GEZAMGOMO, Malawi, 03/12/2010 – O centro de partos de Cecilia Tomoka não foi usado durante três anos antes do terramoto de 2009 o ter destruído. Agora ela está a reconstruir o centro e também a sua actividade, uma vez que o governo malawiano levantou a proibição que recaía sobre as parteiras tradicionais.
Tomoka vive na aldeia de Gezamgobo, cerca de um quilómetro fora de Mzuzu, a terceira maior cidade do país. Começou a ajudar as mulheres a dar à luz em 1989 depois da avó – famosa por comunicar com os espíritos – lhe ter dito que era essa a sua vocação.
As agências das Naçoes Unidas estimam que a taxa de mortalidade materna seja actualmente de 510 mortes por 100.000 nados-vivos, uma diminuição da estimativa de 2005 de mais de 1.100 mortes por 100.000 nados-vivos. Em 2007, as parteiras tradicionais foram banidas num esforço destinado a obrigar um maior número de mulheres a dar à luz na presença de assistência médica qualificada.
Em Outubro, o Presidente do Malawi anunciou que a proibição imposta às parteiras tradicionais seria levantada. Em Janeiro de 2011, o governo do Malawi irá selecionar um primeiro grupo composto por pessoas de todo o país que receberão formação como parteiras comunitárias.
“Reduzimos o trabalho nos hospitais, porque há demasiadas mulheres grávidas fora deles,” disse Tomoka. “As trabalhadoras que fazem um bom trabalho devem receber incentivos, porque não recebemos nada pelo nosso trabalho.”
O Dr. Odongo Odiyo, que gere o planeamento familiar e os programas de saúde reprodutiva da Comunidade de Saúde da África Oriental, Central e Austral, discorda desta opinião.
Diz que o Malawi está a cometer um erro ao integrar as parteiras tradicionais no sector da saúde materna, visto que não se pode confiar nelas para tomarem conta dos partos. “Só podem trabalhar como um primeiro ponto de contacto em direcção a uma instituição de saúde convencional.”
Odiyo afirma que, apesar do facto de as parteiras tradicionais há muito prestarem assistência a grávidas durante o parto, muitas mulheres morreram a dar à luz enquanto estavam ao seu cuidado.
Há provas em contrário. Solomon Chih-Cheng Chen e os seus colegas estudaram 81 parteiras formadas pela Missão Médica do Taiwan em Mzuzu em 2004 e 2006. Ao longo de três anos, começando em 2004, este grupo de parteiras tradicionais formadas examinaram um pouco menos do que 2.000 mulheres grávidas. Setenta e nove grávidas foram enviadas para estabelecimentos de saús e não houve uma única morte materna entre as restantes mulheres. Vinte e seis nados-mortos foram registados entre os 1.905 bebés assistidos pelo grupo estudado.
O Professor Anthony Costello, do University College em Londres, pediatra com experiência de trabalho em países em desenvolvimento como o Malawi, afirma que as parteiras tradicionais e os trabalhadores comunitários podem efectivamente reduzir a taxa de mortalidade materna. Defende a disponibilização de um ‘kit de maternidade’ contendo pelo menos dois medicamentos essenciais e antibióticos para impedir infecções, assim como misoprostol para travar as hemorragias.
“Desde que comecei a manter registos em 2005,” diz Cecilia Tomoka, “assisti aos partos seguros de 200 bebés. Nenhum morreu.”
Vira cuidadosamente as páginas de um livro de apontamentos muito dobrado cheio de informação como a idade da mãe, o número de filhos que tem, o tempo que passou no parto, a condição do recém-nascido, que medicamentos – analgésicos- foram administrados à mãe durante o parto.
As assistentes de parto tradicionais não são uma panaceia paraa resolver a elevada taxa de mortalidade materna no Malawi, afirma um especialista de saúde materna, Lennie Kamwendo. Contudo, num país cheio de relatos horríveis de mulheres grávidas a darem à luz nas margens dos rios ou nas bermas de estradas poeirentas, dominadas pelas dores de parto enquanto tentam chegar, com dificuldade, aos centros de saúde onde cronicamente há falta de pessoal, a contribuição das parteiras tradicionais para uma maternidade mais segura não deve ser subestimada.
“Há muito tempo que as parteiras tradicionais no Malawi preenchem uma lacuna no sector da saúde materna ao assistirem as mulheres grávidas. Penso que devem receber formação básica regularmente e ser encorajadas a manter estatísticas de nascimentos e de mortes,” disse Kamwendo, Presidente da Associação das Parteiras do Malawi.

