Monróvia, Libéria, 14/12/2010 – Termina o recreio em uma pequena escola da capital da Libéria. Meninos e meninas com brilhantes uniformes em azul, amarelo e branco retornam às salas de aula.
A maioria destas crianças nasceu durante a guerra civil que durante 14 anos açoitou a Libéria. Por causa dos combates era muito perigoso ir à escola. Alguns pais temiam que seus filhos fossem sequestrados e obrigados a se converter em crianças-soldado. Todos tiveram a educação afetada, mas foram as mulheres e as meninas as que mais sofreram. Os últimos números da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) indicam que apenas cinco em cada dez mulheres liberianas maiores de 15 anos sabem ler ou escrever, enquanto nos homens a taxa é de seis em cada dez.
Este país da África ocidental apresenta um dos mais baixos índices de alfabetismo, e situa-se entre os últimos 15 postos da lista da Unesco. “Meu nome é Erica. Tenho nove anos e vou à escola internacional da Christian Ministry Fellowship”, conta orgulhosa esta aluna diante de seus colegas de classe. Erica é uma das estudantes da nova geração na Libéria que aprendem a ler e escrever usando novas técnicas jamais vistas na África ocidental.
O novo programa Avaliação sobre Leitura em Primeiro Grau começou em outubro de 2008. Foram escolhidas 180 escolas em sete dos 15 condados do país, tanto de áreas urbanas como rurais, para participar deste projeto-piloto financiado pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid). “Foi uma experiência fascinante e também um grande desafio”, disse Ollie White, que coordenou o projeto. “Assustou um pouco no começo, porque todo o enfoque sobre o ensino da leitura era novo na Libéria”.
Basicamente, o projeto se concentra em criar consciência fonêmica, isto é, desenvolver a capacidade dos alunos para reconhecer individualmente os sons que formam as palavras e vinculá-los com letras e padrões gráficos. Professores nos diversos condados foram treinados para aplicar este novo método didático, e também para supervisionar outros professores. Os resultados falam por si mesmos. Os alunos foram examinados em fluidez de leitura oral e compreensão da leitura no começo do programa. Completados dois anos, as notas de suas provas, em média, triplicaram.
As crianças que participaram da iniciativa aprenderam em um ano o equivalente a três anos na educação tradicional. Na sala de aula, os companheiros de Erica a aplaudem quando termina sua leitura. “Me sinto feliz. Por muitas coisas. Me ensinaram os fonemas e como ler. Estou feliz de ver meu professor e meus amigos”, disse. Uma das surpresas do projeto foi o destacado progresso das meninas. Suas notas duplicaram, em média, em relação às dos meninos.
“Encontramos um impacto positivo na aprendizagem das meninas em todas as escolas participantes do projeto”, disse Marcia Davidson, conselheira em instrução de leitura do projeto. A consciência fonêmica foi usada no Ocidente por muitos anos. Em 2001, o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, anunciou que seria a base do programa de alfabetização de seu país. Na Grã-Bretanha, foi introduzida em 1998, e é a primeira vez que é usada em grande escala na África ocidental.
O projeto chegou ao fim, mas o Ministério da Educação e a Usaid o incluíram no mais amplo programa Capacitação de Ensino da Libéria, que também inclui novos procedimentos para o aprendizado das matemáticas. “Acredito neste programa e na pesquisa e no apoio de professores e pais. Estou convencido de que se trata da melhor intervenção que podemos fazer para o sucesso dos alunos”, disse o vice-ministro da Educação, Mator Kpangbai. Envolverde/IPS


