A educação pode mudar a Palestina

Gaza, Palestina, 03/11/2010 – As dificuldades do sistema educacional palestino não chamam a atenção da imprensa internacional como ocorre com as contínuas mobilizações não violentas em Gaza, Cisjordânia e Jerusalém oriental. Os protestos pacíficos feitos por anos contra o muro construído por Israel para separar seu território da Cisjordânia acabaram atraindo as câmeras da mídia internacional, mas a crise do ensino na Palestina permanece no esquecimento.

Cerca de 39 mil crianças de Gaza quase ficaram sem aula devido à destruição e a sérios danos causados a cerca de 280 escolas na ofensiva israelense de três semanas contra este território palestino, entre final de 2008 e começo de 2009, informou em julho deste ano a Irin, a agência de notícias da Organização das Nações Unidas. Por outro lado, em 88% das escolas da Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinos no Oriente Médio (Unrwa) e em 82% das estatais, as salas de aula estão superlotadas.

Entre 28 e 31 de outubro aconteceu, na Palestina, o Fórum Mundial da Educação (FME), como parte do programa do Fórum Social Mundial, com atividades em diferentes cidades e regiões, de Jaffa a Nazaré, passando por Jerusalém oriental, Belém e até a Faixa de Gaza. Sob o lema “Educação para a Mudança”, os participantes analisaram o analfabetismo em adultos e as desigualdades de gênero no ensino primário.

Também abordaram questões específicas como a ocupação e a independência, as necessidades psicológicas dos estudantes traumatizados pela guerra, a importância de manter a história e a cultura local nos programas, os obstáculos burocráticos e físicos para estudar dentro e fora da Palestina e as estratégias inovadoras em matéria de ensino que a população local utiliza após seis décadas de ocupação.

“A educação é um direito humano básico que não pode ser adiado nem descuidado em um conflito nem em caso de emergência, e também é primordial para proteger e manter a vida de crianças e jovens”, afirmou Mazen Hamada, da Universidade de Al-Azhar, em Gaza e um dos organizadores do FME. “As consequências do sítio contra Gaza excedem as questões econômica, agrícola, sanitária e ambiental, e prejudica a educação. Os êxitos acadêmicos baixaram em todos os níveis após o último ataque e cada vez há menos estudantes”, afirmou.

A proibição de importar papel e outros materiais atenta contra a educação. “Devido ao sítio, muitos pais estão desempregados e não podem pagar os estudos dos filhos. Os universitários não podem continuar suas aulas no estrangeiro e os professores não podem participar de conferências internacionais nem se capacitar”, acrescentou Mazen.

“Estudei história e geografia do Egito. Nunca vimos nem mesmo um mapa da Palestina na escola”, lembrou Abu Arab, de 30 anos, que estudou em Gaza quando o território era controlado pelo Cairo. “A cultura palestina não fazia parte do programa de ensino, especialmente porque os israelenses censuravam toda informação que não queriam que aprendêssemos”, acrescentou.

“É irônico, mas aprendi mais sobre a Palestina quando estive na prisão”, contou Abu Basel. “Os israelenses me prenderam aos 16 anos e ainda não havia terminado o secundário. Acabei meus estudos na prisão, onde estive por nove anos”, acrescentou. “Alguns presos tinham diploma universitário, outros mestrado ou haviam estudado no exterior. Organizávamos grupos para estudar a história da Palestina e sobre sionismo”, afirmou.

Um dos problemas específicos que o FME teve de enfrentar na Palestina foi o rígido controle de fronteira exercido por Egito e Israel. Ao encontro puderam chegar grupos da África, América Latina, do Canadá, da Europa e Japão, mas também foram realizadas videoconferências, transmissões pela Internet, paineis interativos com visitas a importantes áreas, e sobre cultura.

Os participantes do FME assistiram uma apresentação na cidade de Beit Hanoun, em Gaza, reuniram-se com pescadores, arruinados pelo estado de sítio e pelos ataques dos israelenses em águas jurisdicionais da Palestina. Para os agricultores da região de contenção não se trata apenas de melhorar a educação e sensibilizar a comunidade internacional sobre o futuro de seus filhos, mas de seu trabalho e seu sustento, destruídos sistematicamente por invasões israelenses.

O centro pré-escolar de Garrara, no sudeste de Gaza, é um dos muitos exemplos das dificuldades que sofrem os centros de ensino. “Estamos a um quilômetro da fronteira e os soldados israelenses costumam disparar contra os estudantes”, contou a professora Umm Mohammad. “Muitas crianças têm companheiros assassinados ou feridos por disparos de soldados de Israel. Isso os afeta psicologicamente e causa impacto em sua capacidade para estudar”, acrescentou. A escola continua danificada e os menores tiveram aula em barracas de campanha.

O FME se concentrou em assuntos que afetam especialmente os territórios palestinos, mas também aproveitou o conhecimento de ativistas, organizações e educadores para ressaltar a importância do ensino como forma de resistência, de paz e igualdade. “O Fórum é uma grande oportunidade para trocar informação e experiências entre organizações palestinas e internacionais, e melhorar o sistema educacional e a metodologia na Palestina”, disse Mazen.

“Transformar o mundo e libertar a humanidade do colonialismo, do racismo e da exploração exige uma população educada e lutadora. A educação é uma ferramenta importante para a liberdade”, diz uma declaração do Fórum. Envolverde/IPS

Eva Bartlett

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