Cancún, México, 13/12/2010 – Decepcionado pela oferta de redução de emissões contaminantes apresentada pelos Estados Unidos, o ministro do Meio Ambiente da Índia, Jairam Ramesh, declarou que seu país está disposto a aceitar reduções vinculantes, o que mudaria a posição oficial dos últimos 27 anos. Após uma entrevista coletiva na semana passada, durante a 16ª Conferência das Partes (COP 16) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, em Cancún, no México, Jairam, porta-voz do bloco Basic (Brasil, África do Sul, Índia e China) ficou no meio de um enxame de jornalistas.
Isto aconteceu depois que ele apresentou, entre três elementos “não negociáveis”, a necessidade de um financiamento inicial rápido. “Não foi rápido, nem mesmo iniciado e praticamente não há financiamento”, brincou. Jairam mostrou-se profundamente preocupado pelo oferecimento dos Estados Unidos de reduzir em 17% as emissões de carbono até 2020, em relação aos valores de 2005, o que resultaria em uma redução de 4% partindo dos registros de 1990, que são a base das partes do Protocolo de Kyoto.
Argumentou que, sem uma legislação nacional, as ações executivas poderiam conseguir somente uma redução de 14% entre 2005 e 2020, o que se traduziria em uma redução de 0% em relação às emissões de 1990. “Em qualquer caso, o oferecimento norte-americano de redução para 2020 é profundamente decepcionante. Uma coisa é ser ambicioso para 2050, quando todos estaremos mortos. Mas a questão real é: você se fará responsável para 2020? Os objetivos a médio prazo são essenciais”, acrescentou.
Os Estados Unidos planejam reduzir em 80% suas emissões de carbono até 2050, tomando por base os níveis de 2005. “Sem dúvida, esperamos que Washington melhore seus compromissos de redução de emissões, bem como sua oferta de um financiamento inicial rápido”, afirmou Jairam. O porta-voz do Basic apresentou as críticas aos Estados Unidos que muitos delegados murmuravam nos corredores da COP 16, sem falar abertamente. A ironia é que antes da COP 15, realizada há um ano, Jairam era visto como um político muito próximo dos Estados Unidos.
Jairam escreveu uma carta confidencial ao primeiro-ministro, Manmohan Singh, argumentando que a Índia deveria aceitar voluntariamente reduzir suas emissões, como Washington vinha pedindo a esse país e à China. Os partidos políticos de oposição se levantaram contra esta carta, cujo teor vazou, e Jairam teve de renegá-la. Agora, reinventou a si mesmo como representante não apenas dos negociadores da Ásia meridional, como também, provavelmente, de todo o continente. E surge uma sensação de situação já vivida, pois a Índia desempenhou este papel na Cúpula da Terra de 1992 no Rio de Janeiro. O que Jairam demonstrou amplamente em Cancún não foi apenas estilo, mas também substância.
Em novembro, escreveu a Todd Stern, enviado especial do presidente Barack Obama para a mudança climática, a fim de apresentar-lhe um acordo para que os países em desenvolvimento controlem, informem e verifiquem suas ações de controle climático em troca de financiamento, junto com consultas e análises internacionais. Também propôs que este último ponto tenha lugar a cada dois ou três anos no caso de nações cujas emissões superem 1% do total. O regime para os países industrializados será muito mais rigoroso. Cada um deles terá de apresentar estes dados a um Organismo Subsidiário de Execução.
Em seu encontro com a imprensa, Todd se referiu com palavras de aprovação ao projeto de Jairam. Porém, disse que, por exemplo, China e Índia fixaram para si objetivos pelos quais reduziriam suas pegadas de carbono sob a forma de uma porcentagem de seus respectivos produtos internos brutos, mas cada país teria seu próprio método para calcular esse PIB, o que apresentava problemas.
Jairam, sempre visto como um dissidente na chata classe política indiana, pode estar jogando seu próprio jogo. No dia 8, disse que seu país está disposto a aceitar reduções vinculantes das emissões. Isto pode explicar seu histrionismo em relação aos Estados Unidos, enquanto, na realidade, capitula diante de sua pressão, junto com a de outros países do Sul da Ásia e pequenos Estados insulares que têm urgência em receber financiamento inicial rápido. Envolverde/IPS

