ECONOMIA – ESTADOS UNIDOS: A tesoura fiscal aponta para o Pentágono

Washington, Estados Unidos, 23/11/2010 – Conforme aumenta a pressão nos Estados Unidos para reduzir o déficit fiscal de US$ 1,3 bilhão, cresce o debate quanto ao Pentágono ficar isento ou não dos cortes. Dois importantes informes bipartidários, divulgados nos últimos dez dias – incluindo um deles confiado ao próprio presidente Barack Obama – se expressaram contra uma exceção para o Departamento de Defesa. Contudo, líderes do opositor Partido Republicano, que controlará a Câmara de Representantes e recuperará influência no Senado em janeiro, após triunfar nas eleições do começo deste mês, parecem determinados a impedir qualquer redução nos gastos com a defesa.

Ainda não se sabe exatamente qual será a atitude de várias dezenas de republicanos identificados com o movimento ultraconservador Tea Party, vários dos quais ocuparão uma cadeira no Congresso e lançaram uma forte campanha para reduzir imediatamente os gastos do Estado. Embora alguns, especialmente Sarah Palin, ex-candidata republicana à vice-presidência do país, sejam a favor de um gasto militar maior, outros, como o senador Rand Paul, insistem em incluir o Departamento da Defesa nas reduções. Resta saber ainda se os republicanos mais inclinados à redução dos gastos militares formarão uma aliança com os legisladores do governante Partido Democrata

Neste ano, o orçamento do Pentágono passa dos US$ 530 bilhões, sem contar o adicional de US$ 182 bilhões investidos nas guerras do Afeganistão e do Iraque, e em operações contraterroristas no exterior. O orçamento militar norte-americano representa mais de 40% de todo o gasto em defesa do mundo, e aproximadamente cinco vezes maior do que o do segundo país com maior investimento em segurança externa, a China. Em grande parte devido à “guerra contra o terrorismo”, impulsionada pelo governo de George W. Bush (2001-2009), o orçamento militar dos Estados Unidos duplicou na última década. Também representa 55% dos gastos discricionários do governo, isto é, não obrigatórios, e quase 25% do orçamento total. Tudo isto o converte em um tentador objetivo da campanha contra o exorbitante déficit fiscal.

Antecipando-se à iminente batalha, o secretário da Defesa, Robert Gates, anunciou um plano para reduzir gastos em até US$ 100 bilhões nos próximos cinco anos, reformando procedimentos de compras, reduzindo a dependência de terceirizados e outras medidas para evitar o desperdício de dinheiro. Mas essas economias seriam recicladas dentro do próprio orçamento do Pentágono e, de todo modo, em termos reais, este cresceria pelo menos 1% ao ano. “Meu temor maior é que, nos momentos econômicos difíceis, as pessoas vejam no orçamento da defesa o lugar para resolver os problemas de déficit da nação”, disse Gates aos jornalistas em agosto, alertando que seria “desastroso fazer corte em um esforço para obter algum tipo de dividendo para colocar dinheiro em algum outro lugar”.

Apesar disso, 56 representantes democratas apresentaram em outubro uma carta à bipartidária Comissão Nacional sobre Responsabilidade Fiscal e Reforma – grupo de veteranos políticos reunidos pela Casa Branca para fazer recomendações sobre a redução do déficit –, e defenderam a inclusão do Pentágono em eventuais cortes. O grupo de legisladores esteve liderado pelo presidente do Comitê de Serviços Financeiros, Barney Frank, e pelo representante Ron Paul. Como copresidentes do Grupo de Trabalho de Defesa Sustentável, afirmaram que Washington deveria reduzir em US$ 1 bilhão os projetos de defesa para a próxima década. Isto seria feito principalmente freando as guerras no Afeganistão e no Iraque, fechando algumas das mais de 700 bases militares dos Estados Unidos em todo o mundo, e eliminando sistemas de armas caros e de questionável utilidade.

Diante disto, três centros de estudos apoiados por terceirizados na área da defesa, o neoconservador American Enterprise Institute, a ultradireitista Heritage Foundation e a Iniciativa em Política Externa, divulgaram um informe conjunto intitulado “Defendendo a Defesa” em importantes jornais. “O orçamento militar é uma fatia relativamente pequena do bolo norte-americano de mais de US$ 14 trilhões”, afirmaram, em referência ao produto interno bruto. “E é uma fatia que está diminuindo”, insistiu o informe, afirmando que o orçamento do Pentágono cairá de 4,9% para 3,6% em 2015, “mesmo com a nação destinando mais missões aos militares para as próximas duas décadas”.

Porém, quando a Comissão Nacional, copresidida pelo ex-chefe do Estado Maior Erskine Bowles, e pelo senador republicano Alan Simpson, apresentou seu relatório inicial no dia 10 deste mês, propôs reduções de, pelo menos, US$ 100 bilhões até 2015, como parte de um pacote de cortes para o orçamento geral. Especificamente, cobrou o cancelamento de vários sistemas importantes de armas, particularmente o jato de combate V-35, a aeronave militar V-22 Osprey e outros dois tipos de veículos de combate, além de outras reduções.

As recomendações foram logo criticadas por líderes republicanos, incluindo o provável próximo presidente do poderoso Comitê de Serviços Armados da Câmara de Representantes, Howard “Buck” McKeon, que alertou que o país não pode se dar ao luxo de “reduzir a defesa em meio a duas guerras”. Por sua vez, Gates afirmou que a proposta é pura “matemática, não uma estratégia”. Entretanto, ao mesmo tempo, alguns republicanos, em particular Rand e Ron Paul, o senador Tom Coburn e outros partidários de reduzir o déficit a todo custo, apoiaram o informe, afirmando que ajudaria a criar um espaço para o tão necessário debate.

Na semana passada, outro grupo convocado pelo Centro de Políticas Bipartidárias divulgou suas próprias recomendações para redução do déficit. O Grupo, integrado por ex-governadores, ex-senadores e líderes do setor privado, propôs um congelamento do gasto militar em seu nível atual nos próximos cinco anos, e a adoção de medidas com vistas a uma economia de US$ 430 bilhões no mesmo período e US$ 1,1 trilhão até 2020. Também propôs cancelar sistemas de armas muito caros e reduzir o número de fuzileiros navais. Envolverde/IPS

* O blog de Jim Lobe sobre política exterior pode ser lido em http://www.lobelog.com.

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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