastres não devem deter o desenvolvimento de nosso país”, disse Sugeng. “Devem nos fortalecer e nos fazer resilientes a futuras desgraças”, acrescentou. A imprensa local denunciou falhas no sistema de alerta das Ilhas Mentawai, onde ondas de três metros de altura deixaram mais de 400 mortos, desaparecidos ou sem teto. As medidas de prevenção são as que evitam uma grande quantidade de vítimas e sobre isso se concentrou a Conferência.
Os ministros aprovaram um mapa do caminho para em cinco anos criar sistemas de gestão de desastres em níveis local, nacional e regional. O mapa do caminho, conhecido como Infeon Remap, concentra-se em três temas: conscientizar e criar capacidades nas comunidades sobre o assunto, compartilhar dados mediante novas tecnologias e práticas sobre gestão de desastre para que as autoridades manejem informação pertinente e contemplar no desenho de políticas de desenvolvimento sustentável os riscos existentes e a adaptação à mudança climática.
“É a primeira vez que os governos da região reconhecem que reduzir as consequências de fenômenos climáticos é uma ferramenta importante de adaptação às mudanças ambientais e adotam um enfoque comum para reduzir os danos”, disse Margareta Wahlström, representante especial da Oragnização das Nações Unidas (ONU) para Redução do Risco de Desastres.
“O Remap pode se converter em uma pauta efetiva para lidar com episódios climáticos para todos os países da região e fora dela”, disse Park Yeon-soo, administradora da Agência Nacional de Gestão de Emergência da Coréia do Sul. “É o continente mais vulnerável. Mas é difícil ter acordos de cooperação por diferenças em matéria de gestão de desastres e de recursos técnicos”, acrescentou. “Os avanços nesta região terão um grande impacto em outras partes do mundo”, disse Margareta.
“Temos um futuro comum”, afirmou o primeiro-ministro do Butão, Jigmi Y Thinley. “Na COP 15 não se viu uma comunidade civilizada porque nos metemos em um jogo de culpa e discutimos quem tem de pagar e como dividir o dinheiro invisível”, acrescentou em referência a 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, realizada no final de 2009 em Copenhague. “O fracasso da COP 15 mostra nossa obstinação em não deixar de lado o delírio de que os ricos, os menos ricos e os pobres podem viver separados nesta aldeia que chamamos Terra”, acrescentou.
O aumento da frequência e a magnitude dos desastres mostram um planeta que cambaleia sobre a dor do abuso humano, afirmou Jigmi, que pediu a adoção de um novo estilo de vida, responsável e sustentável, do contrário diminuirá a capacidade da natureza de manter a própria vida, o que levará à extinção da humanidade e de outras espécies. “Nunca é bom limitar nossas ações aos sintomas de problema profundo. Nossos esforços de mitigação e adaptação acabaram sendo inúteis e teremos de nos preparar para desastres maiores”, alertou.
“Certos fenômenos climáticos atuais são consequência do ‘crescimento econômico’”, afirmou Jerry Velásquez, coordenador para Ásia-Pacífico da Estratégia Internacional de Redução de Desastres (ISDR) da ONU. Jerry explicou que devem ser chamados de “desastres causados por riscos naturais, porque já não são apenas desastres naturais”. O ISDR e a Comissão Social e Econômica Ásia-Pacífico aproveitou a conferência de Incheon para divulgar o Informe de Desastres Ásia-Pacífico 2010.
A população dessa região tem quatro vezes mais possibilidades de sofrer desastres naturais do que a da África e 25 vezes mais do que a da Europa e da América do Norte, diz o documento. Os desastres naturais foram responsáveis por 85% das mortes de pessoas neste continente e por 38% das perdas econômicas entre 1980 e 2009.
“É claro que a região não poderá alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio se os êxitos alcançados não forem protegidos do risco e das consequências dos fenômenos climáticos”, diz a declaração conjunta de Margareta e Noeleen Hayzer, subsecretária-geral da ONU e diretora-executiva da Comissão Social e Econômica da Ásia-Pacífico. O ISDR pediu aos governantes asiáticos que “invistam” na redução do risco de desastres, pois, segundo suas estimativas, para cada dólar destinado à prevenção serão economizados outros quatro e mais sete na assistência pós-desastre. Envolverde/IPS

