Regimes árabes temem a “Intifada do pão”

Cairo, Egito, 19/01/2011 – “Rasgue meu coração, mas não toque em meu pão”, diz um provérbio árabe. Não segui-lo pode ter um alto custo político. Basta perguntar ao deposto presidente de Tunísia, Zine El-Abidine Ben Ali. Durante várias semanas, os tunisianos protestaram contra o alto desemprego, a corrupção endêmica e a repressão política. Também se queixaram do alto custo dos alimentos básicos, como trigo, açúcar e leite, cujos preços dispararam cerca de 25% na primeira semana deste mês. “Queremos pão, água e Ben Ali fora”, gritava um grupo de manifestantes.

No dia 14, depois que uma brutal repressão e concessões de último minuto não conseguiram conter os manifestantes, o presidente fugiu com sua família para a Arábia Saudita. Analistas coincordam que Ben Ali, que governou o país com mão dura durante 23 anos, subestimou o mal-estar público. Foi um erro capital para um governante veterano que, segundo um telegrama diplomático divulgado pelo Wikileaks, não tinha quase contato com seu povo.

O presidente deveria ter recordado dos protestos de 1984 pelo preço do pão, que deixaram 80 mortos e quase acabaram com o governo de seu antecessor, Habib Bourguiba. Manifestações similares já haviam eclodido no Egito em 1977, no Marrocos em 1981 e na Jordânia em 1989. Também foram protestos contra a alta no preço do pão que quase deram aos islâmicos o controle do parlamento da Argélia, situação que derivou em uma guerra civil que durou uma década.

Procurar alimento barato é parte de um pacto não escrito entre os regimes árabes e seu povo. Desde a década de 1950, os governantes do Oriente Médio e do norte da África entregam alimentos subsidiados, como pão, leite e ovos, para manter a massa calma. “Embora funcionários reconheçam a carga que representam tais subsídios nos orçamentos nacionais, temem reduzi-los ou eliminá-los”, disse o economista Abdel Fatah El-Gebali, do Centro Al-Ahram para Estudos Políticos e Estratégicos. “Temem causar uma inflação e uma agitação social”, ressaltou.

Nos corredores do parlamento do Egito, país que destina cerca de 7% de seu produto interno bruto para subvencionar combustíveis e alimentos, fala-se de planos para reestruturar este beneficio. O governo quer substituir o atual sistema em “espécie” por pagamentos em dinheiro aos que mais precisam. Mas o plano é constantemente atrasado por funcionários governamentais que temem causar mal-estar no público.

Os antiquados e ineficientes sistemas de subsídios aplicados de Rabat a Riad agora são questionados devido aos altos preços internacionais dos alimentos e dos combustíveis. Os governos árabes enfrentam um dilema: absorver os custos extras da inflação nos programas nacionais de subsídios, com risco de aumentar o déficit orçamentário, ou permitir que os preços disparem, com a ameaça de desatar um levante popular. A Tunísia parece que escolheu mal.

Naturalmente, a inflação não é o único fator. É a mescla de pobreza, alto desemprego, disparidade econômica e crescente custo de vida que converte a região em um barril de pólvora. Dados da Organização Árabe do Trabalho mostram que os países do Oriente Médio e do norte da África têm os mais altos índices de desemprego no mundo: média de 14,5% no ano fiscal 2007-2008, contra a média internacional de 5,7%. E as taxas podem ser ainda maiores, segundo estimativas não oficiais. No Egito, 20% da população sobrevive com US$ 2 por dia (a linha de pobreza reconhecida pela Organização das Nações Unidas), na Argélia 23%, no Marrocos 14,3%, na Tunísia 12,8% e no Iêmen mais de 45%.

O levante que derrubou o presidente tunisiano não foi um movimento político, mas uma revolta espontânea de cidadãos que não podiam atender suas necessidades básicas. Começou quando Mohammad Bouazziz, com 26 anos e diploma universitário, se imolou com fogo depois que a polícia confiscou a carreta sem licença que usava para vender alimentos e sobreviver.

“Os tunisianos e os argelinos estão famintos. Os egípcios e os iemenitas estão logo atrás deles”, escreveu o analista Mishaal Al Gergawi no jornal The Gulf News, dos Emirados Árabes Unidos. “Mohammad Bouazizi não se imolou porque não podia ter um blog ou votar. As pessoas se imolam por não poderem ver sua família partir lentamente, não de tristeza, mas por profunda fome”, acrescentou.

A morte do jovem no dia 17 de dezembro desatou uma agitação popular que derrubou o governo tunisiano e ameaça estender-se a outras nações árabes. Os regimes da região devem se preocupar? Até agora conseguiram reter o poder por meio de eleições fingidas e neutralizando e desmoralizando a oposição política. Mas uma Intifada (levante popular) pelo pão pode ser uma força impossível de conter. Envolverde/IPS

Cam McGrath

Cam McGrath is a Cairo-based correspondent. He joined IPS in 2001 and reports on politics, human rights and environmental issues in Egypt and the Arab world.

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